EcoDebate

Plataforma de informação, artigos e notícias sobre temas socioambientais

Artigo

Os data-centers aceleram o esgotamento do planeta

 

data-center
Foto: BNDES/Gov.br

Do consumo de água às emissões de carbono, a infraestrutura que alimenta a IA e a computação em nuvem está exercendo uma pressão sem precedentes sobre os recursos naturais em todo o mundo.

Enquanto governos competem para atrair investimentos para centros de dados, especialistas alertam que as demandas de energia e água da infraestrutura digital podem agravar as crises globais de clima e água, com o Brasil agora no centro das atenções

Por Henrique Cortez

Usamos a conveniência do armazenamento em nuvem, do streaming de vídeo e da inteligência artificial, mas poucos param para questionar o verdadeiro custo ambiental dessa infraestrutura tecnológica. Eles estão se tornando vilões silenciosos na luta contra as mudanças climáticas e a escassez de recursos naturais.

No caso do Brasil, em 25/2/2026, caducou a MP que criava o Redate e, no mesmo dia, a Câmara dos Deputados aprovou projeto de incentivo fiscal para investimentos em centros de processamento de dados, no Projeto que cria o Redata, Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (o texto ainda vai ao Senado)

Incentivos fiscais visam atrair operadoras internacionais para o país, exercendo enorme pressão sobre os recursos hídricos e a infraestrutura de geração e distribuição de energia, que já são críticos.

O apetite insaciável das gigantes digitais por energia

De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), essas instalações já representam aproximadamente 2% de toda a eletricidade gerada no mundo — um número que deverá dobrar até 2030, impulsionado pelo crescimento exponencial da digitalização e de tecnologias como a inteligência artificial generativa.

“Um único centro de dados de grande escala pode consumir tanta eletricidade quanto uma cidade de porte médio”, explica Ana Carvalho, pesquisadora de sustentabilidade digital da Universidade de São Paulo. “Em países onde a matriz energética ainda depende fortemente de combustíveis fósseis, isso se traduz diretamente em aumento das emissões de gases de efeito estufa.”

O problema não se limita ao enorme volume de energia consumida, porque os centros de dados também exercem uma pressão considerável sobre as redes locais de distribuição de eletricidade. Em áreas metropolitanas densamente povoadas, a instalação de centros de dados pode sobrecarregar redes já pressionadas, aumentando o risco de apagões e exigindo bilhões em melhorias de infraestrutura.

Cada megawatt alocado para centros de dados de IA é um megawatt indisponível para residências ou indústrias. Os governos precisam avaliar o interesse público sobre as inevitáveis compensações energéticas, que surgirão à medida que que o uso pessoal e corporativos da IA se intensificar.

Ano

Amazon

Google

Meta

Microsoft

2015

44,0

6.0

4.0

11,5

2016

47,0

6,5

4,5

12.0

2017

50,0

7.0

5.0

12.4

2018

56,4

8.0

7.0

12,8

2019

60,6

9,67

8.0

13.1

2020

71,54

10,5

8,5

11.8

2021

71,54

12.0

8,7

14.0

2022

68,82

12,66

8,5

15,5

2023

66,75

14.31

7.4

16,8

2024

65,0

15.0

7.0

17,6

2025

63,0

15,5

6,8

18,5

Emissões de GEE por empresa em MMT (milhões de toneladas métricas) de CO₂. Fonte: Desempenho climático das grandes empresas de tecnologia e implicações políticas para o Reino Unido.

Água é o recurso invisível da economia digital

Se o consumo de energia dos centros de dados é alarmante, seu consumo de água também é preocupante, embora bem menos divulgado publicamente. Isto acontece porque a água é essencial para os sistemas de refrigeração, que mantêm as salas de servidores em temperaturas operacionais seguras, evitando o superaquecimento, que pode ser custoso e causar danos.

