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O degelo da Groenlândia ameaça às áreas costeiras do mundo, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

 

O degelo da Groenlândia ameaça às áreas costeiras do mundo, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Groenlândia: média anual do degelo

 

[EcoDebate] A Groenlândia está em processo acelerado de degelo devido ao aquecimento global, provocado pelo crescimento da emissão de gases de efeito estufa, gerado pelo aumento exponencial das atividades antrópicas, incentivado pela concentração de capital e riqueza.

Uma ilha continental, tranquila, despovoada e gelada, localizada no Atlântico Norte, próxima ao Ártico, é a principal vítima dos efeitos perversos do crescimento incessante da produção de bens e serviços para satisfazer o bem-estar do ser humano, que é a espécie predadora responsável pelo surgimento do Antropoceno, época que deve ficar marcada na história geológica pela 6ª extinção em massa da biodiversidade da Terra.

Reportagem do site da CNN mostra (com imagens incríveis) que a perda de gelo da Groenlândia aumentou dramaticamente nas últimas décadas. Entre 1992 e 2001 o degelo foi de 34 gigatons em média (34 bilhões de toneladas métricas) e passou para uma média anual de 280 gigatons (280 bilhões de toneladas métricas).

Se todo o gelo da Groenlândia derreter pode elevar o nível dos oceanos em até 7 metros. Mas um degelo de somente 30% já seria suficiente para fazer os mares subirem 2,1 metros. Estimativas do IPCC e da NASA indicam que o nível das águas marinhas pode subir mais de 2 metros até 2100, no cenário mais dramático. Isto seria suficiente para inundar áreas urbanas onde vivem bilhões de pessoas, além de inundar o delta dos principais rios do mundo e inúmeras áreas agrícolas.

Os pesquisadores da Universidade Oceânica da China, liderados por Xianyao Chen, fizeram reanálise estatística dos principais fatores que contribuem para a subida global do nível dos mares e concluíram que o derretimento de gelo sobre os continentes, que em 1993 respondia por cerca de 40% da variação no nível do mar, passou a ser o fator dominante de mudança, com 60% da contribuição em 2014.

Uma grande parte dessa fatia, de cerca de 25%, vem da perda de glaciares de montanhas. Mas tem crescido a contribuição das grandes massas de gelo da Terra, como a Groenlândia, que passou de 5% a 25% do total de água em excesso derramada nos oceanos nesse período.

É difícil projetar os impactos específicos da elevação do nível dos mares em todos os lugares, pois o aumento não é homogêneo e nem linear. Alguns lugares serão mais afetados do que outros. Mas uma coisa é certa: todos os países litorâneos perderão, uns mais do que outros, mas ninguém ficará a salvo do avanço das águas salgadas.

Por exemplo, no segundo semestre de 2017 diversas praias do Rio de Janeiro foram atingidas pelas ressacas e pelo avanço do mar. As praias do Flamengo, de Ipanema e do Recreio dos Bandeirantes. A erosão causou estragos do Leme ao Pontal. A Praia da Macumba, na Zona Oeste do Rio, perdeu parte do muro de contenção colocado pela prefeitura e grandes trechos da calçada desabaram com a força das ondas.

 

praia da macumba, rio de janeiro, 2017

 

Como já escrevi anteriormente (Alves, 05/10/2016), as praias da maioria das cidades do planeta correm o risco de serem “varridas do mapa”. Este processo pode ser socialmente grave na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, que é a maior e mais complexa aglomeração urbana da zona costeira brasileira, com mais de 12 milhões de habitantes. De todas as zonas ameaçadas, a Barra da Tijuca e arredores é, entre os grandes bairros da Cidade Maravilhosa, a área mais vulnerável ao avanço do nível do mar e às inundações provocadas por ressacas, chuvas e tempestades.

Artigo de Dieter Muehe e Paulo Rosman (2011), mostra que a orla do Rio de Janeiro exposta e voltada para o oceano aberto se apresenta extremamente vulnerável considerando sua orientação diretamente voltada para a incidência de ondas de tempestade e seu déficit potencial de sedimentos. Eles dizem: “Em suma, para os diversos cenários de elevação do nível do mar as praias oceânicas urbanas, devido à sua ‘fixação’ com muros, ficam impedidas de se ajustar por meio de retrogradação e tenderão a perder areia, efeito acelerado pelo refluxo das ondas nos obstáculos impermeáveis representados pelos mesmos muros” (p. 78). Eles ainda mostram (p. 81) que as principais consequências da elevação do nível do mar são:

1) Tendência de translação das praias e cordões de dunas em direção a terra.

