Estratégias de Ocupação dos Espaços Rurais Urbanos e Periurbanos como forma de Sobrevivência Socioeconômica de Comunidades Agrícolas Municipais, artigo de João de Deus Barbosa Nascimento Júnior

 

Estratégias de Ocupação dos Espaços Rurais Urbanos e Periurbanos como forma de Sobrevivência Socioeconômica de Comunidades Agrícolas Municipais, artigo de João de Deus Barbosa Nascimento Júnior

[EcoDebate] Existe no mundo um triste fenômeno que atesta o fracasso da revolução verde e de seus métodos destruidores: segundo a ONU, mais de um bilhão de pessoas estão sem acesso à alimentação mínima necessária para garantir a segurança alimentar individual e de sua família, dos quais 800 milhões estão passando fome, literalmente falando, essa endemia é a penas o início de um ciclo que leva à morte pela desnutrição. Os outros habitantes do globo conseguem acesso à ração alimentar diária suficiente ou excessiva meticulosamente envenenada de resíduos tóxicos de pesticidas ou de resíduos químicos da indústria dita alimentícia. Os primeiros morrem de fome os outros de câncer e outros males.

Mas existe um fenômeno que o mundo não tem prestado a devida atenção: 800 milhões de pessoas, em todo o mundo, se dedicam hoje à agricultura urbana, e o número vem crescendo aceleradamente. É a FAO que estima em 800 milhões o número de agricultores urbanos no mundo, reconhecendo que esses já respondem por 15% de toda a produção mundial de alimentos, sendo uma produção muito mais variada e nutritiva, não baseada apenas em cereais e commodities agrícolas.

Uma das causas é sem dúvida o grande e maciço êxodo rural, acompanhado pelo proporcional êxodo agrícola, esse sim o mais perigoso para as comunidades rurais urbanas e periurbanas. Dados do IBGE apontam o crescimento das populações urbanas, de forma acentuada, nas últimas décadas e que o desenvolvimento rural, causado pelo movimento tecnicista, não holístico e substituidor de mão-de-obra, oriundo da adoção de máquinas e implementos agrícolas como parte fundamental na produção, pela adoção da monoatividade e principalmente, pela adoção das monoculturas graníferas, que tem ocupado os solos de grandes áreas brasileiras, expurgando assim, massas inteiras de trabalhadores, não aproveitados por essas culturas, nem pelo modus operandi dos seus sistemas de produção.

Daí urge a necessidade, que se estabeleça, uma planificação municipal, para atender as demandas de técnicas, capazes de absorver essas massas de trabalhadores, para que possam dar continuidade as suas atividades agrícolas, deixadas para traz, sendo essas mais saudáveis, do ponto de vista ecológico, mais econômico e que venham principalmente ao encontro das necessidades de consumidores que necessitam de uso intensivo de mão de obra e de tecnologias, serviços e produtos com mais rentabilidade e rendimento bem maiores, para aumentar essa oferta de alimentos, principalmente para as atividades de olericultura nas grandes cidades.

Várias são as opções existentes à agricultura urbana e periurbanas, pois sendo um tipo de agricultura desenvolvida dentro e nas margens das grandes cidades, em áreas que vão de um pequeno espaço de 50 metros quadrados até fazendas com mais de 200 hectares. Essas atividades envolvem plantio de hortaliças, frutas, grãos, ervas medicinais e aromáticas, pequenos bosques, áreas de permacultura, flores ornamentais, etc. Acontece tanto em cidades pequenas do terceiro mundo, como no coração das metrópoles do mundo industrializado.

Vários são os exemplos, Amsterdã, Paris, Nova York, Los Angeles, Vancouver, só para exemplificar algumas cidades. Esse fenômeno acontece também no Brasil, mais significativamente em Cachoeira do Itapemirim, rio Branco do Sul e nas capitas de Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo. Essa atividade é estratégica em Havana, onde mais de 30.000 são praticantes; em Moscou são 20.000, na Philadelphia, em Kampala, na Cidade do México, Boston, Tirana, Nairobi, Bankok, Perth, Sidney, Toronto, São Petesburgo, Shangai, Montevidéu, Lima, Buenos Aires, Corientes e La Paz. Nesses locais essas atividades estão muito bem organizadas e vem sendo apoiadas pelos governos municipais, através da criação de leis e normas de conduta para todas as atividades agrícolas urbanas.

No Brasil ainda estamos dormindo em berço esplêndido. Em Chicago, por exemplo, há criações de cabras e abelhas sem ferrão em prela cidade, o mesmo acontece em várias cidades da Inglaterra, onde a criação de vacas e porcos é permitida. Na cidade do México, a municipalidade tem autorizado a criação de até 60 porcos em terrenos urbanos, desde que observadas rígidas condições normativas de higiene.

Na maior parte de países e cidades citados, a atividade de plantio convive com a criação de animais, em plena zona urbana. As autoridades sanitárias ditam as regras e mantêm fiscalizações. Os criadores tratam de segui-las e tudo funciona muito bem. Na Philadelphia, a Universidade local implantou um programa de apoio aos agricultores urbanos, que os capacitará a desenvolver a piscicultura urbana, em tanques de moderna tecnologia, com circulação e aeração, onde a produtividade chega ao equivalente a 400 toneladas por hectare de lâmina de água. Também há cultivos de cogumelos.

A FAO entende que a agricultura urbana oficialmente sancionada e promovida pode se tornar um componente importante do desenvolvimento urbano e proporcionar mais alimentação aos pobres que vivem nas grandes cidades. A agricultura urbana também pode proporcionar produtos mais frescos e mais baratos, mais espaços verdes, o esvaziamento de aterros sanitários e a reciclagem do lixo doméstico com sua compostagem para adubo orgânico.

Dentre as vantagens dessas práticas pode-se citar: a geração de renda para os produtores, a criação de empregos urbanos, a absorção de mão-de-obra do migrante rural, a absorção de mão-de-obra adolescente, a oportunidade de trabalho para as mulheres, a ampliação da segurança alimentar, a substituição das importações municipais, a reciclagem do lixo doméstico urbano, a reciclagem das águas pluviais, disponibilização de alimentos frescos, disponibilização de alimentos mais baratos, disponibilização de proteínas, disponibilização de micronutrientes, melhoria do meio ambiente urbano, aprimoramento da estética ambiental urbana, criação de agroindústrias, integração com a agricultura municipal, prazer de criar e plantar como forma de atrair pessoas da terceira idade.

João de Deus Barbosa Nascimento Júnior
Analista A da EMBRAPA Amazônia Oriental
Mestre em Planejamento Regional e Local

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/01/2018

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Um comentário em “Estratégias de Ocupação dos Espaços Rurais Urbanos e Periurbanos como forma de Sobrevivência Socioeconômica de Comunidades Agrícolas Municipais, artigo de João de Deus Barbosa Nascimento Júnior

  1. Sim, é plenamente justificável o aproveitamento de espaços urbanos ociosos para o plantio de alimentos, pois além de servirem de alimentação, também podem servir de renda aos menos favorecidos.

Comentários encerrados.

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