Resex Chico Mendes é a Unidade de Conservação Federal mais desmatada

 

Resex Chico Mendes é a Unidade de Conservação Federal mais desmatada

Entre as Unidades de Conservação (UCs) Federais, Resex Chico Mendes a mais desmatada de todas. Ela também é a segunda UC com mais queimadas em toda a Amazônia

Se estivesse vivo, Chico Mendes completaria 77 anos no próximo dia 15 de dezembro e teria pouco a comemorar, além de seu aniversário. Os dados não deixam dúvidas de que a Reserva Extrativista (Resex) que leva seu nome está sob ataque. Desmatamento e queimadas explodiram nos últimos três anos, enquanto o extrativismo das populações tradicionais perde espaço para a criação de gado.

Tanto o número de queimadas como o total de área desmatada apresentaram tendência de aumento a partir de 2019, primeiro ano da atual gestão federal. Retrocessos legislativos, a omissão do poder público e a pressão de setores ruralistas estão impulsionando invasões e trazendo de volta – com força total – os conflitos pela terra que pareciam ter cessado há quase 30 anos, quando foi criada a reserva.

Nos 11 anos entre 2008 e 2018, a média anual de desmatamento na Resex Chico Mendes era de 15,25 km2 de corte raso dentro da reserva. Em 2019 foram desmatados 75,87 km2 e, em 2020, 59,17 km2. Em 2021, foram devastados 83,8 km2 no interior da Resex.

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O número de queimadas também teve um aumento pronunciado em 2020 e 2021, enquanto a área desmatada atingiu patamares nunca vistos entre 2019 e 2021. A Resex Chico Mendes é atualmente a segunda Unidade de Conservação (UC) com mais queimadas em toda a Amazônia, perdendo apenas para a Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, uma reserva estadual do Pará. Entre as UCs Federais, é a mais desmatada de todas.

Entre 1 de janeiro e 7 de dezembro de 2021, a reserva concentrou 29,2% de todos os incêndios registrados em UCs Federais na Amazônia Legal. Nesse período, foram registrados 1.142 focos de queimadas dentro da reserva.

desmatamento em unidades de conservação

 

Entre 2012 e 2018, o número de queimadas no interior da Resex aumentou gradualmente, com uma média de 584 focos por ano. Em 2019, atingiu o maior valor da série até então, com 861 focos. Em 2020 o aumento foi mais pronunciado: 1.127 focos de queimadas na área protegida.

Os desafios no território, porém, vão muito além de suas fronteiras geográficas. Uma das ameaças mais concretas enfrentadas pela juventude da Resex Chico Mendes é o Projeto de Lei 6024, apresentado no fim de 2019 pela deputada Mara Rocha (PSDB). O projeto não apenas reduzirá em 222 km2 a reserva de 9.705 km2, mas também permitirá a regularização de terras de grileiros e invasores.

De acordo com os moradores locais, o aumento das queimadas e do desmatamento estão conectados à presença cada vez maior de invasores ligados à atividade pecuária na área da Resex. Se em 2010 havia 2.076 famílias morando ali, hoje a estimativa é que já sejam mais de 3 mil – em grande parte sem nenhuma relação com o extrativismo.

A presença de pessoas atraídas pela criação de gado foi estimulada por vários fatores, incluindo o aumento dos preços da carne, a expectativa de aprovação do PL 6024 e o explícito apoio do governo federal a infratores ambientais. Esse fluxo já transformou a região da Resex em um dos principais pólos exportadores de bovinos para os estados vizinhos.

Esses fatores de pressão também levam a um êxodo dos extrativistas: sem estímulo, ameaçados e pressionados, moradores tradicionais abandonam a extração de látex e castanha e transferem suas terras para terceiros

Nesse cenário crítico, enquanto a frustração desilude os moradores mais antigos e leva parte da nova geração a trocar o extrativismo pelas cidades, jovens da região se unem na luta para deter a destruição e preservar o legado de Chico Mendes. Um grupo de lideranças locais formou o Núcleo Jovem do Comitê Chico Mendes, que inspirado pelo legado do ecologista assassinado em 1988, trabalha para reverter tanto a devastação e as invasões na Resex como o êxodo dos extrativistas, pressionados pela expansão da pecuária.

Para esses jovens, a guerra cultural movida pelos apoiadores do governo Bolsonaro também contribui para a extrema pressão sobre a reserva. Destruí-la seria também uma forma de apagar a memória de Chico Mendes, riscando do mapa seu importante legado socioambiental.

O núcleo jovem se uniu em uma campanha contra o PL 6024 que, segundo eles, mesmo antes de ser aprovado, gerou uma corrida por terras e estimulou o aumento das invasões, com suas principais consequências: o aumento vertiginoso das queimadas e do desmatamento.

Além da campanha contra o PL 6024, o grupo está envolvido em projetos que visam o aprimoramento e valorização dos produtos da biodiversidade – a fim de deter o êxodo de extrativistas. Eles também estão criando estratégias para combater as notícias falsas e estão participando de ações voltadas para o ativismo digital, depois que o Comitê Chico Mendes foi selecionado para um projeto do Vozes Pela Ação Climática.

Nesse esforço de defesa da Resex, eles têm feito conexões com parlamentares e personalidades, para angariar apoio e integraram o Painel Científico Sobre a Amazônia, que teve participação na COP26.

Em 2018, boa parte desses jovens participaram de um curso voltado para o estímulo do protagonismo do jovem extrativista em defesa das pautas socioambientais nos estados da Amazônia, oferecido pelo WWF-Brasil, em parceria com o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) e o Comitê Chico Mendes.

Fonte: WWF-Brasil

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/12/2021

 

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