Só lembramos o que nos afeta, artigo de Montserrat Martins

 

artigo de opinião

 

[EcoDebate] Estejam seus pais com você, ou não mais, as suas lembranças de família serão dos fatos mais marcantes que viveu com eles. O nosso cérebro não guarda memórias “neutras”, só fixa os melhores e os piores momentos. E mais ainda uma soma dos dois, quando alguém nos ajuda em momentos de dificuldade: aí a alegria do socorro se sobrepõe ao sofrimento que estávamos passando.

Cada pessoa lembra de nós por motivos muito diferentes entre si. Nós não somos “a mesma” pessoa para todos, somos as alegrias ou frustrações que proporcionamos a cada um. Lembro o que ouvi das pessoas sobre meu pai, que se despediu de nós alguns anos atrás. Cada um tinha uma lembrança diferente dele, cada um o via por um ângulo diferente. Um amigo lembrava dele como o ouvinte mais empático, mais compreensivo. Um neto lembrava dele levando ao colégio e ao futebol. Outra pessoa me falou de orientação providencial que recebeu dele. A grande maioria era grata por sua atenção e generosidade. Mas já lembro de ter ouvido, anos antes, tanto reclamações de ser um professor rigoroso nas notas da Faculdade de Direito, quanto elogios por ser exigente e obrigar os alunos a estudarem.

Isso vale para pais e filhos, amizades, casais, colegas de estudo ou trabalho. Vale para professores, vizinhos, para chefes que você teve ao longo da vida, nos seus empregos. Com maior dramaticidade, às vezes, para relações amorosas desfeitas. Nossas lembranças sempre são parciais, nunca são isentas, o que gravamos são momentos que deixam saudades – gestos simples às vezes já proporcionam momentos felizes – ou então que nos dão alívio por terem passado.

Alegria, tristeza, excitação, medo, tensão, ansiedade, alívio, algo essa pessoa lhe fez sentir, para você lembrar dela. Se suas lembranças parecem “prosaicas”, sem maior conotação afetiva, não se engane: nos detalhes do cotidiano muitas vezes encontramos aconchego, pertencimento, reconhecimento, até a rotina pode nos dar alguma sensação de segurança, de estabilidade na vida. Alguém estar ao seu lado ao longo do tempo, mesmo que pareçam em sua maioria momentos “mornos”, pode ser marcante, sim. Aliás, é importante registrar que muitas vezes os afetos não são reconhecidos em sua importância e valor por serem demonstrados de modo mais sutil, sem ‘ostentação’ afetiva explícita.

Só lembramos o que tem afeto, mas não se engane, nem sempre o afeto é “explícito”. Muitas vezes não valorizamos adequadamente familiares, amigos, ou até uma relação que pareça menos emocionante, mas sentimos falta dessa presença discreta quando ela se afastar de nós. O afeto, afinal, também pode ser inconsciente.

 

Montserrat Martins, Colunista do EcoDebate, é Psiquiatra, autor de “Em busca da alma do Brasil”

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/08/2018

Só lembramos o que nos afeta, artigo de Montserrat Martins, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/08/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/08/20/so-lembramos-o-que-nos-afeta-artigo-de-montserrat-martins/.

 

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Um comentário em “Só lembramos o que nos afeta, artigo de Montserrat Martins

  1. Ao Doutor Montserrat,
    O artigo em apreço é de inestimável importância para mim, tendo em vista uma memória que tive de minha infância (3 anos, talvez), quando residíamos, meus genitores e seus 7 filhos vivos – 2 haviam morrido em tenra infância, e deles não tenho mais informações – dos quais fui o último a ser parido, em um sítio no agreste pernambucano, município de Toritama.
    Estávamos à mesa, 3 irmãs minhas e eu, que sentia muita fome e, creio, encontrava-me à beira da morte por desnutrição, quando nossa genitora chegou por trás de uma das minhas irmãs e, olhando-me, falou em tom agressivo e quase aos gritos: “saia da mesa e vá se deitar ali na cama (eu estava de costas para a porta de um dos dois quatros, onde havia um catatau). Você não vai comer agora. Vá se deitar”.
    Ao ouvir e sentir toda aquela agressividade, eu, que estava com intenso desejo de comer alguma coisa, obedeci e saí sentindo uma grande dor no peito, e me deitei na cama, conforme havia sido ordenado.
    Essa lembrança me ocorreu com se fosse de um filme que eu tivesse assistido. Em seguida a essa ocorrência, veio-me a lembrança de quando a minha genitora tentava fazer-me sair da cama, e as minhas pernas não suportavam o meu corpo, e me vi debruçado na cama, para não cair no chão.
    Após ter essa memória com muito sofrimento, pensei: “será que essa memória é verdadeira, ou é invenção da minha mente?”, e decidi consultar minhas irmão (são 4), 3 das quais se encontravam na mesa, comigo. Elas confirmaram a minha memória, mas com muita reserva e demonstrando grande trauma e sofrimento.
    Já tratei dessa lembrança com psicólogos, os quais não me passaram qualquer esclarecimento, e estou apresentado a você agora, esperando que me passe alguma informação sobre lembrança tão dolorida.
    Nota: certa vez, em visita a minha genitora, nos últimos anos da vida, ela, sentada em uma poltrona, na sala, disse-me: “teu pai era um home bom, um bom dono de casa, até tu nacer. Depois que tu nacesse, ele abandonou a famia”. Essa declaração me foi chocante e eu não gostei de ver meu nascimento relacionado com o abandono que ela sofreu do único e grande amor da vida dela (afora os sentimentos maternais) e do qual sofreu todo tipo de traição e com quem ficou até a morte dele, 3 anos antes da dela, em 13 de janeiro de 1996. Ela nasceu em 1907, e ele em 1913.
    E-mail: val.val2705@hotmail.com
    Cordiais Saudações.
    Valdeci Pedro da Silva.

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