Sobrecarga da Terra: superpopulação e superconsumo, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Precisamos pegadas menores, mas também precisamos de menos pés”.
(Enough is Enough, 2010)

 

[EcoDebate] Hoje, 01 de agosto, é o dia da Sobrecarga da Terra. Significa que a humanidade já consumiu todos os recursos renováveis para o ano completo de 2018. Nos próximos 5 meses, a economia internacional vai funcionar na base do déficit ambiental, consumindo a herança deixada pela “Mãe natureza”. Serão cinco meses de sobrecarga e degradação ambiental, fato que compromete a sustentabilidade ecológica no longo prazo, pois diminui a biocapacidade do Planeta.

Portanto, o caminho atual trilhado pelo ser humano é insustentável, pois a taxa de utilização da riqueza natural está acima da taxa de regeneração dos ecossistemas e as atuais gerações estão comprometendo a capacidade de sobrevivência das futuras gerações e das demais espécies vivas da “Nossa casa comum”. As atividades humanas ultrapassaram a capacidade de carga do Planeta e será impossível continuar enriquecendo a humanidade às custas do empobrecimento ambiental.

Nos últimos 45 anos a Pegada Ecológica mundial ultrapassou a biocapacidade do Planeta, segundo dados da Footprint Network. Em 1961, a biocapacidade do Planeta era de 9,5 bilhões de hectares globais (gha) e a pegada ecológica era de 7 bilhões de gha. O mundo, com uma população de 3 bilhões de habitantes, tinha superávit ambiental, pois a pegada ecológica per capita era de 2,29 gha e a biocapacidade per capita era de 3,13 gha. Mas a partir do início dos anos de 1970, os valores das duas medidas se inverteram e o mundo começou a experimentar déficits ambientais crescentes.

 

pegada ecologica e biocapacidade total, mundo

 

Em 2014, o mundo tinha uma população 7,4 bilhões de pessoas, com uma pegada ecológica per capita de 2,84 hectares globais (gha) e uma biocapacidade per capita de 1,68 gha, como resultado, houve um déficit total de 70%. Ou dito de outra maneira, o mundo estava consumindo o equivalente a 1,7 planeta. Portanto, a população mundial vive no vermelho e tem um produto da multiplicação entre população e consumo que é insustentável.

 

pegada ecológica e biocapacidade, per capita, mundo

 

Algumas pessoas dizem que o déficit ambiental é provocado pela superpopulação. Outros dizem que o déficit é gerado pelo superconsumo. De certa forma, os dois lados estão certos.
Os dados de 2014 mostram que se o consumo for reduzido, por exemplo, baixando a pegada ecológica de 2,84 gha para 1,68 gha (redução do padrão de consumo médio global) o Planeta entra em equilíbrio ambiental. Mas os dados também mostram que se a população de 2014 for reduzida de 7,4 bilhões para 4,3 bilhões de habitantes a biocapacidade per capita global passaria para 2,84 gha (12,2 bilhões de gha divididos por 4,3 bilhões de habitantes), eliminando o déficit. Ou seja, o equilíbrio entre a biocapacidade e a pegada ecológica pode ser atingido reduzindo a pegada ecológica ou diminuindo o número de pés (Enough is Enough, 2010).

Mas também existe o caminho do meio que seria reduzir o consumo, por um lado, e diminuir o tamanho da população, por outro lado. Por exemplo, se o consumo for reduzido de 2,84 gha para 2,26 gha e a população for reduzida para 5,4 bilhões de habitantes (o que daria uma biocapacidade de 2,26 gha), o equilíbrio ambiental se daria pela restrição simultânea do superconsumo e da superpopulação.

Vejamos o caso de dois continentes que apresentam comportamento diametralmente oposto em relação ao padrão de consumo.

A Europa, com população de 730 milhões de habitantes em 2014, tinha uma pegada ecológica de 4,69 gha e uma biocapacidade de 3,07 gha. Portanto, os europeus possuem um padrão de consumo bem acima da média mundial, gerando um déficit ambiental. Claramente, a Europa tem um problema de superconsumo. Se o estilo consumista for abrandado, por exemplo, para 3,07 gha, a Europa poderia manter um consumo acima da média mundial, mas eliminaria o déficit ambiental, pois a pegada ecológica e a biocapacidade per capita ficariam em 3,07 gha.

 

pegada ecológica e biocapacidade, per capita, Europa

 

No continente africano a situação é oposta. A África tinha em 2014 uma população de 1,05 bilhão de habitantes com pegada ecológica per capita de 1,39 gha e biocapacidade de 1,29 gha. Existe consenso que o consumo per capita da África é muito pequeno, implicando em baixo padrão de vida. Portanto, a África tem subconsumo e não superconsumo. Vamos supor que a pegada ecológica do continente subisse para 2,26 gha. Para haver equilíbrio a população teria de ser reduzida para 601 milhões de habitantes para atingir uma biocapacidade per capita também de 2,26 gha.

