Relevos ruiniformes, artigo de Roberto Naime

 

Relevos ruiniformes é a denominação atribuída nas ciências da terra, para paisagens com aspectos que lembram ruínas abandonadas.

 

[EcoDebate] A gênese destas conformações está intimamente associada à erosão causada pelos ventos, principalmente em rochas sedimentares psamíticas, ou por erosão pluvial em rochas sedimentares de origem em precipitados químicos.

O exemplo mais notável de formação ruiniforme são os arenitos esculpidos pelos ventos, em variadas formas, se destacando “a torre” no parque de Vila Velha, no estado do Paraná. Neste estado, arenitos esculpidos por agentes eólicos, patrocinam uma grande variedade de relevos e paisagens desta natureza.

 

Arenitos ruiniformes de Vila Velha
Arenitos ruiniformes de Vila Velha. Foto: CPRM Serviço Geológico do Brasil

 

Os exemplos mais conspícuos de relevos ruiniformes de natureza pluvial, ocorrem em terrenos de natureza dolomítica (calcários de composição carbonática, mais magnesiana do que cálcica). Na região de “Hérault” na França, são conhecidas conformações que se assemelham a cidades em ruínas. A água superficial, que fica enriquecida em gás carbônico, provoca a dissolução do carbonato, esculpindo lentamente na história geológica, formas que vão se destacando na paisagem, causando a sensação de uma cidade que está em ruínas.

Relevos ruiniformes ocorrem de forma muito notável em estruturas geológicas conhecidas pela denominação de “morros testemunhos”. São áreas constituídas por rochas de maior resistência a processos erosivos, cercadas por áreas de ocorrência de rochas mais suscetíveis ou vulneráveis a fenômenos erosivos diversos.

No parque estadual de Vila Velha, alguns afloramentos rochosos erodidos por ação eólica nos arenitos, assumem formas muito enigmáticas e por isto atraem a atenção e a curiosidade de todas as pessoas. Além do Paraná, merecem destaque os sítios do Parque Nacional de 7 cidades no Piauí, o salão de pedra em Conceição do Mato Dentro em Minas Gerais e a área da Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso. Em todos os sítios citados a rocha predominante é sedimentar do tipo arenítica. Somente em Minas Gerais predominam quartzitos, que provavelmente foram arenitos e estão metamorfizados em grau de metamorfização indeterminado.

Rochas psamíticas do tipo arenitos são muito suscetíveis a processos erosivos de natureza eólica. Em Vila Velha também são identificados sulcos nas rochas, indicativos de ocorrência de cachoeiras, ou seja, de erosão pluvial de natureza física, removendo grãos e determinando formas de relevo. A origem e os processos envolvidos são bastante conspícuos e as interpretações populares, embora amplamente justificáveis, não tem nenhuma fundamentação.

Todos estes sítios, onde ocorrem processos que geram aspectos de ruínas nas rochas que compõe as paisagens, são locais que são dotados de aspectos de grande excepcionalidade e atração estética, gerando inimagináveis interpretações em todas as pessoas, onde aspectos místicos se associam a raciocínios lógicos e geram cenários multifacetados e caleidoscópicos.

A análise de vegetação ajuda a descortinar eventos paleoecológicos das regiões. Em Vila Velha, por exemplo, espécies arbóreas endêmicas do planalto, se misturam com gramíneas e palmáceas típicas do ambiente de cerrado. A presença de espécies de cactáceas são vegetações reliquiarias, indicativas de climas pretéritos muito mais secos.

O Parque Estadual de Vila Velha, pioneiro no estado do Paraná, possui 3.803 hectares, e foi criado em 1.953. As rochas presentes são de idade paleozóica e mesozóica da bacia gondwânica do rio Paraná. As feições identificadas nas rochas incluem vasto repertório. São escarpas, morros testemunho, relevos ruiniformes em geral, fendas, furnas, bacias de dissolução, caneluras, juntas poligonais e outras. No entanto, a área carece de iniciativas de geoconservação, que sejam sistêmicas e permanentes.

Junto com o Parque Estadual de Vila Velha, merecem registro as pouco conhecidas “Guaritas”, que constituem a antiga localidade de Minas do Camaquã e seu entorno, localizadas nas proximidades do município gaúcho de Caçapava do Sul. Registradas mais pelas ocorrências de Cobra, Chumbo e Zinco, que foram identificadas na região, onde operou por bom tempo antiga mineração de cobre filoniano.

A jazida de chumbo e zinco era incrustada em metrizes de cimentação de rochas sedimentares, mas não há informações se a mesma foi explotada. Fica o registro da grande beleza e singularidade propiciada pelos relevos ruiniformes em arenitos e conglomerados de idade pré-cambrianas da região. A região das Minas do Camaquã é representante de um patrimônio paisagístico de riqueza singular. Ao cruzar a estrada de acesso às Minas do Camaquã é possível observar uma série de feições geomorfológicas de caráter ruiniforme, esculpidas pela persistente ação eólica, denominadas Guaritas, que contam uma história pouco conhecida sobre a evolução geológica da região.

O aspecto que lembra ruínas preservadas na rocha, também conhecido como relevo ruiniforme, é resultante do que se conhece como erosão diferencial, a qual é descrita como sendo incrementada em zonas mais permeáveis, onde a percolação de água é facilitada, ou seja, nas fraturas das rochas que facilitam e orientam a erosão pluvial. Alterações químicas e biológicas também são intensificadas nessas zonas de fraturas, resultando em paisagens notáveis.

Existem grandes e fantásticas efemérides de exuberância e magnificência na natureza deste imenso país, que emolduram um tesouro de cenários inesquecíveis e imprevisíveis.

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

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Referência:

AB’SÁBER, A.N. 1977. Topografias ruineformes no Brasil. São Paulo, USP – Inst. Geografia, Geomorfologia, n.50, 14p.

MELO, M.S. & COIMBRA, A.M. 1996. Ruiniform in sandstones – the example of Vila Velha, Carboniferous of the Paraná Basin, Southern Brazil. Acta Geológica Hispanica, v.31, n.4, p.25-40 (publicado em 1999).

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/11/2018

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