Mina Guaíba e o futuro da saúde de 4 milhões de pessoas em risco, artigo de Eduardo Luís Ruppenthal

 

O processo de licenciamento da Mina Guaíba, projeto da maior mina de carvão mineral a céu aberto do Brasil, não dimensiona os reais impactos socioambientais que ameaçam perigosamente toda a Região Metropolitana de Porto Alegre e diretamente as mais de 4 milhões de pessoas que vivem nela, com prejuízos graves à sua saúde, a médio e longo prazos.

A mina a céu aberto está projetada entre os municípios de Charqueadas e Eldorado do Sul, fica a menos de dois quilômetros do Rio Jacuí, em torno de 16 quilômetros de distância da capital gaúcha, ocuparia uma área superior a 4 mil hectares e com extração de 166 milhões de toneladas de carvão somente na primeira etapa do projeto, com milhões de toneladas de resíduos (422 milhões de metros cúbicos de areia e 200 milhões de metros cúbicos de cascalho), que contém altos teores de Sílica, Enxofre, Alumínio, Ferro e em baixas concentrações, a maioria dos elementos químicos da tabela periódica.

A instalação da mina provoca impactos socioambientais diretos como a desterritorialização dos agricultores do assentamento Apolônio de Carvalho que produzem arroz orgânico, considerados um dos maiores centros de Agroecologia da América Latina e dos moradores do loteamento Guaíba City, da supressão de mais de dois mil hectares de vegetação, sendo que está localizada dentro da Área de Amortecimento do Parque Estadual do Delta do Jacuí e tantos outros indiretos como o rebaixamento em dezenas de metros e consequente contaminação do lençol freático, dos mananciais subterrâneos e da superfície, principalmente o rio Jacuí, principal afluente do Rio Guaíba, afetando toda a bacia hidrográfica, responsável pelo abastecimento de água de 4 milhões de pessoas (Figura 1).

mina Guaíba
Figura 1: Local de instalação da Mina Guaíba para exploração de carvão mineral, área próxima do Rio Jacuí afluente do Rio Guaíba e de toda a Região Metropolitana de Porto Alegre. (Fonte: MPF/Divulgação)

 

A extração do carvão mineral e seu beneficiamento, apesar da combustão não estar projetada nesta primeira etapa, produz uma variedade de metais pesados como Mercúrio, Chumbo, Cádmio, Cromo, Zinco, Cobre, Níquel e Arsênio. Os metais pesados possuem altos níveis de reatividade capazes de desencadear diversas reações químicas, não metabolizáveis (organismos vivos não podem degradá-los) e podem causar efeitos negativos aos ecossistemas terrestres e aquáticos, sendo elementos poluentes do solo, do ar e da água, que podem contaminar de forma direta pelo contato com o ambiente através da superfície do corpo, das estruturas respiratórias, ingestão do material particulado e água ou de forma indireta quando acabam se concentrando ao longo das cadeias alimentares (bioacumulação), concentrando nos níveis tróficos superiores, posição ocupada por animais de topo da cadeia como o ser humano.

Para entender os processos biológicos citados acima, principalmente a forma de contaminação indireta, cita-se como exemplo a cadeia alimentar de um ecossistema aquático: algas e plantas aquáticas realizam fotossíntese e são os produtores, a base da cadeia alimentar, já que produzem alimento e gás oxigênio para si e para o meio. As algas e plantas contaminadas por alguma substância como metal pesado são consumidas por animais como peixes (consumidores primários) e esses vão servir de alimento para outros animais (consumidores secundários) e assim por diante, até chegar ao último consumidor, considerado topo da cadeia alimentar, assim a substância contaminante bioacumula, estará em concentrações maiores no final (Figura 2). Os peixes são animais sensíveis a poluentes como os metais pesados e sofrem com a bioacumulação, podendo sofrer consequências morfológicas, fisiológicas e reprodutivas. Quando consumidos esses peixes, os metais pesados são transferidos para esses consumidores superiores, causando danos para a saúde.

Concentração de metais pesados e agrotóxicos aumenta ao longo da cadeia alimentar. (Fonte: FENAE)
Figura 2: Concentração de metais pesados e agrotóxicos aumenta ao longo da cadeia alimentar. (Fonte: FENAE)

 

O atual tratamento de água realizado pelo Departamento Municipal de Água e Esgoto (DMAE) e pela Companhia Riograndense de Saneamento (CORSAN) não trata a concentração desses elementos químicos, que acabam indo direto para as torneiras das nossas casas, na nossa comida e no nosso chimarrão. As consequências são as mais variadas possíveis, dependendo do metal pesado. Uma breve revisão na literatura especializada, vários sintomas e doenças estão relacionadas com a contaminação por metais pesados:

Mercúrio: no ser humano, o metal pesado age de forma devastadora, deposita-se em vários sistemas do corpo, tais como cérebro, rins, pulmões, fígado, pâncreas, ocasionando o mau funcionamento e causando graves distúrbios com sintomas como náuseas, cefaleia, fraqueza muscular, memória falha, sonolência e delírios, por vezes irreversíveis;

