Cresce o número de mulheres sem filhos no Brasil
O aumento de mulheres sem filhos reflete transformações sociais profundas que afetam diversos países, não apenas o Brasil
Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
A Taxa de Fecundidade Total (TFT) no Brasil estava acima de 6 filhos por mulher antes de 1970, chegou a 2,3 filhos por mulher no ano 2000, ficou abaixo do nível de reposição na metade da primeira década do atual século e atingiu o nível de 1,55 filho por mulher em 2022. A queda da TFT ocorreu em todas as regiões brasileiras com os níveis regionais convergindo para próximo da média nacional.
Mas além da diminuição do número médio de filhos, há também o aumento da proporção de mulheres sem filho. Assim, a análise da fecundidade das mulheres acima de 50 anos é interessante porque, a partir dessa idade, as chances de se ter um filho nascido vivo se reduz bastante, sendo possível conhecer o resultado completo do período reprodutivo dessas coortes de mulheres.
A publicação do IBGE, “Censo Demográfico 2022. Fecundidade e migração Resultados preliminares da amostra”, mostra que a fim de evitar perdas com informações devido à mortalidade de mulheres ainda mais velhas, ou erros na declaração dos dados, a análise se refere às mulheres de 50 a 59 anos, no ano de 2022, ou seja, mulheres que nasceram entre os anos de 1963 e 1972.
Os dados dos Censos Demográficos de 2000, 2010 e 2022 indicam que o percentual de mulheres de 50 a 59 anos que não tiveram filho nascido vivos, ou seja, a proporção de mulheres que chegaram ao final da vida reprodutiva sem ter tido filhos, aumentou no período. Proporcionalmente, o maior aumento foi observado entre 2010 e 2022, quando comparado com o período 2000-2010 para todas as Grandes Regiões, conforme mostra o gráfico abaixo.

No Brasil, o percentual de mulheres de 50 a 59 anos que não tiveram filho nascido vivo em 2000 era de 10,0%, passando para 11,8% em 2010 e para 16,1% em 2022. Apesar da Região Norte ter sido aquela que apresentou o menor percentual de mulheres de 50 a 59 anos que não tiveram filho nascido vivo (6,1% em 2000, 8,6% em 2010 e 13,9% em 2022), também foi aquela que apresentou o maior aumento na medida (com 7,8 pontos percentuais para mais). Já a Região Sudeste foi aquela que apresentou o maior percentual de mulheres de 50 a 59 anos que não tiveram filho nascido vivo (11,0% em 2000, 13,3% em 2010 e 18,0% em 2022).
O aumento do percentual de mulheres de 50 a 59 anos no Brasil que nunca tiveram filhos (nulíparas) é um fenômeno demográfico ligado a grandes mudanças sociais, econômicas e culturais ocorridas nas últimas décadas. A seguir alguns fatores que ajudam a explicar essa tendência:
1. A postergação da maternidade
Um dos principais fatores identificados é que as mulheres estão tendo filhos mais tarde do que no passado, uma vez que a idade média em que as brasileiras têm o primeiro filho aumentou ao longo das últimas décadas. Como resultado, muitas acabam chegando ao final do período reprodutivo (a faixa dos 50 a 59 anos) sem ter tido filhos, seja por opção, por circunstâncias da vida ou por não ter conseguido engravidar no momento planejado.
Se uma mulher adia a decisão de ter filhos por mais tempo (para estudar, trabalhar, viajar, estabilizar a carreira, etc.) e depois enfrenta dificuldades para engravidar ou decide não ter filhos mais tarde, isso pode aumentar o número de mulheres que terminam a vida reprodutiva sem filhos.
2. Educação e mercado de trabalho
O aumento no nível de escolaridade feminina e a participação crescente das mulheres no mercado de trabalho influenciam o planejamento familiar, pois muitas mulheres priorizam estudos superiores, formação e carreiras antes de pensar em ter filhos. Em geral, maior escolaridade está associada a taxas de fecundidade mais baixas, inclusive maior proporção de mulheres que optam por não ter filhos ou que os têm mais tarde.