2) Onde houver ruas e avenidas na retro?praia haverá diminuição das faixas de areia e potencial risco de ataque de ondas diretamente nas benfeitorias públicas.

3) Recuo das linhas de orla em regiões de baixadas de lagoas costeiras e baías, em função da subida do nível médio relativo da água. Nestes locais, é provável que a taxa de elevação do nível médio do mar seja superior à média, visto que se trata de regiões sedimentares geologicamente recentes, cujos terrenos tendem a sofrer subsidências. Portanto, potencialmente o problema é mais grave.

4) Problemas de macrodrenagem em águas interiores, especialmente em zonas urbanas situadas em baixadas de baías e lagoas costeiras aumentando a tendência de alagamentos. As águas fluem de cotas mais altas para cotas mais baixas e a velocidade do escoamento depende do desnível. Com a subida do nível médio relativo diminuem os desníveis, diminuindo a declividade relativa e consequentemente a velocidade dos escoamentos.

5) Aumento da profundidade média de lagoas costeiras e baías.

6) Aumento da intrusão salina em zonas estuarinas levando a causar aumento ou diminuição de manguezais, em função da disponibilidade de áreas de expansão, e, mais para montante, potencial problema de captação de água salobra em locais que hoje captam água doce.

 

áreas sujeitas à inundação da Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes, RJ

 

Ou seja, a avenida Lúcio Costa funciona como uma barreira artificial que contém o avanço das ondas e das marés na Barra da Tijuca. Mas esta barreira vai ficar cada vez mais frágil na medida em que o nível do mar sobe. Com as tempestades mais intensas na terra e no mar, as ondas ficam mais altas e as marés meteorológicas mais elevadas. Assim, a praia da Barra da Tijuca terá diminuição das faixas de areia e a Avenida Lúcio Costa deverá sofrer sérios problemas de erosão e possível destruição de áreas mais vulneráveis. Os sistemas de saneamento e água vão ser afetados e diversos equipamentos públicos (hospitais, escolas, etc.) devem ser danificados.

Portanto, os cariocas deveriam prestar atenção ao que acontece na Groenlândia, no Ártico, na Antártida e nos glaciares, pois o futuro do Rio de Janeiro depende do ritmo do degelo no mundo. Também a maioria dos brasileiros – que vivem em áreas litorâneas –deveriam ficar preocupados com o que acontece na Groenlândia.

Mas, além do Rio de Janeiro, outras cidades do mundo vão sofrer com a elevação do nível do mar e as enchentes. A cidade de Paris, neste mês de janeiro de 2018, enfrenta grandes enchentes devido à elevação do rio Sena. A “cidade luz” vive uma das maiores enchentes da sua história, repetindo o que ocorreu em 2016, e corre o risco de passar por um prejuízo sem precedentes. O museu do Louvre pode estar com os dias contados. As futuras enchentes tendem a ser mais destrutivas, pois a elevação das águas do Sena tende a se agravar com o aumento do nível do mar, que diminui a velocidade de vasão do rio.

O degelo é apenas uma consequência do aquecimento global, que por sua vez, é consequência da emissão de gases de efeito estufa, que também é consequência do crescimento demoeconômico exponencial dos últimos 200 anos.

Enfim, grande parte do avanço do bem-estar humano gerado pelo aumento da produção e do consumo pode acabar debaixo d’água.

A humanidade deveria reavaliar o mito do crescimento econômico exponencial, pois o sonho de riqueza e domínio humano sobre a natureza pode acabar no fundo do oceano como se as áreas urbanas costeiras do mundo fossem uma grande Atlântida pós-moderna.

Referências:

ALVES, JED. O fim da Barra da Tijuca? Ecodebate, RJ, 05/10/2016
https://www.ecodebate.com.br/2016/10/05/o-fim-da-barra-da-tijuca-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

Dieter Muehe; Paulo C. C. Rosman. A orla costeira da Região Metropolitana do Rio De Janeiro: impactos das mudanças climáticas sobre o meio físico. Megacidades, Vulnerabilidades e Mudanças Climáticas: Região Metropolitana do Rio de Janeiro, CST/INPE e NEPO/UNICAMP, 2011
https://s3.amazonaws.com/tapajos/Megacidades/3_Orla.pdf

CNN. Global Warning: Greenland’s melting glaciers may someday flood your city. Cable News Network, 2017
http://edition.cnn.com/interactive/2017/11/world/greenland-global-warning/

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/01/2018

[cite]

 

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