Dificuldade para mudar atitudes em relação à Covid-19 independe de renda e escolaridade, diz estudo

 

Renda e diploma não influenciam percepção de barreiras à adoção de comportamentos positivos na prevenção ao coronavírus

Por Silvana Sales, Jornal da USP

Um pesquisador do Instituto de Psicologia (IP) da USP investigou os pontos críticos no comportamento das pessoas em relação à covid-19 e descobriu que renda e escolaridade não influenciam quando o assunto é a dificuldade de mudar as atitudes para se proteger do coronavírus. Ele descreveu os resultados do estudo em um artigo publicado na Revista de Saúde Pública. A pesquisa foi realizada entre os dias 17 e 24 de março por meio de um questionário on-line distribuído por redes sociais e indicação de participantes a seus conhecidos. No total, 276 pessoas responderam, todas residentes em São Paulo.

Segundo o autor do estudo, o professor Marcelo Fernandes Costa, a ideia foi utilizar uma ferramenta que permitisse comparar respostas individuais. Assim, os participantes usaram uma espécie de “régua” para responder a perguntas que diziam respeito a riscos, sintomas e comportamentos relacionados à covid-19. Essas perguntas serviram para analisar a percepção das pessoas tanto no que diz respeito à susceptibilidade ao vírus e à severidade da doença, quanto aos benefícios em adotar determinados comportamentos positivos ou barreiras para praticá-los. Os participantes também responderam questões sobre hábitos para melhorar a saúde em geral.

“Tem gente que acha que vai ter poucas dificuldades em se comportar para evitar a infecção pelo coronavírus e tem outras pessoas que acham que vão ter grande dificuldade. O nosso estudo mostrou que essa grande dificuldade não está relacionada ao status socioeconômico. Ou seja, não é (pelo) fato de precisar trabalhar que eu acho que me exponho mais. Gente que está dentro de casa acha que está correndo o mesmo risco, e tem gente que sai para trabalhar e acha que está correndo pouco risco. Pessoas com alta escolaridade percebem grandes barreiras, pessoas com alto poder aquisitivo percebem grandes barreiras”, diz ele.

Devido à forma como o questionário foi distribuído, a amostra acabou concentrando um público de maior escolaridade e renda média e alta. No entanto, Costa acredita que essas características não prejudicam os resultados. O motivo é que, embora haja uma convergência entre os participantes no entendimento de que atitudes como o uso de máscaras são relevantes para a proteção contra o coronavírus, houve divergências consideráveis em outros aspectos.

“A discrepância de entendimento entre os participantes é muito grande”, afirma o professor do IP.

Estudo quantitativo

Para construir o questionário, Costa pegou emprestado da psicologia social o modelo de crença e combinou-o com uma metodologia da psicofísica. O modelo de crença foi desenvolvido na década de 1940 para estudar crenças religiosas. Com o passar do tempo, começou a ser utilizado para entender também outros conjuntos de crenças não religiosas. Recentemente, tem sido usado em áreas da medicina onde a adesão do paciente é muito difícil, como psiquiatria e clínica médica.

“Por que um paciente que tem diabetes, (que) sabe que tem diabetes, continua comendo doce, tomando bebida alcoólica, não comendo regularmente a cada três horas? O que faz com que a pessoa mesmo sabendo o que é uma doença, por que ela tem essa doença, o que acontece a longo prazo com essa doença, por que mesmo assim a pessoa adota comportamentos que são contrários à manutenção da sua saúde? Esse modelo de crença apareceu como uma solução para tentar entender por que isso acontece”, explica o pesquisador.

Já a psicofísica, área de especialidade de Costa, é um ramo da psicologia que busca identificar relações objetivas e matemáticas entre o mundo físico e os aspectos subjetivos. No artigo, isso se traduziu na adoção de uma escala quantitativa que os participantes da pesquisa usaram para responder ao questionário. Eles responderam a cada questão localizando na escala a região onde estava sua resposta verbal e assinalando um valor atribuído dentro deste espaço.

Na chamada “escala de razão com ancoragem verbal” utilizada no estudo, os participantes tiveram de localizar onde está o advérbio que melhor descreve sua percepção do risco ou benefício apresentado em cada pergunta

Na chamada “escala de razão com ancoragem verbal” utilizada no estudo, os participantes tiveram de localizar onde está o advérbio que melhor descreve sua percepção do risco ou benefício apresentado em cada pergunta. Na sequência, ele atribui uma pontuação dentro da região do advérbio. – Foto: Revista de Saúde Pública.

“A grande maioria dos questionários acaba usando a escala Likert, que é uma escala ordinal (escala que organiza as respostas num gradiente que vai de pouco a muito, por exemplo). Esse tipo de informação é muito qualitativo, apenas. A gente não consegue entender exatamente qual é o risco que a pessoa está percebendo”, diz o professor, explicando que a escala quantitativa traz ganhos ao oferecer dados mais precisos e comparáveis. A adoção de uma escala de razão permitiu rapidamente traçar os perfis dos participantes em termos de crenças em saúde e compará-los.

Gráfico compara as respostas de dois participantes que teriam o mesmo escore numa escala qualitativa

Gráfico compara as respostas de dois participantes que teriam o mesmo escore numa escala qualitativa. O estudo quantitativo permitiu identificar grandes discrepâncias, como no caso da questão em que eles tiveram de indicar como o risco de perder o emprego afeta a adoção de medidas de proteção contra a covid-19. O participante A percebe esse risco como inexistente. Já o participante B vê a perda de emprego como uma barreira máxima que interfere com a adoção de comportamentos positivos à saúde – Foto: Revista de Saúde Pública

Segundo o pesquisador, o objetivo do trabalho foi criar uma ferramenta que possa ser utilizada com facilidade em postos de saúde, por equipes da Estratégia de Saúde da Família e para medir os efeitos de intervenções de saúde. “Basta você imprimir as perguntas com a escala. Aí, na sala de espera do posto de saúde, a enfermeira pode distribuir esse questionário. As pessoas preenchem esse questionário enquanto estão esperando seu exame de sangue, sua consulta, e na hora você consegue ter o perfil da pessoa”, diz Costa.

Ainda segundo o professor, o tempo máximo de resposta do questionário foi de 15 minutos, com uma média entre cinco e sete minutos. Ele sugere que os trabalhadores da saúde poderiam se apoiar nas informações do perfil para direcionar orientações e intervenções aos pacientes já na própria consulta.

Do Jornal da USP, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/06/2020

 

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