Mudanças climáticas reduzem a produção de alimentos

O ciclo de retroalimentação climática já reduz as colheitas, aumentando os preços e agravando a fome global
A agricultura é simultaneamente causa e vítima da crise climática
A relação da humanidade com a terra tornou-se perigosamente autodestrutiva. O setor agroalimentar é responsável por quase um terço das emissões globais de gases de efeito estufa, o que o torna um dos principais contribuintes para a crise que agora ameaça o seu futuro.
Calor extremo, inundações catastróficas e secas prolongadas, intensificados por décadas de emissões agrícolas, estão agora afetando os campos que produzem nossos alimentos. O ciclo vicioso está completo e suas consequências já são sentidas nos números das colheitas, nos preços dos alimentos e nas estatísticas de fome em todo o mundo.
Queda na produtividade está acontecendo agora
Isso não é mais um alerta sobre um futuro distante. Um estudo publicado na revista Nature, baseado em observações de mais de 12.000 regiões em 55 países e analisando culturas que fornecem dois terços das calorias da humanidade, oferece o panorama mais abrangente até o momento sobre a dimensão do problema.
Levando em conta a adaptação realista por parte dos agricultores, os pesquisadores estimam que a produção global de calorias provenientes de culturas básicas, em um futuro com altas emissões, será 24% menor em 2100 do que seria sem as mudanças climáticas.
Essa trajetória já está em curso. As mudanças climáticas já representam um impacto negativo líquido na produção agrícola e estima-se que, entre 1980 e 2008, a produção global de milho tenha diminuído em 3,8% e a de trigo em 5,5%. Cada fração de um ponto percentual representa milhões de toneladas de alimentos e riscos para incontáveis vidas.
Em um mundo três graus mais quente, a matemática se torna alarmante. Perder um quarto da capacidade de produção de culturas básicas equivale, em termos nutricionais, a retirar uma refeição por dia de cada pessoa no planeta.
Quem perde mais?
Os danos não são distribuídos igualmente e aí reside um desafio moral. Regiões do Canadá, da China e da Rússia podem se beneficiar do aquecimento global em termos de produtividade agrícola, enquanto as perdas mais acentuadas são projetadas nos principais celeiros agrícolas e nas comunidades de agricultura de subsistência, com perdas de produtividade que podem chegar a uma média de 41% nas regiões agrícolas mais ricas e 28% nas regiões de menor renda até 2100.
Os países de baixa e média renda suportarão grande parte do fardo, com a maior parte do aumento da fome concentrada na África Subsaariana. Os pequenos produtores, que constituem a maioria dos produtores agrícolas nessas nações, enfrentam redução na produção agrícola, com graves consequências para seus meios de subsistência.
Na África, os níveis de fome aumentaram em todo o continente, exceto na África Oriental, com mais de uma em cada cinco pessoas enfrentando agora fome crônica, um número que acarreta graves implicações para a estabilidade regional.
Além das calorias, a qualidade nutricional também está em declínio, com reduções documentadas no teor de proteínas e minerais essenciais em culturas básicas cultivadas sob níveis elevados de CO₂ atmosférico.
Água, solo e o ciclo de retroalimentação
A escassez de água agrava todos os outros desafios. Prevê-se que a seca se alastre por mais de 80% das terras agrícolas do mundo até 2050. O calor extremo acelera a degradação do solo por meio da erosão e da perda de nutrientes, e as consequências vão além da perda de produtividade.
Solos degradados armazenam menos carbono e exigem mais fertilizantes químicos, cuja aplicação libera óxido nitroso, que é um gás de efeito estufa aproximadamente 300 vezes mais potente que o CO₂. A crise do solo não apenas reduz a produtividade; ela agrava ativamente o aquecimento que causa a crise em primeiro lugar.
O que antes eram choques climáticos isolados agora se tornaram rotina, colocando em risco as colheitas agrícolas e, em última análise, elevando os preços dos alimentos. Prevê-se que, até 2050, as mudanças climáticas aumentarão os preços globais das commodities em até 18%, e até 78 milhões de pessoas a mais poderão enfrentar a fome crônica como consequência.
