Crescimento demoeconômico da Etiópia: a ‘China da África’? artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

[EcoDebate] A Etiópia é o berço do Homo sapiens e dos grãos do café. Atualmente é uma das principais nações da África. A população da Etiópia, em 2018, de 107,5 milhões de habitantes é a segunda maior do continente, ficando atrás somente da Nigéria com 195,9 milhões de habitantes, mas à frente do Egito com 99,4 milhões de habitantes e com cerca do dobro da população da África do Sul (57,4 milhões)

O Produto Interno Bruto (PIB) da Etiópia foi de US$ 222,3 bilhões em 2018, bem abaixo do PIB da África do Sul de US$ 794,7 bilhões, da Nigéria de US$ 1,19 trilhão e do Egito de US$ 1,29 trilhão. Mas a Etiópia tem a economia que apresenta as maiores taxas de crescimento ao longo dos anos 2000.

O gráfico abaixo, com dados do FMI, mostra que a renda per capita da Etiópia (em poder de paridade de compra – ppp) estava estagnada nas duas últimas décadas do século passado, mas iniciou uma trajetória de rápido crescimento a partir da virada do milênio. A renda per capita da população etíope era de somente US$ 727,41 em 1980, caiu para US$ 653,23 no ano 2000 e para US$ 621,12 em 2003. Mas em 2018 já era de US$ 2.102,76 e deve chegar a US$ 2.865,73 em 2023. Entre 2003 e 2018 o crescimento da renda foi de 3,4 vezes ou 8,5% ao ano. Por conta, deste alto crescimento a Etiópia tem sido chamada de a “China da África”.

 

renda per capita da Etiópia

 

Para efeito de comparação, em 1980, o PIB da Etiópia de US$ 10,7 bilhões era 11 vezes menor que o PIB da Venezuela de US$ 117,2 bilhões. Esta relação continuou até 1994, quando a diferença começou a diminuir. Em 2018, o PIB da Venezuela ainda foi 50% superior ao PIB da Etiópia, mas, em 2023, o FMI estima que a Etiópia terá um PIB de US$ 360,3 bilhões contra US$ 320,1 bilhões da Venezuela.

 

PIB da Etiópia e da Venezuela

 

Em termos demográficos, a Etiópia tinha uma população de 18,1 milhões de habitantes em 1950, passou para 87,7 milhões no ano 2000 e, pela projeção média da ONU (a mais provável considerando os dados atuais), terá 190,9 milhões em 2050 e, em 2100, terá 250 milhões de habitantes. A taxa de fecundidade total (TFT) que é de 4 filhos por mulher no quinquênio 2015-20 deve ficar abaixo do nível de reposição apenas a partir do quinquênio 2080-85. Portanto, a estabilização da população etíope deve ocorrer apenas no século XXII.

 

população da Etiópia

 

A comparação da Etiópia com a China não se deve apenas ao alto crescimento econômico recente. Na verdade, os dois países possuem uma rica história. A China da Grande Muralha, da fabricação da seda, das cerâmicas e das 4 grandes invenções – bússola, pólvora, papel e tipografia – tem uma história mais conhecida. Mas ambos os países acreditam que eles estão destinados a ser grandes.

A Etiópia também tem uma civilização antiga e teve um estado-nação relativamente maduro bem cedo, com o Reino Aksumita, datando do século I DC Os regimes subsequentes, através dos tempos medievais e além, exerceram uma boa quantidade de poder. Mais importante, os etíopes de hoje veem seu país como uma extensão direta dessas unidades políticas anteriores. Alguns etíopes influentes afirmaram traçar sua linhagem até o rei Salomão dos tempos bíblicos. O país tem vínculos entrelaçados com as três maiores religiões abraâmicas do mundo. A Etiópia divide com a África do Sul o posto de maior número de Patrimônios Mundiais da UNESCO na África.

Os etíopes costuma expressar um notável grau de entusiasmo pelo seu país e cultura, incluindo seu papel na história bíblica. Eles se consideram uma civilização e não apenas um país. Eles se separam de forma autoconsciente das linhas mais amplas da história e cultura africanas. Quando o continente africano foi dividido politicamente entre as potências europeias na Conferência de Berlim, a Etiópia foi um dos dois únicos países que mantiveram sua independência. A nação foi uma dos apenas três membros africanos da Liga das Nações, e após um breve período de ocupação italiana, a Etiópia, enquanto país soberano, tornou-se membro das Nações Unidas. Addis Abeba é sede da União Africana e da Comissão Econômica das Nações Unidas para a África.

Mas o caminho da China e da Etiópia se cruzam de outras formas na contemporaneidade. Os investimentos chineses estão impulsionando o crescimento etíope (e também a dependência do país). Há inúmeros prédios de apartamentos, novos e modernos, espalhados por Addis Abeba, construídos pelos chineses, assim com um sistema de bondes leves, uma grande represa para energia hidrelétrica e uma conexão ferroviária de alta velocidade para o Djibuti e a costa.

A Grande Barragem do Renascimento Etíope será a maior no continente africano e a sétima maior do mundo. Mas como a barragem será construída no principal afluente do rio Nilo – o Nilo Azul – o projeto tem gerado tensões com os países vizinhos que sofrem com o estresse hídrico, mas especialmente com o Egito que não quer ter a sua vazão de água restringida. Enquanto a Etiópia busca garantir o seu abastecimento de água e de energia, o Egito ameaça até a entrar em guerra com a Etiópia pelo acesso à água. O governo egípcio afirma que a barragem reduzirá os mais de 56 mil milhões de metros cúbicos de água por ano que utiliza do Nilo.

