A COP26, os desastres climáticos e os 50 anos do livro Limites do Crescimento

 

A COP26, os desastres climáticos e os 50 anos do livro Limites do Crescimento, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“A Terra é redonda e finita, mas há negacionistas que acham que a Terra é plana e
outros que acham que os recursos da Terra são infinitos e que o crescimento
demoeconômico pode continuar sua marcha cega e insensata”
JED Alves, 13/10/2021

Todos os anos ocorre uma reunião da Conferência das Partes (COP) da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC na sigla em inglês). Durante a COP26, ocorrida em Glasgow em novembro de 2021, os delegados foram instigados a chegar a um acordo para deter o aquecimento global, do contrário, as gerações futuras serão forçadas a uma competição violenta por recursos diante de um cenário de colapso ambiental.

O vice-presidente da Comissão Europeia, Frans Timmermans, mostrou uma foto de seu neto na COP26, alertando que as gerações futuras enfrentarão uma luta desesperada para sobreviver sem um acordo sobre o aquecimento global. Assim, é muito provável que as crianças de hoje e as pessoas que ainda vão nascer terão que conviver com a doença da ansiedade climática e os custos crescentes dos desastres ambientais.

220202 líderes do cop26

Parece que o mundo está começando a enxergar a crise climática. Mas talvez seja um reconhecimento tardio. O que o IPCC e as COPs dizem, hoje em dia, nada mais é do que a repetição de um antigo alerta sobre a possibilidade de eventos catastróficos em termos climáticos e ecológicos. Este alerta havia sido dado de maneira clara e transparente há 50 anos, no livro “Os limites do Crescimento”, liderado por cientistas do Massachusetts Institute of Technology (MIT), publicado originalmente em 1972.

A principal conclusão do livro está resumida no seguinte parágrafo: “Se as atuais tendências de crescimento da população mundial, industrialização, poluição, produção de alimentos e diminuição de recursos naturais continuarem imutáveis, os limites de crescimento neste planeta serão alcançados algum dia dentro dos próximos cem anos. O resultado mais provável será um declínio súbito e incontrolável, tanto da população quanto da capacidade industrial” (p. 20).

Infelizmente o alerta do livro “Os limites do Crescimento” não foi ouvido e a Pegada Ecológica da humanidade ultrapassou a biocapacidade do Planeta a partir do início da década de 1970, como mostra a figura abaixo. As reservas ecológicas (área verde) foram substituídas pelo déficit ecológico (área vermelha). E o mais grave é que o déficit aumenta a cada ano. Em 2017, a Pegada Ecológica Global estava 73% acima da Biocapacidade. Ou seja, a população mundial está utilizando cerca de 1,73 Planeta e caminha para o uso insustentável de dois Planetas até 2030.

O grande crescimento demoeconômico dos últimos 50 anos fez a Pegada Ecológica atingir 20,9 bilhões de gha em 2017, para uma Biocapacidade de 12,1 bilhões de gha. A população mundial que era de 3,85 bilhões em 1972 passou para 7,6 bilhões em 2017 (dobrando de tamanho em menos de 50 anos). A produção e o consumo de bens e serviços (o PIB mundial) cresceu cerca de 5 vezes entre 1972 e 2017. Por conseguinte, o superávit de 2,6 bilhões de gha de 1961 se converteu em um déficit ambiental de 8,8 bilhões de gha em 2017. Sem dúvida, a humanidade ultrapassou a capacidade de carga do Planeta e está desrespeitando os limites de uma economia ambientalmente sustentável.

pegada ecológica e biocapacidade total mundo

Os indicadores mais evidentes de que estamos passando dos limites no mundo atual são o aquecimento global e a 6ª extinção em massa das espécies. O vício da civilização pelo crescimento demoeconômico é a causa subjacente de ambos. Um erro comum é associar a ideia iluminista de progresso ao crescimento ilimitado de bens e serviços. Isso pode ser verdade no âmbito do enriquecimento individual, mas não é o caso dos sistemas complexos, que têm limites intrínsecos. Mesmo compreendendo que a sociedade deve agir e corrigir a situação, simplesmente saber não implica necessariamente fazer. Como disse Beto Guedes: “A lição sabemos de cor, só nos resta aprender”.

Numa linha parecida com o livro “Os limites do Crescimento”, uma importante contribuição para a análise ambiental atual pode ser encontrada no artigo “Planetary boundaries: Guiding human development on a changing planet”, publicado na revista Science (Steffen, 15/01/2015). O artigo traça um quadro dos limites planetários e define um espaço operacional seguro para a humanidade com base nos processos biofísicos intrínsecos que regulam a estabilidade do Sistema Terra.

