Ilhas do Pacífico: as lições das crianças das nações insulares na COP 23 – Bula! por Sucena Shkrada Resk

 

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Ilhas do Pacífico: as lições das crianças das nações insulares na COP 23 – Bula!

Por Sucena Shkrada Resk

A Aliança dos Pequenos Estados Insulares (em inglês, Alliance of Small Island States – AOSIS, com 39 países) assumiu, pela primeira vez, um protagonismo na condução da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP 23), em Bonn, Alemanha, ao ter na presidência o governo de Fiji, que trouxe uma carga de humanização importante no histórico das conferências. O primeiro-ministro Frank Bainimarama levou para a mesa de negociações a metodologia do “espírito Bula” de fidelidade de inclusão, simpatia e solidariedade, que exprime o conceito pacífico de talanoa. O retrocesso do governo norte-americano na pauta não tirou o brilho dessa iniciativa, que continuará com o Diálogo Talanoa, em 2018.

Ouvir os jovens Timoci Naulusala, 12 anos,  e  Shalvi Shakshi, 10, de Tuatua, Labasa  pôde sensibilizar os interlocutores sobre a realidade vivida por quem sofre com as mudanças climáticas na pele. A carga de inocência dessas crianças e o sentimento latente, principalmente ao tocar em “feridas ainda abertas” das privações aos acessos à água, alimentos, decorrentes dos eventos extremos, traz a veracidade necessária para se fugir do ciclo vicioso dos discursos tecnocratas. Entre os países do grupo, Ilhas Salomão, Papua Nova Guiné, Vanuatu e Tonga são os que mais sofrem com eventos extremos.

A COP23 ocorria e os furacões Irma e Maria também já haviam deixado um rastro de destruição em países da AOSIS, como Antígua e Barbuda, Dominica e Cuba, além de Porto Rico, nação observadora da Aliança. Mortes, desabrigados e R$ 40 bi de estimativa de efeitos da devastação.

Este outro vídeo, no qual o pequeno Timoci narra a vida que leva com sua família, na pequena vila, que sofreu os impactos climáticos, apresenta uma carga emocional e de “urgência” e “resiliência” ao mesmo tempo. Shalvi também mostra seu povoado afetado pelo ciclone Winston, em fevereiro de 2016, e a preocupação com o futuro da comunidade. Essas populações, em sua maioria, são agricultores familiares, que têm suas subsistências oriundas do que cultivam na terra.

Saber que existem ações em andamento de adaptação espalhadas pelo mundo, com um recorte especial no continente africano, mesmo que ainda muito aquém do necessário, se traduz em uma mensagem de esperança nas entrelinhas das negociações.

Algumas experiências foram destacadas na COP23, em exposição do fundo de adaptação. Mas é necessário explicar que não é possível mensurar a eficácia de todas, tendo em vista, que algumas são polêmicas, no recorte socioambiental.

Ações de adaptação desde a infância

Entre as dezenas de relatos, há ações interessantes de países insulares, como a campanha Salve Tuvalu para salvar o mundo!, com 10 mil imagens… e o plano internacional de adaptação centrado na criança, que mostra o contexto da região da Ásia-Pacífico, que tem 750 milhões de jovens, entre 15 e 24 anos e mais de um quarto da população menor que 14 anos. A proposta é que cada comunidade e escola projete e implemente a projetos de adaptação que usam financiamento em pequena escala, com a participação dos governos locais.

Integram esta iniciativa 14 países: Bangladesh, Indonésia, Laos, Myanmar, Nepal, Filipinas, Tailândia e Vietnã na Ásia; e Fiji, Kiribati, Papua Nova Guiné, Ilhas Salomão, Tonga e Tuvalu no Pacífico. O projeto é apoiado pelo australiano Governo, bem como Fundação COFRA e OAK com público adicional de doações da Espanha.

O Senegal está sendo pioneiro com a utilização de recursos de acesso direito com o projeto Centro de Acompanhamento Ecológico, que tem forte participação feminina e de jovens. Esta modalidade permite uma maior apropriação para implementação das finanças climáticas.

Num escopo mais global, há a Organização Global de Parceria sobre a Água (GWP), entre outras ações.

O peso dos insulares na COP23 teve mais um capítulo interessante que resultou no Ocean Pathway, que introduziu o componente oceano de forma mais sistemática nas negociações.

Por outro lado, os efeitos práticos em âmbito global da COP23 ainda estão muito distantes do necessário no tocante à implementação dos acordos, principalmente no que se refere ao apoio dos países mais ricos e poluidores aos processos de adaptação dessas nações que já sofrem a pressão do nível do mar que aumenta ano a ano, além do avanço dos eventos climáticos extremos que têm devastado estes países. Lembrando que ano a ano, os apelos são reiterados.

É difícil acreditar na possibilidade real de o aumento da temperatura média do planeta ficar abaixo de 2 graus até o final do século. Justamente uma semana antes da abertura da Conferência, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) divulgou que os níveis de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera aumentaram em uma “velocidade recorde” em 2016.

Muitos dos acordos tecidos na COP 21, de Paris, permanecem fragilizados nestas COPs posteriores, quando se observa os encaminhamentos internos dos países que têm de diminuir e acabar com suas fontes fósseis em suas matrizes, incluindo o Brasil. O que teremos de novo na COP 24, que será em Katowice, na Polônia, em dezembro do ano que vem: uma verdadeira incógnita. Isso, no entanto, não tira a importância dos insulares neste ano de 2017.

* Sucena Shkrada Resk é jornalista, formada há 25 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (http://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/12/2017

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