Com um custo estimado em US$ 4,2 bilhões, o projeto foi financiado inteiramente por verbas nacionais e pela emissão de obrigações junto da comunidade etíope na diáspora. Além disso, todos os etíopes no país foram convidados a dar contribuições voluntárias (a oposição prefere falar em “pressões”). A barragem deve ser concluída em 2019 e representará um grande ganho para a economia etíope.

 

A Grande Barragem do Renascimento Etíope

 

Outro projeto ambicioso é a linha férrea de US$ 4 bilhões e de 470 milhas de comprimento, o primeiro sistema ferroviário transfronteiriço eletrificado na África. A nova rede ferroviária foi construída pelas empresas ferroviárias e de construção estatais da China, que estavam ansiosas para promover seus investimentos na África. Bandeiras vermelhas estampam: “Viva a amizade sino-africana”. Por várias décadas, os investimentos da China na África estavam destinados principalmente à criação de aliados políticos em todo o continente. Pequim investiu pesadamente em projetos para conquista coração e mente, como estádios de futebol e hospitais. Em troca, esses estados deram à China acesso a recursos naturais, como petróleo, madeira e níquel, alimentando o boom econômico da China.

A China agora vê a África como uma importante oportunidade econômica. Tem investido dinheiro em infraestrutura em todo o continente, além de construir a sua primeira base militar fora da China, em Djibuti (local estratégico no Chifre da África e na entrada do canal de Suez). Para a Etiópia, os gastos com infraestrutura da China são um elemento essencial nos planos para emergir de um longo ciclo de seca, pobreza, fome e guerra. A ferrovia é um começo. Autoridades etíopes dizem que a linha eventualmente se transformará em uma rede ferroviária de 5.000 quilômetros que se estende pelos vizinhos Sudão, Sudão do Sul e Quênia – onde a China concluiu recentemente outra ferrovia, por US$ 3,8 bilhões.

A Etiópia depende dos portos de Djibuti para 90% de seu comércio exterior. Sem uma ferrovia eficiente, os bilhões de dólares de importação e exportação do país – combustível, café, gado – tiveram que viajar de caminhão, uma jornada de três a quatro dias ao longo de estradas esburacadas. A nova linha ferroviária reduzirá a viagem em 12 horas.

 

linha férrea de US$ 4 bilhões e de 470 milhas de comprimento, o primeiro sistema ferroviário transfronteiriço eletrificado na África

 

Tudo indica que a Etiópia vai continuar crescendo de forma acelerada nos próximos anos. Por exemplo, a companhia aérea estatal Ethiopian Airlines (ET) revigorou as viagens aéreas em todo o continente, por meio de uma combinação de investimentos e parcerias estratégicas, aquisições de outras companhias aéreas e prestação eficiente de serviços. Assim a Etiópia emergiu como um destino e um centro de conexões para viagens de longo curso para a África Subsaariana em 2018. O aeroporto Internacional Bole de Addis Ababa superou Dubai como a principal porta de entrada para a região.

Em relatório de dezembro de 2018 sobre a saúde econômica da Etiópia, o FMI considera que o país subsaariano está embarcando em uma nova fase de desenvolvimento econômico e social, apoiado por reformas e impulsionado pelo setor privado. Na última década, o alto crescimento levou a uma redução significativa da pobreza e melhorou os padrões de vida de muitos etíopes.

O FMI entende que os grandes investimentos em infraestrutura do país estão começando a dar frutos e a prestação de serviços públicos, como educação e saúde, aumentaram significativamente. Como resultado, a população desfrutou de importantes ganhos de bem-estar. Por exemplo, o número de mortes maternas por 100.000 nascidos vivos caiu radicalmente de 1.080 em 1995 para 353 em 2015 e a proporção de pessoas que vivem na pobreza caiu de mais de 45% em 1995 para cerca de 23% em 2015.

O relatório do FMI considera que apesar da evolução positiva, os grandes desequilíbrios externos e o peso da dívida pública estão restringindo o crescimento futuro, colocando em risco as perspectivas futuras. Embora a dívida pública seja sustentável no médio prazo, a Etiópia continua com alto risco de endividamento.

Em seu relatório, a equipe do FMI incentiva as autoridades a rever a estratégia e o modelo financeiro da agência de empréstimo para desenvolvimento do governo – o Banco de Desenvolvimento da Etiópia – que tem apresentado retornos abaixo do esperado para seus investimentos nos últimos anos. Um sistema mais flexível para a taxa de câmbio também é necessário para aumentar as reservas cambiais, melhorar a competitividade externa e aumentar a disponibilidade de divisas. Isso apoiaria o desenvolvimento contínuo do país.

Análises realizadas em conjunto com a ONU Mulher constatam que a agenda do governo de promover a igualdade de gênero pode gerar grandes benefícios econômicos ao longo do tempo. O fechamento de lacunas de gênero no nível de escolaridade, as taxas de participação formal da força de trabalho e o acesso a terras de qualidade e a outros recursos são fundamentais para a obtenção desses benefícios. O novo governo avançou nessa área. Eles nomearam um gabinete equilibrado de gênero, enquanto as mulheres foram colocadas em posições-chave de tomada de decisão, incluindo a presidência e o chefe do Supremo Tribunal.

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

Referência
IMF. Ethiopia: Remarkable Progress Over More Than a Decade, December 4, 2018
https://www.imf.org/en/News/Articles/2018/12/04/na120418-ethiopia-remarkable-progress

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/01/2019

"Crescimento demoeconômico da Etiópia: a ‘China da África’? artigo de José Eustáquio Diniz Alves," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/01/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/01/30/crescimento-demoeconomico-da-etiopia-a-china-da-africa-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

 

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