março 23, 2009

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Consumo de água engarrafada é uma tragédia ambiental, por Henrique Cortez

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água engarrafada

[EcoDebate] A indústria da água engarrafada é uma das atividades que mais crescem no mundo, mesmo diante de uma grande crise financeira global. O competente marketing da indústria fixou no inconsciente das pessoas o mito de que a água engarrafada é mais segura e saudável.

Mas, se ignorarmos o mito, veremos que consumir água engarrafada, onde a água da rede é tratada e potável, é uma injustificável insanidade ambiental.

No Brasil, é um mercado de 7 bilhões de litros ao ano, com um crescimento anual de 10%. Em termos mundiais, em 2007, foram consumidos 206 bilhões de litros de água engarrafada, com um faturamento de US$ 100 bilhões.

Não existe consumo sem impacto ambiental e com a agua engarrafada não é diferente. O consumo responsável e o consumismo alienado podem ser diferenciados pelo impacto do consumo e pela sua sustentabilidade. A água engarrafada é, essencialmente, ambientalmente insustentável.

Bem, o mito, já incorporado ao inconsciente coletivo, diz que a água mineral natural é mais segura e saudável do que a água tratada de torneira. Será?

A água tratada de torneira é captada em águas superficiais, recebendo tratamento de filtragem e adição de cloro, o que a faz potável. O tratamento, no entanto, não elimina eventuais contaminações por metais pesados e agrotóxicos, por exemplo.

Ao longo do sistema de distribuição pode ser contaminada pela má qualidade das adutoras/tubulação ou nas caixas d’água.

A água mineral natural é captada em fontes subterrâneas e não recebe qualquer tipo de filtragem ou tratamento. Em geral contem mais sais minerais do que a água tratada.

Em termos reais, esta é a única vantagem da água mineral sobre a tratada.

As fontes subterrâneas e os aqüíferos também podem e freqüentemente são contaminados por metais pesados e agrotóxicos. Além disto, não recebendo tratamento e adição de cloro, a água mineral natural pode ser contaminada por bactérias.

A potabilidade da água tratada distribuída pelas concessionárias é rigorosamente acompanhada pelos órgãos ambientais. O mesmo já não é verdade em relação às centenas de engarrafadoras.

Não são raras as notícias de que fontes e engarrafadoras de água mineral são interditadas em razão da contaminação por bactérias.

Existem muitos problemas de qualidade, tais como cor e sabor, na água tratada, mas pelo simples fato de que ela é tratada já a faz mais segura do que a natural engarrafada.

Isto sem falar que, em termos de R$/L, a água tratada chega às nossas casas por menos de R$ 0,002 por litro.

Em outra perspectiva a água engarrafada possui impactos ambientais muito maiores do que a tratada.

Um estudo [Energy implications of bottled water]publicado na revista Environmental Research Letters, 4 No 1 (January-March 2009), estimou que, em 2007, nos EUA, foram consumidos 33 bilhões de litros (110 litros per capita) de água engarrafada, com um consumo de energia, para produção, distribuição e estocagem, quantificado como algo entre 32 e 54 milhões de barris de petróleo (o volume pode variar dependendo do processo de distribuição e distância entre os centros produtores e consumidores).

Engarrafar estes 33 bilhões de litros de água consumiu 1 milhão de toneladas de PET, que, por sua vez, equivale a pouco mais de 15 milhões de barris de petróleo.

O estudo conclui que a ‘pegada’ energética da água engarrafada é 2 mil vezes maior do que a água tratada de torneira.

O outro impacto óbvio, mas desprezado pelos consumidores, é a própria garrafa PET como resíduo.

No Brasil, pouco mais de 55% das garrafas PET são destinadas à reciclagem, o que significa dizer que bilhões de garrafas irão entupir nossos rios e mananciais, ou sobrecarregar os aterros sanitários.

Enfim, a água engarrafada não é, de fato, mais segura ou saudável, é muito mais cara do que a água tratada e seus impactos ambientais são significativos.

Então, consumir por que?

Henrique Cortez, henriquecortez{at}ecodebate.com.br
coordenador do EcoDebate
batendo bumbo...

Nota do EcoDebate: sobre este mesmo tema sugerimos que leiam o artigo “água engarrafada: O consumo supérfluo“, de Rogério Grassetto Teixeira da Cunha

[EcoDebate, 23/03/2009]

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Um comentário
23/03/2009

Concordo plenamente com vc, Henrique, mas vejo como é difícil opor a razão ao mito, mesmo quando os fatos em que aquela se fundamenta são inegáveis.
Maristela.

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