 

pegada ecológica e biocapacidade, per capita. África

Existem várias formas para se reduzir o déficit ambiental. Pode haver equilíbrio ecológico via redução do consumo, via redução da população, ou via redução simultânea dos dois vetores que estão degradando a saúde dos ecossistemas. Todavia, reduzir a população e o consumo no curto prazo é muito difícil. Mas ao longo do século XXI é possível planejar um decrescimento demoeconômico que coloque as atividades antrópicas em equilíbrio homeostático com a biocapacidade do Planeta, única forma de se evitar um colapso ambiental e civilizacional. Como explica Herman Daly, em entrevista recente (2018):

O impacto ambiental é o produto do número de pessoas vezes que o uso de recursos per capita. Em outras palavras, você tem dois números multiplicados um pelo outro – qual é o mais importante? Se você mantiver uma constante e deixar a outra variar, você ainda está multiplicando. Não faz sentido para mim dizer que apenas um número é importante. No entanto, ainda é muito comumente dito. Suponho que faria algum sentido se pudéssemos nos diferenciar histórica e geograficamente – para determinar em que ponto da história, ou em que país, qual fator merecia maior atenção. Nesse sentido, eu diria que, certamente, para os Estados Unidos, o consumo per capita é o fator crucial – mas ainda estamos multiplicando pela população, então não podemos esquecer a população. No nordeste do Brasil, por outro lado, a população estava – pelo menos na época em que morei lá – crescendo extremamente rápido, então talvez seja na demografia que a ênfase deveria ser colocada”.

Portanto, para evitar o superconsumo e a superpopulação, podemos colocar mais ênfase na redução do consumo ou mais ênfase na redução da população. Evidentemente, isto varia de país a país. Mas em termos globais, neste momento em que a humanidade já ultrapassou a capacidade de carga da Terra, somente a redução do consumo global e da população global pode evitar um colapso ambiental e reduzir os danos de uma grande crise ecológica. Como dizia Jacques Cousteau: “O superconsumo e a superpopulação estão por trás de todos os problemas ambientais que enfrentamos hoje”.

 

 

Ao longo do século XXI é necessário haver decrescimento demoeconômico até se atingir o nível de equilíbrio do Estado Estacionário, conforme explica Herman Daly.

O desafio global mais candente e que requer uma resposta imediata é a reversão do rumo insustentável da economia internacional. É preciso abandonar o “crescentismo” ou “crescimentomania” (doença do crescimento a qualquer custo), dando mais ênfase à redução das desigualdades sociais para se atingir o bem-estar populacional e buscar, urgentemente, um relacionamento justo e sustentável com a natureza, com o clima e com as demais espécies vivas da Terra.

Referências:
HERMAN DALY. Ecologies of Scale, Interview by Benjamin Kunkel. New Left Review 109, January-February 2018
https://newleftreview.org/II/109/herman-daly-benjamin-kunkel-ecologies-of-scale

O’Neill, D.W., Dietz, R., Jones, N. (Editors), Enough is Enough: Ideas for a sustainable economy in a world of finite resources. The report of the Steady State Economy Conference. Center for the Advancement of the Steady State Economy and Economic Justice for All, UK, 2010.
http://steadystate.org/wp-content/uploads/EnoughIsEnough_FullReport.pdf

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/08/2018

Sobrecarga da Terra: superpopulação e superconsumo, artigo de José Eustáquio Diniz Alves, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 1/08/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/08/01/sobrecarga-da-terra-superpopulacao-e-superconsumo-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

 

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Inclusão na lista de distribuição do Boletim Diário da revista eletrônica EcoDebate, ISSN 2446-9394,

Caso queira ser incluído(a) na lista de distribuição de nosso boletim diário, basta enviar um email para newsletter_ecodebate+subscribe@googlegroups.com . O seu e-mail será incluído e você receberá uma mensagem solicitando que confirme a inscrição.

O EcoDebate não pratica SPAM e a exigência de confirmação do e-mail de origem visa evitar que seu e-mail seja incluído indevidamente por terceiros.

Remoção da lista de distribuição do Boletim Diário da revista eletrônica EcoDebate

Para cancelar a sua inscrição neste grupo, envie um e-mail para newsletter_ecodebate+unsubscribe@googlegroups.com ou ecodebate@ecodebate.com.br. O seu e-mail será removido e você receberá uma mensagem confirmando a remoção. Observe que a remoção é automática mas não é instantânea.

2 comentários em “Sobrecarga da Terra: superpopulação e superconsumo, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

  1. O Brasil é o pais mais liimpo do mundo, para contrariedade dos ambientalistas que vivem de divulgar alarmes falsos: O Brasil, possui, sozinho, 15,4% de toda a biocapacidade do planeta, apresentando uma biocapacidade per capita de 9,63 gha , para uma pegada ecológica (uso) de 2,93 gha.

  2. Olá Eloy,
    Realmente o Brasil tem o maior superávit absoluto do mundo segundo a Footprint Network. Eu já escrevi sobre isto várias vezes e foi publicado o livro BRAZIL IN THE ANTHROPOCENE: CONFLICTS BETWEEN PREDATORY DEVELOPMENT AND ENVIRONMENTAL POLICIES que trata destes assuntos. Voce pode ver no link abaixo.

    Mas apesar de todo o superavit que o Brasil tem historicamente, a cada ano este superavit diminui e a degradação ambiental aumenta. Já destruímos 90% da Mata Atlantica, 50% do Cerrado, 20% da Amazonia, etc. O Brasil não está cumprindo com o que propôs no Acordo de Paris, etc.
    Não considero que os problemas ambientais brasileiros sejam alarmes falsos
    https://www.ecodebate.com.br/2017/03/17/brasil-no-antropoceno-desenvolvimento-predatorio-e-politicas-ambientais-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
    Abs, JE

Comentários encerrados.

Top