3. Mudanças nos papéis de gênero e estilo de vida
As últimas décadas trouxeram mudanças nas expectativas sociais e nos papéis de gênero tradicionais. Em muitos contextos urbanos, especialmente nas grandes cidades, as mulheres têm mais autonomia para tomar decisões sobre sua vida reprodutiva, incluindo se e quando ter filhos. Novos estilos de vida, prioridades e objetivos pessoais (como foco na carreira, viagens, qualidade de vida, relacionamentos etc.) podem contribuir para que a maternidade seja adiada ou não ocorra.
4. Acesso a métodos contraceptivos
O acesso mais amplo a métodos contraceptivos eficazes tornou possível que mulheres tenham maior controle sobre seus períodos férteis e planejarem melhor se e quando querem engravidar. Isso pode reduzir gravidezes não planejadas e aumentar a chance de mulheres chegarem ao fim do seu ciclo reprodutivo sem filhos se essa foi a escolha.
5. Tendências sociais mais amplas
O aumento de mulheres sem filhos reflete transformações sociais profundas que afetam diversos países, não apenas o Brasil. Em geral, as taxas de fecundidade têm caído em muitas partes do mundo e a idade média de maternidade tem subido, influenciada por fatores econômicos, educacionais e culturais.
No Brasil, isso também se relaciona à redução geral das taxas de fecundidade — a média de filhos por mulher caiu de níveis acima de 6,0 na década de 1960 para cerca de 1,55 em 2022. Mas se relaciona também com a crise climática e a ansiedade climática.
6. Ansiedade climática e decisões reprodutivas
A ansiedade climática refere-se ao sofrimento psicológico associado à percepção de riscos ambientais globais, incerteza quanto ao futuro e sensação de perda de controle. Pesquisas internacionais mostram que, entre jovens adultos e mulheres com maior escolaridade, essa ansiedade pode: a) gerar dúvidas éticas sobre ter filhos em um mundo percebido como ambientalmente degradado; b) reforçar a ideia de que o futuro será mais instável, desigual e inseguro; c) levar ao adiamento prolongado da maternidade — que, em muitos casos, termina em nuliparidade.
Não se trata, portanto, apenas de “não querer filhos por causa do clima”, mas de um clima de incerteza existencial que se soma a outros fatores já conhecidos.
7. O argumento ético-intergeracional
Um ponto recorrente nos estudos qualitativos é o chamado argumento intergeracional: a) “É justo trazer filhos para um mundo com crise climática, escassez de recursos e conflitos ambientais?”; b) “Que tipo de vida essas crianças terão?”
Esse tipo de reflexão aparece com mais força entre mulheres que planejam intensamente a maternidade, rejeitam a ideia de filhos “por acaso” e encaram a reprodução como uma decisão moral, e não apenas biológica ou cultural.
Nesse sentido, a nuliparidade pode ser interpretada como uma resposta racional e ética à percepção de risco sistêmico, e não como desvio ou patologia social.
José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382
Referências:
ALVES, JED. PANK: Professional Aunt No Kids (Tia profissional sem filhos) , Ecodebate, 18/02/2015 http://www.ecodebate.com.br/2015/02/18/pank-professional-aunt-no-kids-tia-profissional-sem-filhos-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
ALVES, JED. GINK: Pessoas com inclinação verde e sem filhos, Ecodebate, 13/02/2015
ALVES, JED. O mito do amor materno e as políticas pronatalistas, Ecodebate, 13/05/2015
CAVENAGHI, Suzana; ALVES, José Eustáquio D. Childlessness in Brazil: socioeconomic and regional diversity. In: XXVII IUSSP International Population Conference, 2013, Bussan. Proceedings of XXVII IUSSP International Population Conference. IUSSP, 2013. v. 1. p. 1-25.
https://iussp.org/sites/default/files/event_call_for_papers/ChildlessNessBrazil_Final.pdf
IBGE. Censo Demográfico 2022. Fecundidade e migração Resultados preliminares da amostra
https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv102187.pdf
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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