Este estudo deixa claro que quatro das nove fronteiras planetárias foram ultrapassadas: Mudanças climáticas; Perda da integridade da biosfera; Mudança no uso da terra; Fluxos biogeoquímicos (fósforo e nitrogênio). Duas delas, a Mudança climática e a Integridade da biosfera, são o que os cientistas chamam de “limites fundamentais” e tem o potencial para conduzir o Sistema Terra a um novo estado que pode ser substancialmente e persistentemente transgredido. O agravamento destas duas fronteiras fundamentais podem levar a civilização ao colapso.

Agora em janeiro de 2022, um novo artigo foi publicado mostrando que a poluição química cruzou mais uma “fronteira planetária”. Há algo como 350.000 produtos químicos sintéticos, incluindo pesticidas, compostos industriais e antibióticos degradando as condições da vida natural. A poluição plástica já é encontrada desde o cume do Monte Everest até os oceanos mais profundos, e alguns produtos químicos tóxicos possuem efeitos duradouros e generalizados. Houve um aumento de cinquenta vezes na produção de produtos químicos desde 1950 e isso deve triplicar novamente até 2050. A quantidade de plásticos no planeta, já supera a massa total de mamíferos.

Contudo, após 50 anos da publicação do livro “Os limites do Crescimento” ainda existem negacionistas que consideram que não há limites ao crescimento demoeconômico da Terra. Mas a emergência sanitária da covid-19 e a crise climática estão contabilizando milhões de vidas perdidas em função da insustentabilidade do modelo atual.

Relatório do Instituto Swiss Re (14/12/2021) mostra que as perdas por catástrofes que foram seguradas globalmente subiram para US $ 112 bilhões em 2021, a quarta maior já registrada, conforme mostra o gráfico abaixo.

perdas globais por desastres naturais

Segundo a seguradora Munich Re, em todo o mundo, os desastres naturais causaram perdas substancialmente maiores em 2021 do que nos dois anos anteriores. Com base em dados provisórios, tempestades, inundações, incêndios florestais e terremotos destruíram ativos no valor de US $ 280 bilhões. As perdas no ano anterior foram de US $ 210 bilhões, enquanto em 2019 foram de US $ 166 bilhões. Cerca de US $ 120 bilhões em perdas estavam segurados, o que também foi mais do que nos dois anos anteriores (2020: US $ 82 bilhões, 2019: US $ 57 bilhões). O gap de seguro, ou seja, a parcela não segurada, diminuiu ligeiramente devido a uma proporção maior de perdas nos EUA, mas ainda era de aproximadamente 57%. Quase 10.000 pessoas perderam a vida em desastres naturais em 2021, um número de mortos comparável ao dos últimos anos.

De acordo com o relatório anual da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), somente os EUA foram atingidos por 20 diferentes desastres climáticos e ambientais de bilhões de dólares em 2021, um dos anos climáticos mais catastróficos já registrados, que levou a pelo menos 688 mortes. Os danos dos 20 desastres mais caros do ano, que incluíram milhares de incêndios florestais nos estados do oeste, temperaturas frias e tempestades de granizo no Texas, tornados no sudeste e tempestades tropicais saturando a costa leste, totalizaram cerca de US$ 145 bilhões.

Para o Fórum Econômico Mundial a crise climática é o maior risco global do século XXI, conforme apontado na 17ª edição do Relatório de Riscos Globais, de 11 de janeiro de 2022: “A crise climática continua sendo a maior ameaça de longo prazo que a humanidade enfrenta. A falta de ação sobre as mudanças climáticas pode reduzir o Produto Interno Bruto (PIB) global em um sexto e os compromissos assumidos na COP26 ainda não são suficientes para atingir a meta de 1,5º C. Não é tarde demais para governos e empresas agirem sobre os riscos que enfrentam e conduzirem uma transição inovadora, determinada e inclusiva que proteja economias e pessoas”.

Sem dúvida, o mundo está no limite e caminhando para um desastre ambiental de grandes proporções, que talvez ainda pode ser evitado, mas o tempo está ficando cada vez mais curto para efetivar as soluções necessárias. Artigo de Lijing Cheng e John Abraham et. al., publicado na revista Advances in Atmospheric Sciences (11/01/2022) mostra que a Terra está aquecendo, os humanos são os culpados e o aquecimento continuará indefinidamente até que tomemos medidas coletivas para reduzir os gases de efeito estufa. emissões. Mais de 90% do calor do aquecimento global acaba nos oceanos. Para se ter uma ideia de quanto os oceanos do mundo aqueceram em 2021, os autores calculam que o calor foi equivalente a sete bombas atômicas de Hiroshima detonando a cada segundo, 24 horas por dia, 365 dias por ano.

