Da “era do progresso” para a “era da resiliência” na agricultura

A agricultura do futuro talvez não seja a que mais impressiona pela força de imposição sobre a natureza, mas a que mais surpreende pela capacidade de cooperar com ela
Artigo de Afonso Peche Filho
Durante grande parte do século XX, a agricultura foi conduzida sob o imaginário daquilo que se convencionou chamar de “era do progresso”. Nesse período, progresso significava aceleração, expansão de escala, aumento contínuo da produtividade física, simplificação operacional e maior capacidade de controle técnico sobre os processos naturais. O campo passou a ser interpretado como uma plataforma de resposta a estímulos artificiais, na qual o êxito dependia da intensificação do uso de máquinas, insumos industriais, corretivos, fertilizantes solúveis, pesticidas e materiais genéticos selecionados para alto rendimento. Nessa lógica, a eficiência foi elevada à condição de valor central. Ser eficiente era produzir mais em menos tempo, com menor custo por unidade, com maior previsibilidade e maior padronização.
Esse paradigma encontrou sua expressão mais emblemática na chamada Revolução Verde. Seu legado é ambíguo. Por um lado, é inegável que ela ampliou a oferta de alimentos, promoveu avanços em mecanização, melhoramento genético e tecnologias de produção, e consolidou a agricultura como setor altamente estratégico da economia moderna. Por outro lado, a mesma racionalidade que promoveu ganhos produtivos também aprofundou dependências e fragilidades. A intensificação química e mecânica, a simplificação dos agroecossistemas, a redução da diversidade biológica, a exposição do solo, a compactação, a erosão, a perda de matéria orgânica, a contaminação da água e a vulnerabilidade crescente das lavouras a estresses climáticos e biológicos revelaram que a eficiência buscada não era neutra. Tratava-se, em muitos casos, de uma eficiência temporal, imediata, concentrada no curto prazo, frequentemente alcançada à custa do comprometimento da base ecológica que sustenta a produção.
É justamente aqui que se torna necessário distinguir dois conceitos que, embora pareçam convergentes, operam em planos distintos: eficiência e resiliência. A eficiência, quando tomada como valor temporal, refere-se à capacidade de maximizar resultados em determinado intervalo de tempo sob certas condições de estabilidade. Ela favorece a otimização, a especialização, a linearidade e a redução de variações. É uma lógica de desempenho concentrado. Funciona muito bem em ambientes controláveis, previsíveis e estáveis, nos quais a meta principal é extrair o maior rendimento possível com o menor gasto aparente. Já a resiliência pertence a outra ordem de racionalidade. Resiliência é condição de adaptabilidade. Não busca apenas maximizar um resultado imediato, mas preservar a capacidade do sistema de continuar funcional diante de perturbações, de reorganizar-se sem colapsar, de absorver impactos sem perder sua identidade ecológica e produtiva.
Em linguagem direta, um sistema pode ser muito eficiente e, ao mesmo tempo, muito frágil. A monocultura altamente dependente de fertilização mineral solúvel, defensivos e clima regular pode expressar alta eficiência produtiva em anos favoráveis. Entretanto, diante de seca prolongada, calor excessivo, novas pragas, encarecimento de insumos ou desequilíbrios biológicos do solo, essa mesma lavoura pode revelar baixa capacidade adaptativa. Em contraste, sistemas menos “explosivos” em produtividade instantânea, mas mais complexos, diversificados e biologicamente ativos, tendem a suportar melhor as oscilações. A resiliência, portanto, não é a negação da produtividade; é a reconstrução das condições que tornam a produtividade mais estável, mais ecológica e menos dependente de correções emergenciais.
