Exército: das favelas de Canudos para as favelas do Rio, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

 

artigo de opinião

 

[EcoDebate] Favela, poucos sabem, é uma árvore típica da Caatinga. Espécie absolutamente inteligente, adaptada ao clima semiárido, é dotada de muitos espinhos e um poderoso ácido que fazem sua defesa contra os predadores. Quem tocar numa favela, sai queimado.

Quando o Exército Brasileiro atacou Canudos, teve três fragorosas derrotas antes da batalha final em 1897. O espaço mais árduo para a conquista final foi o ‘Morro das Favelas” (Alto da Favela), um espaço permeado pela árvore urticante e um dos enfrentamentos mais hostis para os soldados.

Quando terminou a guerra, os soldados voltaram em grande parte para o Rio de Janeiro. Dispensados, sem soldos, sem emprego, foram morar nos morros do Rio, começando pelo Morro da Providência, a primeira favela do Rio. Então, para ligar a hostilidade das caatingas com a hostilidade do novo lugar de moradia, associaram a árvore ácida da caatinga com as condições de vida dos morros cariocas, as habitações precárias, também associada à ideia de lugar alto. Até hoje estão aí as favelas.

Soldados rasos e policiais normalmente vem das classes populares mais baixas. Literalmente, vão servir de “bucha de canhão” para serem guardiões do capital, em nome da pátria. Assim aconteceu com os soldados de Canudos.

Um general do Exército fez uma declaração esses dias exigindo, ao menos verbalmente, que os soldados que agora vão atacar as favelas do Rio de Janeiro, tenham poder de polícia e que não tenham responsabilidade penal pela eliminação de cidadãos. É uma declaração de guerra aos favelados do Rio.

Estima-se que o tráfico de drogas internacional movimenta cerca de 500 bilhões de dólares ao ano, grande parte circulando pelo ético e asséptico sistema bancário global. No Brasil, helicópteros, aviões, caminhões, muitas vezes transportando de 500 kg a toneladas de drogas, pegos em flagrante, jamais tem seus donos identificados, muito menos presos.

Então, vez em quando em nossa história o Exército Brasileiro cruza com as favelas e os favelados. Essa relação nunca foi amiga e nem de convívio. Mas, a história nos recorda que a primeira favela brasileira foi parida pelo nosso Exército.

 

Roberto Malvezzi (Gogó)*, Articulista do Portal EcoDebate, possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco. Membro da Equipe de Assessoria da REPAM (Rede Eclesial Pan Amazônica)
www.robertomalvezzi.com.br

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/02/2018

Exército: das favelas de Canudos para as favelas do Rio, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó), in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/02/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/02/27/exercito-das-favelas-de-canudos-para-as-favelas-do-rio-artigo-de-roberto-malvezzi-gogo/.

 

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4 comentários em “Exército: das favelas de Canudos para as favelas do Rio, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

  1. Hoje, nossas favelas continuam sendo um espinho na garganta de nós todos. Assim como o cigarro e o álcool as drogas jamais serão banidas por decreto. E são elas que alimentam a criminalidade nos morros. Temos que nos espelhar nos países que estão convivendo pacificamente com os viciados.

  2. Pergunto sempre a quem critica alguma coisa: o que o articulista propõe?

  3. Discordo do Adir. Para haver viciados, e preciso que haja traficantes.
    Ó tráfico trabalha sutilmente aliciando os jovens menores de idade.
    O Governo adotou recentemente uma medida importante. Proibiu que cigarros sejam mostrados próximo a balas e chicletes.
    É com o cigarro que se iniciam vícios maiores.

Comentários encerrados.

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