Na Groenlândia o gelo derrete em velocidade recorde; rios fluem no permafrost

 

Degelo na Groenlândia

Rios que aparecem do nada e, a qualquer momento, se estendem a perder de vista, até gerar imprevisíveis lagoas. Fluem, neste momento de pleno verão, sobre a Groenlândia, ou melhor, sobre o que resta do seu gelo eterno, cada vez mais escuro e encolhido, numa palavra, agonizante. As imagens aéreas que acabaram de chegaram da maior ilha do planeta causam impressão.

Milhões – bilhões – de toneladas de água que ficam estagnadas ou escorrem para o vale, em uma terra que, até hoje, permanece coberta por 82% pelo manto branco perene. Vales que nascem e desaparecem, de um momento para o outro, para reaparecerem em outro lugar, em uma paisagem onde a mutação se tornou a regra.

 

degelo na Groenlândia
Degelo na Groenlândia | Foto: Foto: Steffen Olsen

 

A reportagem é de Arturo Cocchi, publicada por La Repubblica, 03-08-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Nos últimos dias – como explica à agência Associated Press Ruth Mottram, climatologista do Instituto Meteorológico da Dinamarca (de cujo reino a ilha faz parte, como república semiautônoma) – a parcela da camada de gelo sujeita ao fenômeno de derretimento foi aumentando gradualmente, atingindo um pico de 56,5% de sua extensão total: é o recorde da temporada, mas certamente acontecerá nos próximos dias.

Ao relatar isso em números, impressiona ainda mais. Somente na quarta-feira, mais de 10 bilhões de toneladas de água foram despejadas no Atlântico e no Ártico, um valor que eleva a perda total de gelo da ilha para 197 bilhões de toneladas neste verão. Para se ter uma ideia, um bilhão de toneladas de água corresponde ao volume de líquido contido em 400.000 piscinas olímpicas; 100 milhões de toneladas foram despejadas nos oceanos – pouco mais da metade do gelo desapareceu em julho, fazendo com que o nível do mar subisse um quarto (0,28) de milímetro. Alguns outros dados: o total “derramamento” deste 2019, equivalente a 240 bilhões de toneladas, está se aproximando do primado absoluto, os 290 bilhões de toneladas de gelo que derreteram em 2012. E, via de regra, o derretimento continua durante todo o mês de agosto. Naquela estação recorde – pelo menos desde 1981, quando o fenômeno foi medido no Centro de Dados de Neve e Gelo em Boulder, Colorado – a liquefação parcial das camadas sólidas afetou até 92% do permafrost. Para concluir, um estudo científico concluído em junho – um trabalho de climatologistas e físicos dinamarqueses e estadunidenses – estima que o derretimento das geleiras da Groenlândia levará a um aumento das águas oceânicas entre 5 e 33 centímetros até 2100. A hipotética liquefação total da camada branca da ilha, sozinha seria capaz de elevar o nível médio do mar em cerca de 7,2 metros.

Os acadêmicos estão certos de que os recordes de 2012 serão superados. Isto é sugerido pela concatenação dos eventos climáticos que este ano ocorreu na terra ártica. O calor, intenso, persistente e aparentemente destinado a continuar, foi precedido por um inverno particularmente seco e pobre em precipitações “sólidas”. A neve fresca, de fato, além de contribuir por sua própria natureza para o crescimento das massas das geleiras, tem um papel protetor quando chegam os primeiros calores: “O gelo eterno foi deixado ‘a descoberto’ mais cedo este ano – explica Twila Moon do Centro de Dados de Neve e Gelo – devido ao baixo acúmulo de neve e gelo (“novo” n.d.r,)

Já atingida por uma primeira onda de calor recorde – sazonal – na primeira quinzena de junho, a ilha sofre agora o extremo deslizamento para o norte da mesma onda africana que no final de julho levou temperaturas recordes entre Paris, o Benelux e a Alemanha. O termômetro subiu para 22 graus – que não é um recorde absoluto, mas algo muito diferente do 9-10 que até recentemente representava a média dos meses “mais quentes”. A enésima prova de uma tendência aparentemente irreversível, como demonstram a deriva dos icebergs que a partir do mar que margeia a ilha atingem em massa as costas da Terranova. Como se isso não bastasse, no extremo (quase) oposto do Profundo Norte, a Sibéria está em chamas.

Ondas como esta não são novidade, mas, explica Mike Sparrow, da Organização Meteorológica Mundial das Nações Unidas, “hoje ocorrem 10 vezes mais do que 100 anos atrás”. E o profundo norte (em geral os polos) são as áreas mais vulneráveis. “Quando a temperatura média global sobe de um grau – Sparrow continua – você pode nem notar se estiver em Londres ou em Hamburgo – mas esse é o valor médio, enquanto a diferença é muito mais pronunciada perto do Ártico ou da Antártida”.

Se é verdade que acima de Nuuk e seus arredores a onda africana está prestes a passar, “tudo deixa prever” – explica Mottram – que ainda teremos temperaturas amenas e céus limpos: estes últimos são uma concausa quase tão importante, junto com o calor, do derretimento do gelo.” Em outras palavras, o fenômeno parece destinado a persistir, mesmo que o termômetro venha a relatar valores próximos à norma.

IHU

(EcoDebate, 06/08/2019) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

 

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