A passagem da era do progresso para a era da resiliência, no campo agrícola, não deve ser entendida como mera troca de nomes ou modismo terminológico. Trata-se de uma mudança de eixo civilizatório. Na era do progresso, a natureza foi frequentemente tratada como obstáculo, estoque de recursos ou cenário passivo a ser corrigido tecnicamente. O solo foi reduzido a suporte físico-químico; a água, a insumo; a biodiversidade, a fator secundário; e a paisagem, a espaço de ocupação funcional. Na era da resiliência, essas reduções tornam-se insuficientes. O solo reaparece como sistema vivo, bioestruturado e relacional. A água passa a ser compreendida como componente de uma dinâmica hidrológica territorial. A biodiversidade deixa de ser ornamento ecológico e passa a ser reconhecida como fundamento regulador. A paisagem deixa de ser pano de fundo e passa a ser vista como infraestrutura ecológica da produção.
Esse deslocamento não ocorreu de forma abrupta. Ele foi sendo preparado por uma série de reações críticas ao esgotamento do modelo convencional. As chamadas agriculturas alternativas surgem, em grande medida, como respostas ao desconforto técnico, ecológico e ético gerado pela intensificação convencional. São correntes que, embora distintas entre si, compartilham a percepção de que a agricultura não pode ser reduzida à manipulação industrial de fatores isolados.
A agricultura orgânica, por exemplo, consolidou-se como crítica ao uso de insumos sintéticos e à contaminação ambiental, recolocando em evidência a fertilidade biológica do solo, o uso de composto, a rotação de culturas e o manejo mais cuidadoso dos processos vivos. Sua importância histórica foi enorme ao demonstrar que havia outros caminhos possíveis além da dependência química estrita. Ao mesmo tempo, em muitas experiências, a agricultura orgânica convencionalizada acabou mantendo traços da lógica anterior, substituindo insumos sem alterar suficientemente a arquitetura ecológica do sistema. Em várias situações, continuou mobilizando intensamente o solo, simplificando rotações e reproduzindo uma racionalidade ainda centrada mais na substituição de meios do que na reorganização profunda do agroecossistema.
A agricultura biodinâmica, por sua vez, introduziu uma visão ainda mais integradora, considerando a propriedade como organismo agrícola e insistindo na conexão entre solo, plantas, animais, ciclos cósmicos e vitalidade do ambiente. Mesmo quando suas bases filosóficas não são integralmente compartilhadas por todos os agrônomos, ela teve o mérito de resgatar uma noção de unidade funcional da propriedade e de reinserir a dimensão qualitativa e vital do manejo, em contraposição ao produtivismo estritamente quantitativo.
A agroecologia representou outro passo decisivo. Mais do que um conjunto de técnicas, ela propôs uma mudança epistemológica. Passou a compreender a agricultura a partir dos princípios da ecologia, da diversidade, das interações biológicas, dos saberes locais, da autonomia e da inserção territorial dos sistemas produtivos. Ao fazer isso, deslocou a análise do nível da lavoura isolada para o nível do agroecossistema e, muitas vezes, do território. A agroecologia não discute apenas como produzir sem degradar; ela questiona para quem, com quem, em que paisagem, sob que relações de poder e com quais consequências socioecológicas se produz. Sua contribuição para a era da resiliência é profunda porque ela recoloca a adaptabilidade não apenas como atributo biofísico, mas também como construção social, cultural e política.
A agricultura conservacionista, especialmente com o desenvolvimento do Sistema Plantio Direto em sua concepção mais qualificada, também marcou um ponto de inflexão importante. Ao enfrentar a erosão, a degradação estrutural do solo e a perda de água, esse campo de práticas recolocou a cobertura permanente, o mínimo revolvimento, a rotação de culturas e a infiltração da água como bases do desempenho produtivo. Sua maior virtude foi mostrar, com clareza prática, que conservar não é frear a produção, mas reconstruir suas condições de permanência. Quando bem compreendida, a agricultura conservacionista já contém um princípio de transição da eficiência imediata para a resiliência estrutural. Isso porque ela reconhece que solos protegidos, agregados, biologicamente ativos e cobertos tendem a responder melhor às variações climáticas, a armazenar mais água, a reduzir perdas e a ampliar a estabilidade funcional do sistema.
