Alexander von Humboldt e a invenção da natureza, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

“A invenção da natureza: A Vida e as Descobertas de Alexander von Humboldt” (2016)
“A invenção da natureza: A Vida e as Descobertas de Alexander von Humboldt” (2016). Imagem: Google Books

 

[EcoDebate] Alexander von Humboldt (14/09/1769 – 06/05/1859) foi um geógrafo, naturalista e ambientalista alemão, que nasceu antes da consolidação do capitalismo urbano-industrial, testemunhou o avanço da 1ª Revolução Industrial e, no início do século XIX, percebeu, de maneira presciente, que a ampliação das atividades antrópicas e o desenvolvimento econômico baseado na contínua exploração do meio ambiente estava se transformando em uma força de destruição da natureza.

Ele antecipou a visão da Terra como um organismo vivo e integrado. Em sintonia com o idealismo e o romantismo alemão – de Kant e Goethe – Humboldt compreendia que as leis da natureza constituem um equilíbrio complexo e interligado, no qual os princípios das diversas ciências – astronomia, química, botânica, geografia e zoologia – formam um conjunto que mostra “uma teia comum, lícita e eterna que corre através de toda a natureza viva”. Alexander von Humboldt foi um pesquisador transdisciplinar e seminal. O rei prussiano Frederico Guilherme II dizia que ele era “o maior homem desde o dilúvio”.

A magnífica e premiada biografia escrita por Andrea Wulf, “A invenção da natureza: A Vida e as Descobertas de Alexander von Humboldt” (2016), busca resgatar a importância dos estudos de Humboldt e a influência que ele teve, especialmente no século XIX, além de explicar porque um cientista de tal dimensão ficou meio esquecido no mundo anglo-saxônico e em países como o Brasil que nunca deram muita importância para a preservação e a conservação da natureza.

Antes de completar 30 anos, Alexander von Humboldt, junto com o amigo francês Aimé Bonpland (1773-1858), conseguem um salvo-conduto da Coroa espanhola para visitar a América do Sul e desembarcam na atual Venezuela em julho de 1799. Equipados com um avançado arsenal de 42 instrumentos científicos – microscópios, telescópios, bússolas e relógios, etc. – Humboldt e Bonpland embarcam numa expedição de quatro meses e 2.750 km para explorar o rio Orinoco e chegar até a bacia amazônica, numa expedição absolutamente inovadora e rica em descobertas científicas. Em seguida, foram conhecer e estudar a ilha de Cuba. Não insatisfeitos, foram para Cartagena na atual Colômbia e dali para Lima, atravessando os Andes.

No Equador, os dois amigos (e seus auxiliares) escalaram o vulcão Chimborazo, no Equador, considerada, naquela época, a montanha mais alta do mundo, com 6.268 metros de altura. Tal feito teve importância fundamental para a ciência e a luta pela independência da América Latina.

Cientificamente, como escreveu Andrea Wulf, nas alturas dos contrafortes andinos, Humboldt começou a esboçar a sua teoria científica, chamada ‘Naturgemälde’, um termo alemão que traduz a ideia de unidade ou todo. