Relatório expõe falsos planos climáticos de grandes corporações

 

Relatório expõe falsos planos climáticos de grandes corporações

O documento destaca a atuação de grandes poluidores para influenciar a metodologia de pesquisas sobre “net zero” em universidades de prestígio

Por Cínthia Leone, Instituto ClimaInfo

Após um ano repleto de anúncios recordes de promessas de emissões zero líquidas (net-zero) de corporações e governos, um novo relatório revela que os planos climáticos de algumas das principais indústrias poluidoras são baseados em medidas falsas, inalcançáveis ou insuficientes.

O documento destaca a atuação de grandes poluidores para influenciar a metodologia de pesquisas sobre “net zero” em universidades de prestígio, incluindo Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Universidade de Princeton, Universidade de Stanford e Imperial College London.

O documento intitulado “The Big Con: How Big Polluters are advance a “net zero” climate agenda to delay, deceive and deny” também afirma que as grandes corporações estão agindo para que suas interpretações de “net zero” se tornem o principal dogma da resposta global à crise climática.

A publicação foi escrita por Corporate Accountability, The Global Forest Coalition e Friends of the Earth International, e endossada por mais de sessenta organizações, incluindo ActionAid Internacional, OilWatch, Third World Network e o Institute for Policy Studies.

“É difícil não ver o fervor recente sobre o termo ‘net zero’ como qualquer coisa além de um esquema apoiado por Grandes Poluidores que é muito pouco, muito tarde”, afirma Rachel Rose Jackson Diretora de Política e Pesquisa Climática da Corporate Accountability e uma das autoras do estudo. “Estes jogadores empilharam o baralho para garantir que o mundo se concentrasse em planos que nada mais são do que lavagem verde.”

Táticas

Um exemplo de como os maiores poluidores têm moldado e influenciado pesquisas acadêmicas sobre “net zero” vem da Exxon Mobil, que reteve o direito de revisar formalmente o Projeto Global de Clima e Energia de Stanford antes que ele seja concluído. Como financiadora, a empresa também pode colocar seu próprio pessoal nas equipes de desenvolvimento do projeto.

Todas as universidades citadas têm projetos climáticos financiados por grandes produtores de petróleo, com destaque para a cooperação de longa data entre Shell e o Imperial College London. A publicação mostra ainda que as instituições acadêmicas abrigam pesquisadores de clima que são ou já foram funcionários dessas empresas, além de promover eventos sobre clima patrocinados por petroleiras ou com funcionários destas entre os palestrantes.

Além de cooptar setores acadêmicos, os maiores poluidores têm influenciado legislações com objetivos climáticos para que sejam ineficazes ou que acabem por beneficiá-las. Nos EUA, indústrias de aviação e de combustíveis fósseis pressionaram massivamente para ajudar a assegurar um crédito fiscal, chamado 45Q, que subsidia a captura e o armazenamento de carbono. Segundo o documento, é provável que essas empresas tenham lucrado milhões com a manobra, apesar de não terem uma atuação que as qualifiquem para obter o crédito.

O estudo também destaca o papel da Associação Internacional de Comércio de Emissões (IETA). Fundada e controlada por grandes produtores de petróleo, a organização tem trabalhado para fortalecer suas concepções de “net-zero”, influenciar o mercado de créditos de carbono e enfraquecer medidas para redução de emissões nas negociações internacionais pelo clima.

“Estamos profundamente preocupados com a captura corporativa das políticas climáticas e o crescente nexo entre governos e corporações para promover falsas soluções usando o “Net Zero” e outros conceitos ambíguos como o de Soluções Baseadas na Natureza”, diz Coraina De la Plaza, Campaigner de Clima para a Global Forest Coalition. “Eles continuam a perseguir esquemas ‘verdes’ de compensação neocolonial para colher mais lucros e poluir. Este circo de Net Zero tem que parar, o planeta e as pessoas precisam de cortes reais de emissões e metas-zero reais.”

Planos de faz de conta

De acordo com o estudo, o compromisso da JBS, feito em março deste ano, de eliminar o desmatamento em sua cadeia de suprimentos até 2035 significa, na prática, que a empresa continuará contribuindo para o desmatamento pelos próximos 14 anos. Erradicar imediatamente o desmatamento associado à sua cadeia de suprimentos seria a maneira mais eficaz e rápida para a JBS diminuir suas emissões, afirma o texto.

Já a Shell planeja comprar mais créditos de carbono para compensar suas emissões até 2030 do que estavam disponíveis em todo o mercado global de compensação voluntária no ano de 2019. Em seu plano, a empresa também promete reflorestar 700 milhões de hectares, uma área quase do tamanho do Brasil. O plano fantasioso da companhia rendeu uma condenação em maio em um tribunal da Holanda.

O plano climático do Walmart negligencia totalmente suas emissões da cadeia de valor, o que, estima-se, responde por 95% da pegada de carbono da corporação. Enquanto isso, a BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, se comprometeu em 2020 a vender a maior parte de suas emissões fósseis no ‘futuro próximo’, mas ainda possui US?85 bilhões em ativos de carvão, devido a uma ‘lacuna’ em sua política.

“Este relatório mostra que planos ‘net zero’ de grandes poluidores nada mais são do que um grande golpe”, afirma Sara Shaw, coordenadora do programa Justiça Climática e Energia da Friends of the Earth International. Para ela, empresas como a Shell não têm interesse em agir genuinamente para resolver a crise climática. “Em vez disso, elas planejam continuar os negócios como de costume, ao mesmo tempo em que falam de plantio de árvores em esquemas de compensação que nunca poderão anular a escavação e a queima de combustíveis fósseis. Devemos acordar rapidamente para o fato de que estamos caindo em um truque. O “net zero” corre o risco de ocultar a falta de ação até que seja tarde demais.”

Relatório completo: https://www.corporateaccountability.org/resources/the-big-con-net-zero/

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/06/2021

 

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