Educação para a Sustentabilidade no Brasil: Barreiras, Desafios e Retrocesso, artigo de José Rodrigues Filho

 

[EcoDebate] Educação para a Sustentabilidade é um dos assuntos bastante discutidos nos dias de hoje, principalmente por pesquisadores europeus. Se antes se tinha bastante barreiras e desafios para se estudar ou implementar a Educação para a Sustentabilidade nas Instituições de Ensino Superior (IES) do Brasil, no atual governo o que se observa é um deplorável retrocesso acadêmico.

Na área de educação, o obscurantismo no Ministério da Educação é de uma violência brutal, inaceitável em qualquer sociedade democrática e civilizada. Recentemente cientistas americanos denunciaram que os Estados Unidos vão levar mais de dez anos para recuperar os danos causados pelo governo Trump na área acadêmica, especialmente na área das ciências ambientais, onde vários grupos de pesquisa foram eliminados. No Brasil a destruição é pior, pois atinge quase todos os órgãos de educação do país, diante do doentio viés ideológico do governo.

O conceito de sustentabilidade vem de longe, formado no contexto das florestas em séculos passados, com a noção de cuidado e responsabilidade com a natureza e entidades sociais. Naturalmente as sociedades, valores e o conhecimento evoluíram até se chegar à definição de desenvolvimento sustentável dos dias de hoje. Neste contexto, instituições políticas globais chamam a atenção e pedem ações para o Desenvolvimento Sustentável, incluindo a Educação para a Sustentabilidade. Mas foi a partir de 2015, com os 17 objetivos de Desenvolvimento Sustentável adotados pela ONU (Organizações das Nações Unidas) que se enfatizou a relevância e urgência de transformação em direção a uma visão integrada do planeta, pessoas e prosperidade.

A definição de sustentabilidade já mencionava as principais dimensões de sustentabilidade (social, ambiental e econômica), mas em 2015 se enfatizou um esquema para enfrentar desafios globais tais como fome, pobreza, desigualdade de gênero, destruição de recursos naturais, mudanças climáticas, ou seja, o alcance de uma transformação da sociedade. A partir daí muitas universidades em todo o mundo vem intensificando esforços para incorporar a Educação nas medidas de Desenvolvimento Sustentável.

O período de 2005 a 2014 foi proclamado como a “Década Mundial de Educação para o Desenvolvimento Sustentável”. Neste período, reitores de universidades alemãs, por exemplo, assumiram compromissos com o desenvolvimento sustentável e adotaram a definição de sustentabilidade da Assembleia da ONU: a presente geração deve atender suas necessidades sem comprometer a habilidade de gerações futuras atenderem suas necessidades.

Assim, a sustentabilidade compreende equidade, justiça global na distribuição e desenvolvimento de recursos, afluência e qualidade de vida, bem como um foco nos mais pobres do mundo. Considerando que a definição de sustentabilidade envolve as dimensões acima citadas é preciso reconhecer o tremendo debate e controvérsia em torno de tópicos relacionados com a “sustentabilidade”, “educação ambiental” e “educação para a sustentabilidade”. Diferentes perspectivas existem e são significantes, embora não devam ser vistas como obstáculos.

Não só no Brasil, mas no mundo inteiro, tem se enfatizado a educação ambiental e negligenciado a dimensão social nos estudos de sustentabilidade. Algumas universidades brasileiras tem tido destaque nesta área, mas é preciso se avaliar a contribuição destes estudos para a sustentabilidade, uma vez que muitas vezes estão dissociados das outras dimensões de sustentabilidade. Tanto a educação ambiental como a economia ecológica já existiam antes destas novas noções de sustentabilidade, sendo áreas que só vão enriquecer o campo de conhecimento em sustentabilidade.

Portanto, é necessário que a educação ambiental e a educação para a sustentabilidade devam trabalhar juntas para refazer e redefinir nosso sistema educacional. A área de administração é muito carente de uma educação em sustentabilidade e, mais do que nunca, especialistas da área devem se interessar em avaliar o desempenho de sustentabilidade em diversas áreas administrativas das empresas, uma vez que o que importa na formação profissional não é mais a maximização de lucros, mas ações empresarias voltadas para a melhoria das condições de vida da sociedade e bem estar coletivo.

Como um forte aliado da ONU, o Brasil já esteve numa posição de avançar na Educação para a Sustentabilidade. Infelizmente no governo atual houve um retrocesso e dificilmente não só a Educação para a Sustentabilidade, mas a educação em geral está passando por um processo de degradação nunca visto na história, nos campos de ensino e pesquisa. Estamos diante de tempos sombrios com aqueles que querem a continuação da destruição da natureza, visando interesses econômicos, a exemplo do Presidente Trump dos Estados Unidos, que retirou o seu país do Acordo de Paris. Como seguidor de Trump, o Presidente Bolsonaro vem sendo criticado por suas ações em favor da destruição da Amazônia. Isto pode ser visto também como um retrocesso na Educação para a Sustentabilidade no Brasil.

Estamos deixando de seguir os exemplos de países que estão empenhados com a sustentabilidade, a exemplo da Holanda, pioneiro no mundo por tornar seu setor agrícola sustentável, usando a economia circular. É também o país do mundo que mais tem avançado na Educação para a Sustentabilidade. Assim sendo, enquanto a Educação para a Sustentabilidade avança em outros países, registra-se claramente um retrocesso no Brasil, onde o ensino e a pesquisa parecem ser orientados para o obscurantismo.

José Rodrigues Filho é professor da Universidade Federal da Paraíba. Foi pesquisador nas Universidades de Johns Hopkins e Harvard (USA).
https://jrodriguesfilho.blogspot.com/

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/02/2020

[cite]

 

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