Chumbo: é considerado um dos mais metais pesados mais perigosos, de grande força tóxica, que produzem doenças devastadoras e mortes em seres vivos. Em humanos, a acumulação de chumbo no organismo pode afetar severamente as funções cerebrais, afetando principalmente os sistemas nervosos (central e periférico), medula óssea, como também rins, sistema digestivo e reprodutor, inclusive com possibilidade de produzir mutações genéticas em descendentes. Os sintomas são irritabilidade, cefaleia, tremor muscular, alucinações, perda da memória e da capacidade de concentração. Esses sintomas podem progredir até o delírio, convulsões, paralisias e coma;

Cádmio: metal pesado que atinge órgãos vitais como rins, fígado e pulmões, causando danos também no sistema ósseo. Sintomas característicos são a hiperatividade, náuseas, vômitos, cólicas abdominais, diarréia, perda de dentes e dores articulares. Doenças causadas pela toxicidade: câncer, enfisema pulmonar, hipertensão arterial, doenças renais, anemia, diminuição de testosterona e da produção de anticorpos;

Cromo: provoca danos na pele, no sistema imunológico, no sistema respiratório como bronquite e em doses mais altas pode desenvolver células cancerígenas no pulmão;

Zinco: o excesso desse metal pesado provoca sintomas como náusea, vômitos, diarreia, sonolência, letargia e enjôo. Atinge também órgãos do sistema respiratório com conseqüência imediata, tosse contínua;

Cobre: o excesso no organismo causa náuseas, vômitos, diarreia, intoxicação aguda e até mesmo a morte;

Níquel: causa doenças respiratórias e alergias podendo ocasionar má formação de fetos, como anencefalia, em casos de elevada exposição. Assim como causar câncer nos pulmões, nacavidade nasal e nos seios paranasais;

Arsênio: provoca lesões não cicatrizáveis na epiderme, parte externa da pele, lesões em órgãos vitais e alguns tipos de cânceres, em particular o da pele, e em concentrações elevadas pode levar ao óbito;

A contaminação ocasionada pela instalação da mina não fica restrita ao período de exploração que está projetado por ocorrer durante 30 anos, além da quase certa instalação de um pólo carboquímico, que aumentaria ainda mais a poluição do ar, água e solo, mas por muito tempo, para não dizer para sempre. Já que os efeitos da poluição não estão restritos ao período de funcionamento. Assim a mina teria que ser monitorada por décadas após a sua desativação, pelo alto potencial poluidor, durante e após a exploração, responsabilidade essa desconsiderada por quem quer explorar, não esclarecida no licenciamento e certamente, seria o legado deixado para as futuras gerações de toda a Região Metropolitana: conseqüências públicas irreversíveis e que irão perdurar por dezenas e centenas de anos.

Só por isso a mina se torna insustentável economicamente, se computar todos os impactos socioambientais diretos e indiretos, principalmente após a exploração. É isso que está em jogo, a instalação da mina será um marco temporal: a Região Metropolitana de Porto Alegre antes e depois da Mina Guaíba. Os impactos e as consequências serão irreversíveis à saúde do ambiente, da degradação dos níveis de qualidade de vida e à saúde de milhões de pessoas, das atuais e futuras gerações. Por isso não podemos deixar instalar esse projeto insano, irresponsável e inconsequente. Não à Mina Guaíba!

Eduardo Luís Ruppenthal – Professor da Rede Pública Estadual, biólogo, mestre em Desenvolvimento Rural (PGDR/UFRGS) e membro do Coletivo Alicerce.

Referências:

ALEIXO, B. Projeto Mina Guaíba: a maior mina de carvão a céu aberto do Brasil. Porque não? Acesso em: 26 out 2019.

ECODEBATE. Catástrofe: este é o cenário provável na Mina Guaíba (RS), in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/08/2019. Disponível em: . Acesso em: 26 out 2019.

INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS. Mina Guaíba: um empreendimento de altíssimo impacto ambiental e lobby da indústria dos combustíveis fósseis. Entrevista especial com Paulo Brack. Acesso em: 26 out 2019.

MONTEIRO, K. V. Carvão e mudanças climáticas / Kathia Vasconcelos Monteiro (coord.). – Porto Alegre: Núcleo Amigos da Terra, 2008.

MUNIZ, D. H. de F.; OLIVEIRA-FILHO, E.C. Metais pesados provenientes de rejeitos de mineração e seus efeitos sobre a saúde e o meio ambiente. Universitas: Ciências da Saúde, v. 4, n. 1 / 2, p. 83-100, 2006.

NAKANO, V.; AVILA-CAMPOS, M.J. Metais pesados: um perigo eminente. Departamento de Microbiologia da Universidade de São Paulo. Acesso em: 26 out 2019.

REIS, M. Metais pesados: O que são e sintomas de intoxicação. Acesso em: 26 out 2019.

 

*Artigo enviado pelo autor e originalmente publicado no Sul21

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/11/2019

Mina Guaíba e o futuro da saúde de 4 milhões de pessoas em risco, artigo de Eduardo Luís Ruppenthal, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/11/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/11/20/mina-guaiba-e-o-futuro-da-saude-de-4-milhoes-de-pessoas-em-risco-artigo-de-eduardo-luis-ruppenthal/.

 

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