“Um centro de dados típico pode consumir entre três e cinco milhões de litros de água por dia, o equivalente ao consumo diário de água de uma cidade de 30.000 habitantes”, alerta Roberto Mendes, engenheiro especializado em eficiência hídrica. “Em regiões que já enfrentam estresse hídrico, como o sudeste do Brasil, isso pode agravar significativamente a escassez de água potável.”

A competição por recursos hídricos entre centros de dados e comunidades locais já se tornou uma realidade em diversas partes do mundo. Em Mesa, no Arizona (EUA), moradores protestaram contra a construção de um vasto complexo de centros de dados que, segundo projeções, consumiria bilhões de litros de água anualmente em uma região desértica.

O paradoxo da sustentabilidade digital

O crescimento dedesregulado dos centros de dados põe em risco a própria sustentabilidade da alegada revolução digital. Quanto mais avançamos rumo a uma economia impulsionada por dados, inteligência artificial e computação em nuvem, maior se torna a demanda por infraestrutura física, que consome enormes quantidades de recursos.

“Estamos vivendo um paradoxo: muitas tecnologias digitais prometem soluções para problemas ambientais, mas sua própria infraestrutura pode estar agravando esses mesmos problemas”, observa Carlos Martins, professor de Estudos Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O caminho para uma infraestrutura digital sustentável

Especialistas concordam que a solução não está em interromper a revolução digital, mas em repensá-la sob uma perspectiva sustentável. “Precisamos de políticas públicas que incentivem a eficiência energética e hídrica, juntamente com investimentos em pesquisa de tecnologias mais limpas”, argumenta Martins.

Para os consumidores, a consciência do impacto ambiental de suas escolhas digitais também é importante. Desde o streaming de vídeo em alta definição até o armazenamento ilimitado de fotos e vídeos na nuvem, cada clique gera uma pegada ecológica.

“O futuro da computação sustentável dependerá de um delicado equilíbrio entre inovação tecnológica e responsabilidade ambiental”, conclui Carvalho. “Devemos garantir que nossa crescente sede por dados não resulte em um planeta mais quente e seco para as gerações futuras.”

Com a expansão contínua da economia digital, o desafio de conciliar o crescimento tecnológico com a gestão ambiental torna-se cada vez mais urgente.

Os centros de dados são, simultaneamente, os pilares da modernidade digital e monumentos ao nosso crescente impacto sobre os recursos naturais do planeta.

É fundamental ressaltar que a construção de centros de dados mais eficientes e a redução do consumo de energia, por si só, não serão suficientes para diminuir a pegada climática das tecnologias digitais. O que se faz necessário, na verdade, é uma redução das emissões em toda a cadeia de valor, incluindo sua utilização como componentes em outros produtos e serviços.

Para lidar com os impactos ambientais transfronteiriços em condições de concorrência leal, será necessária maior transparência, responsabilidades claramente definidas e cooperação entre empresas e governos ao longo das cadeias de abastecimento globais.

O que individualmente podemos fazer

Questione a necessidade — armazene na nuvem apenas os dados que você realmente precisa. Escolha provedores com compromissos ambientais genuínos — priorize empresas de tecnologia com metas de sustentabilidade claras e confiáveis. Apoie políticas públicas — defenda regulamentações que exijam eficiência energética e hídrica dos operadores de data centers. Reduza seu consumo digital — transmitir em resoluções mais baixas e excluir arquivos desnecessários regularmente contribuem para reduzir a demanda de processamento.

Henrique Cortez, jornalista e ambientalista. Editor do EcoDebate.

 

Citação
EcoDebate, . (2026). Os data-centers aceleram o esgotamento do planeta. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/02/27/os-data-centers-aceleram-o-esgotamento-do-planeta/ (Acessado em fevereiro 27, 2026 at 03:53)

in EcoDebate, ISSN 2446-9394

[ Se você gostou desse artigo, deixe um comentário. Além disso, compartilhe esse post em suas redes sociais, assim você ajuda a socializar a informação socioambiental ]

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O conteúdo do EcoDebate está sob licença Creative Commons, podendo ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, ao EcoDebate (link original) e, se for o caso, à fonte primária da informação