Até 2050, os danos das mudanças climáticas chegarão aos 8 trilhões de dólares

 

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Imagem: NOAA

Até 2050, os danos das mudanças climáticas chegarão aos 8 trilhões de dólares

O clima nos custa 100 bilhões de dólares. Artigo de Gernot Wagner

IHU

Sem intervenções, até 2050, os danos das mudanças climáticas chegarão aos 8 trilhões de dólares. Cada tonelada de CO2 liberada na atmosfera custa 40 dólares.

A opinião é de Gernot Wagner, professor de Economia do Clima na Universidade de Nova York. O artigo foi publicado por La Repubblica, 16-11-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

As consequências econômicas das mudanças climáticas estão se tornando cada vez mais desastrosas, assim como os efeitos físicos evidentes para todos: geleiras que derretem, incêndios catastróficos, secas e eventos climáticos extremos nunca antes vistos.

É difícil fazer uma conta exata, mas em 2019 os efeitos econômicos diretos das mudanças climáticas foram calculados em pelo menos 100 bilhões de dólares. Até 2050, os danos poderiam chegar aos 8 trilhões de dólares, reduzindo uma parcela líquida do PIB mundial que pode variar entre 2% e 10%, e ainda pior para os países mais pobres.

De fato, ano após ano os efeitos se acumulam e aumentam de forma calculável com as funções da econometria. Deve-se ter em mente que, em uma progressão exponencial, um mais um não é dois, porque os efeitos se acumulam de acordo com um esquema de progressão que leva em conta os danos consolidados e adquiridos no período anterior. Assim como os juros compostos de uma dívida.

E, na realidade, estamos verificando uma situação idêntica nestes meses com as trágicas estatísticas da pandemia da Covid-19: se uma pessoa doente infecta outra, a proporção é de um para um. Mas, se essas duas pessoas vão para o meio do povo, elas infectarão não apenas duas outras, mas várias delas, e assim por diante, à medida que cada vez mais infectados entram em circulação.

Mas voltemos aos efeitos do CO2: o crescimento exponencial vale tanto para os efeitos físicos propriamente ditos quanto para o custo deles. Se os efeitos de amplo espectro sobre toda a economia são difíceis de calcular, estamos tentando ao menos identificar um “custo” unitário para poder cobrá-lo de quem polui, na esperança de que polua menos.

O pressuposto é de que é preciso intervir para reverter a curva da escalada, em uma escala grande e muito grande. Infelizmente, as intervenções “individuais” são muito louváveis do ponto de vista ético, mas não incidem de modo decisivo sobre a extensão do problema global. Podemos ensinar os nossos filhos a fecharem a torneira enquanto escovam os dentes e a usarem mil outros expedientes para salvaguardar os recursos naturais; podemos separar o lixo com o maior cuidado, podemos cobrir todo o telhado da casa com painéis fotovoltaicos e comprar um carro elétrico, mas todas essas intervenções têm uma incidência mínima sobre o problema dos problemas, ou seja, as emissões de dióxido de carbono na atmosfera, que devem ser cortadas drasticamente, começando pelos grandes poluidores industriais.

Sobre esse último aspecto, muitos economistas hoje arriscam indicar um custo por tonelada de CO2 emitida na atmosfera igual a 40 dólares, e esse valor serve de referência nas repetidas e até agora infrutíferas tentativas do Congresso [dos EUA] de impor um imposto sobre as emissões de CO2 que produza realmente os efeitos desejados. Mas, dada a complexidade do problema, resta saber quais efeitos concretos um pesado “carbon tax” teria: mais uma das muitas incógnitas relacionadas com as mudanças climáticas.

Segundo estudos científicos mais recentes, esse valor deveria ser aumentado para 100 ou até 200 dólares. A única realidade incontestável é que esse custo existe, é dramático e é necessário intervir rapidamente para conter os seus efeitos. Fixar um valor, aliás, é muito difícil: ele pode ir, teoricamente, de zero – se no futuro se demonstrar que os combustíveis fósseis não têm nenhum efeito – ao infinito – se, vice-versa, esse fenômeno matar a todos nós.

O problema afunda as suas raízes na noite dos tempos. A primeira tentativa de fixar o preço das emissões – neste caso, quem estava sob acusação era o carvão – data de nada menos do que 1306, na Inglaterra. O rei Eduardo I certamente não estava preocupado com as mudanças climáticas, mas enfrentava um problema igualmente incômodo: o ar estava fortemente poluído pelo uso de uma variedade de carvão, o chamado “sea-coal”, particularmente poeirento e sufocante. No fim, o rei acabou banindo esse tipo de carvão e ameaçou os infratores com a pena de morte. Dada a severidade da sanção, a norma funcionou no início, mas logo começaram a pressão dos lobbies daqueles que vendiam carvão, e, no decorrer de não muitos anos, os efeitos benéficos desapareceram.

Dando um salto à frente de mais de 600 anos, chegamos a 1965, quando chegou sobre a mesa do presidente estadunidense Lyndon Johnson o primeiro relatório da história sobre mudanças climáticas. A autoria era de um grupo de pioneiros da nova ciência: economistas, cientistas e ambientalistas. Entre eles Charles Keeling, cuja “Curva de Keeling” foi a primeira a explicar o mecanismo exponencial que eu mencionei no início, aquela que demonstra a irresistível escalada, cada vez mais íngreme devido ao efeito acumulado, do CO2 na atmosfera.

O relatório estabelecia claramente a nocividade das emissões de combustíveis fósseis, projetava os futuros resultados, desde a elevação dos mares até a acidificação dos oceanos. O preço? Felizmente, estava longe do infinito, mas era superior a zero. Infelizmente, nenhuma iniciativa política se seguiu a esse alerta, nem aos muitos outros dos anos seguintes.

E assim chegamos até hoje e a uma situação cada vez pior. O verdadeiro problema é que, conforme se avança, é preciso diminuir o gradiente do aumento de temperatura. William Nordhaus, economista da Universidade de Yale, que nos anos 1990 delineou efetivamente a relação entre crescimento econômico e aquecimento da atmosfera (e recebeu um Prêmio Nobel tardio em 2018 por esses seus estudos), falava de um aumento de 3 graus até 2100 em comparação com a era pré-industrial. Mas a realidade posterior demonstrou que tal aumento seria desastroso para a humanidade e se deveria permanecer na metade desse valor.

Cada dia que passa sem que sejam tomadas e acordadas iniciativas concretas por todos os países industrializados só piora a situação.

(EcoDebate, 19/11/2020) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

 

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