Ciência, políticas públicas e inclusão
As soluções existem. O que falta é a velocidade e a escala da sua implementação.
Redução da emissão de gases estufa e descabonização da economia. Além da transição energética, justa e inclusiva, também são prioritárias a redução do consumo de combustíveis fósseis, a eliminação do desmatamento e a recuperação e renaturalização de áreas degradadas
Adoção da agroecologia em substituição da produção agroindustrial. A agroecologia é uma abordagem integrada simultaneamente que aplica conceitos e princípios ecológicos e sociais ao design e manejo de sistemas alimentares e agrícolas, agindo para otimizar as interações entre plantas, animais, seres humanos e meio ambiente, levando em conta os aspectos sociais que devem ser abordados para um sistema alimentar sustentável e equitativo.
A agricultura de precisão está entre as fronteiras mais promissoras. Variedades de culturas resistentes ao clima já estão sendo testadas em regiões propensas à seca. A produção agrivoltaica, definida como o uso duplo da terra para agricultura e geração de energia solar, oferece um modelo para produzir alimentos e energia limpa simultaneamente, reduzindo tanto a pressão sobre a terra quanto as emissões.
Modelos sustentáveis de manejo da água e do solo, incluindo o plantio direto e a cobertura morta direcionada para reduzir a evaporação, podem preservar a estrutura do solo e reduzir drasticamente o consumo de água. A melhoria da infraestrutura de irrigação, principalmente no Sul Global, é essencial para que os pequenos agricultores se mantenham produtivos em uma era de chuvas cada vez mais imprevisíveis.
A diversificação de culturas e a fixação de nitrogênio, integrando culturas perenes e plantas fixadoras de nitrogênio em rotações de culturas, reduzem a dependência de fertilizantes químicos e aumentam a resiliência do solo a longo prazo, diminuindo as emissões que causam o problema e, ao mesmo tempo, melhorando a produtividade.
Políticas públicas e inclusão são igualmente indispensáveis. Políticas agrícolas resilientes ao clima precisam ser direcionadas para abordar os contextos políticos locais e nacionais, os fatores culturais e sociais e as condições agroecológicas, a fim de serem eficazes e inclusivas. Os governos devem desmantelar ativamente as barreiras socioeconômicas que impedem os pequenos agricultores e, em particular, as mulheres, as comunidades indígenas e os produtores de subsistência, de acessar tecnologias resilientes ao clima. O conhecimento ecológico tradicional, acumulado ao longo de gerações, deve ser valorizado e integrado às estratégias de adaptação, em vez de ser ignorado.
Os gastos globais com agricultura aumentaram em 2024, mas os gastos em outros setores aumentaram proporcionalmente, o que significa que a participação da agricultura no investimento permaneceu estagnada em 2,3%. Isso é insuficiente para a escala de transformação necessária.
A urgência não pode ser subestimada
O abastecimento de alimentos já está sendo afetado. Uma perda de 5% ou 10% na produtividade agrícola pode parecer abstrata em uma planilha, mas, na prática, se traduz em centenas de milhões de pessoas enfrentando fome, preços mais altos dos alimentos e pobreza ainda mais profunda.
A adaptação não é mais uma opção a ser ponderada em relação ao custo da ação; é uma condição essencial para a sobrevivência.
Decisões e ações atuais definirão os resultados nos próximos anos, determinando se as gerações futuras ainda terão comida suficiente.
Referências:
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EcoDebate. “Agricultura e mudanças climáticas: impactos e soluções“. 09/11/2024.
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EcoDebate. “Calor e secas estão diminuindo a produtividade agrícola global”. 19/05/2025 (Ref. Universidade de Stanford).
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EcoDebate. “Crise alimentar climática: Estudo alerta queda de 24% na produção global de alimentos até 2100”. 20/06/2025 (Ref. Nature/Stanford).
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EcoDebate. “A crise climática já reduz a produção agrícola global e agrava a insegurança alimentar”. 01/07/2025.
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EcoDebate. “Impacto da mudança climática na segurança alimentar global”. 11/09/2024.
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EcoDebate. “Síntese dos impactos das mudanças climáticas na agricultura“. 20/09/2024 (Ref. Ciência).
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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