O ecologismo dos pobres segundo Alier, artigo de Roberto Naime

 

O Ecologismo dos Pobres (Cód: 1968692) Alier,Joan Martínez
Foto: Saraiva

 

[EcoDebate] Joan Martínez Alier, é professor do Departamento de Economia e História Econômica da Universidade Autônoma de Barcelona e presidente da Sociedade Internacional de Economia Ecológica.

Lembra que a exploração brutal e crescente de recursos naturais causados por nosso modelo econômico dá origem a uma longa lista de problemas ambientais.

E também gera cada vez mais numerosos e extremamente graves conflitos sociais. Este é o conteúdo principal do livro, “O ecologismo dos pobres”, que aqui é abordado.

Se vê a economia como aberta à entrada de energia e aumento de materiais de produção e de resíduos, como o dióxido de carbono e outros sistemas de poluição.

Aumenta a dimensão física da economia. Em contraste, a economia humana aumenta em relação aos espaços e recursos físicos. Por conseguinte, se aumenta os conflitos de distribuição ecológicos. Ou seja, não se está apenas comprometendo as futuras gerações humanas, se está eliminando espécies da biodiversidade que nem se conhece, e fomentando conflitos ambientais agora.

Os Estados Unidos importam mais do que metade do petróleo que gasta. Fisicamente Japão e Europa dependem ainda mais de importações. Quando os cálculos de fluxos de materiais mostram que a América Latina exporta seis vezes mais materiais, toneladas como minerais, petróleo, carvão, soja, e enquanto a União Europeia funciona ao contrário, isto leva à formulação de que existe um comércio ecologicamente desigual.

A mesma desigualdade observada nas emissões de dióxido de carbono, a principal causa da mudança climática. Um cidadão dos EUA emite 15 vezes mais em média do que um da Índia. Se pergunto, quem possui a atmosfera para depositar o dióxido de carbono que resta.

O protocolo de Kyoto não resolve o enorme conflito ecológico-distributivo. Daí a afirmação da dívida ecológica que o Norte do hemisfério deve ao Sul, com o comércio, de alterações climáticas, a biopirataria ecologicamente desigual e também a exportação de resíduos tóxicos. A dívida ecológica pode ser expressa em dinheiro, mas também em questões morais.

Há muitas experiências de resistência popular e indígena contra o avanço das atividades agrícolas ou de mineração. Estas resistências parecem ir contra o curso da história contemporânea, que é o triunfo constante do capitalismo e a expulsão dos pobres. Mas nem sempre é assim.

Em países, como a Índia e a Indonésia, as comunidades recorrem a outras ações e abordagens jurídicas. Na Amazônia existem comunidades que resistem contra as companhias petrolíferas.

O mundo consome tanta que a extração de bens ou matérias-primas estão próximas a exaustão. Hoje se extrai petróleo do Alasca e da Amazônia. Mas em todas as partes do mundo há resistência.

Quando os pobres percebem que as suas possibilidades de subsistência estão ameaçadas devido a projetos de mineração, barragens, plantações de árvores ou grandes zonas industriais, queixam-se não por serem ambientalistas profissionais, mas porque necessitam dos serviços do ambiente para a sua sobrevivência imediata. É este o “ambientalismo dos pobres”.

A economia ecológica é uma crítica da economia convencional, pois acredita que o crescimento econômico não pode ocorrer indefinidamente.

A abordagem sociológica e antropológica alicerça movimentos da sociedade que propugnam alterações ideológicas como apanágios para a solução de problemas ambientais.

Não ocorre encaminhamento de soluções, pois tanto vertentes socialistas como da livre iniciativa rezam pela cartilha de crescimento permanente como forma de incrementar círculos econômicos virtuosos.

A economia ecológica também critica como a economia e a contabilidade estão construídas. E se propõe é considerar os aspectos físicos, biológicos, químicos e também sociais.

Isto é, se a economia cresceu, muito bem, mas ocorrendo o aumento da poluição se questiona se vale a pena. O que acontece com os rios, as florestas, com a saúde das crianças, também deve ser avaliado.

Às vezes, as vítimas são as gerações futuras que não podem protestar, porque eles ainda não nasceram. Ou mesmo pode ser uma baleia, que não foi protestar. Mas às vezes desastres ecológicos também afetam as pessoas de hoje, protestando.

Algumas pessoas podem não entender a natureza estrutural destes protestos. São nascidas no Sul do hemisfério, nas fronteiras das matérias primas e novos locais de extração e de poluição. E às vezes não percebem como são atingidas.

Nestes conflitos ambientais que o livro analisa, quer por extração ou transporte de matérias-primas, quer por contaminação local ou regional.

Em um conflito ambiental que estão envolvidos muitas variáveis diferentes, dimensões ecológicas, culturais, de modo de vida das populações e de valores econômicos. Nesta situação, os valores são expressos em diferentes escalas, e nem sempre são mensuráveis.

A Ecologia Política é cada vez mais indispensável e estuda os crescentes conflitos ambientais, mostrando que nestas situações, variados atores usam ou podem usar diferentes linguagens de avaliação. E se observa na prática que são valores incomensuráveis, e que o reducionismo econômico é apenas uma forma de governança.

Referência:
http://www.ecologistasenaccion.es/article7976.html

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/12/2017

[cite]

 

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