A pandemia pelas redes presidenciais, artigo de Lucas Lanna Resende

 

covid-19

 

[EcoDebate] Ao ser notificado sobre o primeiro caso de covid-19 nos EUA, em 22 de janeiro, o presidente americano Donald Trump, pelo Twitter, tranquilizou os ianques: “Temos controle [sobre a situação]. [O infectado] É uma pessoa que veio da China. Não vai acontecer nada”. Passados oito dias, Trump reforçou sua profecia: “É um problema bem pequeno”. Cerca de 72 horas depois, soltou: “[Nós] Praticamente o paramos”.

Em 24 de fevereiro, apesar da Bolsa norte americana cambalear por causa do novo vírus, o otimismo de Trump continuava em alta. Pelo Twitter, o presidente deu seu prognóstico: “O coronavírus está praticamente controlado. Eu acredito que a Bolsa ficará bem!”.

Dois dias depois, em 26 de fevereiro, Trump descobriu o culpado de tamanha desordem e decidiu compartilhar com seus seguidores: “[A imprensa] Eles se esforçam para fazer com que [o coronavírus] pareça o pior possível, inclusive, [incita] pânico nos mercados”. Entretanto, nas 24 horas seguintes, deixou subentendido que não tinha mais controle da a situação e jogou a responsabilidade para Deus: “Um dia desaparecerá (o vírus), como um milagre”.

No dia 28, Trump encontrou outro culpado além da imprensa: “[O coronavírus] É a nova mentira dos Democratas”.

Após a primeira morte, em 29 de fevereiro, o mandatário chamou para si a responsabilidade novamente e disparou: “Temos tomado as medidas mais agressivas contra o coronavírus”. Para mostrar eficiência, escreveu em 2 de março: “Vamos ter vacinas em breve”.

Já no dia 4, voltou atrás no quesito responsabilidade: “Os 3,4% de mortalidade é um número falso. É apenas minha intuição”.

No dia seguinte, Trump passou a considerar o novo vírus como inimigo de guerra e revelou: “Temos um plano perfeitamente coordenado e ajustado na Casa Branca para atacar o coronavírus”. No mesmo dia, entre a execução do plano perfeitamente coordenado para atacar o coronavírus e sua habilidade ímpar de arrumar desafetos, desabafou: “A imprensa fake news está fazendo todo o possível para nos colocar como maus. Triste!”.

Em 7 de março, sem ser questionado por ninguém, o presidente dos EUA soltou: “Nada me preocupa. Estamos fazendo um grande trabalho”. Dois dias depois, teceu críticas contundentes acerca do isolamento social: “Nada será fechado em função da gripe”.

Na manhã seguinte voltou a se vangloriar: “Estamos preparados e fazemos um ótimo trabalho. Mantenha a calma. [O coronavírus] Desaparecerá”. Mas não demorou três dias para bater o desespero no presidente: “Declaro, oficialmente, a emergência nacional. Duas palavras importantes”.

Em 17 de março, Trump, desesperado, apelou: “Sempre soube que [o coronavírus] era uma pandemia”. Passados 14 dias, o presidente voltou à sobriedade e encerrou o mês de março com o seguinte recado: “Dias difíceis estão vindo. Serão duas semanas muito, muito dolorosas”.

Em 5 de abril, os EUA contavam com mais de 120 mil infectados e 8.500 mortos pelo coronavírus. Os números fizeram com que o porta voz da área de saúde do governo americano comparasse a pandemia às crises humanitárias decorrentes dos atentados de 11 de setembro, em 2001, e Pearl Harbor, em 1941.

Durante todo esse período, no Brasil, Jair Bolsonaro acompanhou, atento, cada tweet do seu mestre e se empolgou cada vez mais. Inspirado em Trump, brindou os brasileiros com preciosidades como: “O que eu vi até o momento é que outras gripes mataram mais do que essa [do coronavírus]. Assim como uma gripe, outra qualquer, leva a óbito”; “No meu entender, está superdimensionado o poder destruidor desse vírus” ou “Depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar”.

No embalo, o presidente conseguiu superar seu ídolo ao levantar questões como “O que se passa no mundo mostra que o grupo de risco é de pessoas acima de 60 anos. Então, por que fechar escolas?” e quando afirmou “Pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria acometido, quando muito, de uma gripezinha ou resfriadinho”.

Só espero que daqui a três meses o ministro da Saúde não compare a pandemia do coronavírus aqui no Brasil aos massacres do Carandiru, em 1992, e da Candelária, em 1993. E espero, do fundo do meu coração, que, assim como o prédio que abrigava os detentos do Carandiru, esse governo se imploda o quanto antes.

Lucas Lanna Resende, jornalista

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/04/2020

[cite]

 

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