Mais recentemente, a agricultura regenerativa ganhou destaque como formulação síntese desse longo caminho crítico. Sua força reside em afirmar que já não basta conservar o que restou ou apenas reduzir danos; é preciso regenerar funções ecológicas perdidas. O centro da discussão deixa de ser somente a mitigação de impactos e passa a ser a reconstrução ativa da vitalidade do solo, da biodiversidade, da ciclagem de nutrientes, da infiltração da água, da paisagem e, em certo sentido, da própria relação cultural entre o agricultor e a terra. A regenerativa se apresenta, assim, como linguagem contemporânea da era da resiliência. Ela incorpora elementos da orgânica, da agroecologia, da conservação do solo, do manejo biológico e da integração paisagística, mas os articula sob a noção de regeneração funcional.
Ainda assim, é preciso cuidado para que a agricultura regenerativa não seja absorvida pelo mesmo mecanismo que esvaziou, em parte, outras correntes críticas: a transformação de um princípio ecológico em rótulo mercadológico. Se a regeneração for reduzida a marketing, selos ou pacotes de insumos “mais verdes”, perde sua potência histórica. A transição da era do progresso para a era da resiliência exige mudança de racionalidade, não apenas renovação de vocabulário. Exige compreender que o verdadeiro critério de qualidade agrícola não é somente o pico de desempenho em uma safra, mas a capacidade do sistema de seguir produtivo, funcional e vivo ao longo do tempo, mesmo diante de incertezas crescentes.
Nesse sentido, a diferença entre eficiência e resiliência precisa ser internalizada como princípio orientador do pensamento agronômico. A eficiência pergunta: quanto produziu, quão rápido, com qual custo direto? A resiliência pergunta: em que condições esse resultado foi alcançado, quanto da base ecológica foi preservado ou ampliado, quão dependente é o sistema de correções externas, como ele reagirá diante de seca, calor, desequilíbrios bióticos ou oscilações econômicas? A primeira pergunta é indispensável, mas insuficiente. A segunda é a que define a sustentabilidade real.
A era da resiliência na agricultura, portanto, não propõe abandonar a técnica, a ciência ou a produtividade. O que ela propõe é outra hierarquia entre esses elementos. A técnica deve servir à vida do sistema, e não o contrário. A ciência deve ajudar a compreender relações, não apenas isolar fatores. A produtividade deve ser consequência de funcionalidade ecológica acumulada, e não produto de compensações artificiais contínuas. Nesse novo horizonte, o agricultor deixa de ser apenas operador de fatores de produção e passa a ser gestor de processos ecológicos, hidrológicos, biológicos e paisagísticos.
Tal mudança implica rever inclusive o significado de progresso. Talvez progresso, no século XXI, já não possa ser medido apenas por expansão de escala, recordes de produtividade ou volume exportado. Em agricultura, progresso passa a significar capacidade de produzir com solo protegido, água conservada, biodiversidade favorecida, comunidades rurais fortalecidas e paisagens mais equilibradas. Passa a significar aptidão para enfrentar instabilidades sem aprofundar dependências. Passa a significar inteligência ecológica aplicada.
Assim, o caminho da Revolução Verde às agriculturas alternativas, e destas à formulação contemporânea da agricultura regenerativa, pode ser lido como uma lenta e ainda incompleta travessia: da ilusão de controle absoluto para a compreensão da interdependência; da eficiência temporal para a adaptabilidade durável; do progresso como aceleração material para a resiliência como permanência qualificada. Não se trata de negar a história da modernização agrícola, mas de reconhecê-la em seus limites e aprender com suas contradições.
A agricultura do futuro talvez não seja a que mais impressiona pela força de imposição sobre a natureza, mas a que mais surpreende pela capacidade de cooperar com ela. Esse é, em essência, o espírito da passagem da era do progresso para a era da resiliência: sair de uma agricultura que responde ao tempo apenas com velocidade e entrar em uma agricultura que responde ao tempo com profundidade, memória ecológica, capacidade adaptativa e responsabilidade diante da continuidade da vida.
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* Texto inspirado na obra de Jeremy Rifkin – “A era da resiliência”.
** Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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