MPF instaura inquérito para apurar contaminação em Angra 2

Publicado em maio 28, 2009 por

Tags: acidente nuclear, energia nuclear

Usinas de Angra 1 e 2. Foto de Norbert Suchanek
Usinas de Angra 1 e 2. Foto de Norbert Suchanek

Segundo a Cnen, o problema não trouxe consequência aos funcionários, à população e ao meio ambiente

O Ministério Público Federal (MPF) em Angra dos Reis instaurou inquérito civil nesta quarta-feira, 27, para apurar o “evento não-usual” ocorrido há 13 dias na Usina de Angra 2 que resultou na contaminação – oficialmente já afastada – de quatro funcionários com material radioativo. Os procuradores pediram esclarecimentos à Eletronuclear, à Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e à Defesa Civil. Segundo a Cnen, a contaminação já foi removida e o problema não trouxe consequência aos funcionários, à população e ao meio ambiente. Matéria de Felipe Werneck, no O Estado de S. Paulo.

O prefeito de Angra, Tuca Jordão (PMDB), afirmou que a Cnen omitiu a informação de que quatro pessoas haviam sido contaminadas no primeiro comunicado sobre o fato, feito por telefone, às 17h35 do dia 15, 1h20 após o problema ter sido constatado. Segundo ele, foi informado apenas que havia ocorrido um “alarme de taxa de atividade alta na chaminé de descarga de gases”. Jordão disse que pedirá, na próxima reunião do Sistema de Proteção ao Programa Nuclear Brasileiro (Sipron), que reúne 15 órgãos públicos, na terça-feira, uma mudança na forma de divulgação feita pela Cnen. Segundo ele, os relatórios são vagos. “O que eu quero é transparência total em relação a qualquer evento. Por que não informaram no mesmo dia que houve contaminação de funcionários? Isso mostra que existe uma falha no sistema”, disse Jordão, que é favorável à construção de Angra 3.

O diretor de Radioproteção e Segurança Nuclear e presidente interino da Cnen, Laércio Vinhas, afirmou que o procedimento foi correto, mas disse não ter objeção a uma eventual mudança na regra de divulgação dos chamados eventos não-usuais. Na escala internacional de eventos nucleares da Agência Internacional de Energia Atômica, esses eventos são classificados como de nível 1 (“anomalia ou desvio operacional”), numa escala de 0 a 7. “O evento não-usual foi deflagrado em função do alarme, e não da contaminação. Nosso objetivo é transmitir com objetividade o que acontece e evitar uma falsa interpretação. Mas podemos enriquecer os relatórios e estabelecer um ponto de equilíbrio com o prefeito. Melhorar é sempre possível.”

Sobre o fato de o problema ter sido divulgado à imprensa com atraso de 12 dias, a responsabilidade cabe à Eletronuclear. A empresa informou que “não é o procedimento normal divulgar todos os eventos não-usuais”. De acordo com a Eletronuclear, o motivo é evitar que ocorra um alarme desnecessário. A empresa informou que nos últimos anos ocorreram em média dois casos semelhantes de contaminação de funcionários por mês, e que o procedimento usual para descontaminação é a limpeza das partes do corpo com água e sabão. Quantos aos chamados eventos não-usuais (que podem ou não causar contaminação de funcionários), houve três este ano e três no ano passado em Angra 2. Na Usina de Angra 1 foram oito no ano passado e três este ano.

De acordo com a Cnen, o evento do dia 15 ocorreu por causa do “uso inadequado de um procedimento de manutenção de um equipamento” no edifício auxiliar de Angra 2. Quatro trabalhadores foram contaminados em níveis abaixo de 0,1% dos limites estabelecidos em norma, segundo a Cnen. Eles faziam a manutenção de tubos metálicos. “A equipe de proteção radiológica iniciou os trabalhos de descontaminação; em seguida, os trabalhadores passaram pelos portais da área controlada da usina e nenhum alarme foi acionado, ou seja, confirmando-se que a contaminação havia sido removida. Complementarmente, os especialistas da área de Proteção Radiológica encaminharam os trabalhadores para o Centro das Radiações Ionizantes para exames adicionais e esses exames confirmaram não haver nenhuma contaminação.” A liberação ao meio ambiente foi de cerca de 0,2% dos limites estabelecidos, informou a Cnen. “Logo, o sistema de filtragem de ar que tem como função bloquear a saída de radionuclídeos através da chaminé funcionou adequadamente.”

[EcoDebate, 28/05/2009]

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Comentários (2)

 

  1. Tomara que isso seja bem esclarecido e gere consequências legais que assegurem maior proteção ao cidadão trabalhador e consumidor. Quanto ao atraso na divulgação do evento, já vimos que, embora inaceitável, isso é quase um padrão no mundo todo.
    Maristela.