Um relatório da consultoria McKinsey & Company, “Report The net-zero transition: What it would cost, what it could bring” mostra que os custos para transformar a matriz energética global e efetivar as emissões líquidas zero em 2050 será muito alto e complicado. Uma economia global líquida zero não precisará apenas de uma redução significativa das emissões do setor de energia. Também precisará de mais do que sugere a frase favorita dos ambientalistas, “mantenha-o no chão”. Net-zero precisará de investimentos na transformação de indústrias intensivas em energia, como siderurgia e cimento, e nos setores de construção, agricultura e silvicultura, entre outros. A transição necessária para que o mundo alcance emissões líquidas zero até 2050 exigiria gastos de US$ 275 trilhões entre 2021 e 2050, ou US$ 9,2 trilhões em gastos médios anuais em ativos físicos.

Como disse Bruno Latour (24/12/2021): “E por ‘terra’ não quero dizer o planeta como ele pode ser visto do espaço, mas sua película muito superficial, a camada rasa da terra em que vivemos, e que foi transformada em um meio habitável por éons de longa duração pelo trabalho da evolução. Essa matriz fina é o que os geoquímicos chamam de “zona crítica”, a única camada da terra onde a vida terrestre pode florescer. É neste espaço finito onde tudo o que cuidamos e tudo o que já encontramos existe. Não há como escapar de nossa existência terrena; como gritam jovens ativistas do clima: ‘Não existe planeta B’.”

Desta forma, não há como negar que a Terra é finita e vivemos em uma fina película da vida. Tudo seria diferente se o alerta do livro “Os limites do Crescimento”, de 1972, tivesse sido considerado no tempo certo e na proporção correta. Os problemas atuais seriam muito menores se a obsessão pelo crescimento tivesse sido remediada 50 anos atrás. Com menos pés e com uma menor pegada ecológica, a vida na Terra seria mais saudável e o futuro poderia ser brilhante para todos os seres vivos.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. A humanidade é responsável pela crise climática e pela 6ª extinção em massa das espécies, Ecodebate, 13/10/2021

https://www.ecodebate.com.br/2021/10/13/a-humanidade-e-responsavel-pela-crise-climatica-e-pela-6a-extincao-em-massa-das-especies/

ALVES, JED. Dos limites do crescimento ao decrescimento da Pegada Ecológica, Ecodebate, 28/06/2017

https://www.ecodebate.com.br/2017/06/28/dos-limites-do-crescimento-ao-decrescimento-da-pegada-ecologica-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. O decálogo da sustentabilidade ecocêntrica, Ecodebate, 13/11/2013

http://www.ecodebate.com.br/2013/11/13/o-decalogo-da-sustentabilidade-ecocentrica-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

STEFFEN, W. et al. Planetary boundaries: Guiding human development on a changing planet, V. 347, I. 6223, Science, 13/02/2015 https://science.sciencemag.org/content/347/6223/1259855

Swiss Re Institute. Global insured catastrophe losses rise to USD 112 billion in 2021, 14/12/21

https://www.swissre.com/media/news-releases/nr-20211214-sigma-full-year-2021-preliminary-natcat-loss-estimates.html

DW. Climate change: Cost of weather disasters surged in 2021, 27/12/2021

https://www.dw.com/en/climate-change-cost-of-weather-disasters-surged-in-2021/a-60263393

Bruno Latour. The pandemic is a warning: we must take care of the earth, our only home, The Guardian, 24/12/2021

https://www.theguardian.com/commentisfree/2021/dec/24/pandemic-earth-lockdowns-climate-crisis-environment

Lijing Cheng, John Abraham et. al. Another Record: Ocean Warming Continues through 2021 despite La Niña Conditions, Advances in Atmospheric Sciences, 11/01/2022

https://link.springer.com/article/10.1007/s00376-022-1461-3

MEADOWS, D. et. al. Limites do Crescimento. Um relatório para o Projeto do Clube de Roma sobre o Dilema da Humanidade, Editora Perspectiva, 2ª ed., São Paulo, 1978

https://pt.scribd.com/doc/218016244/Limites-Do-Crescimento

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/02/2022

 

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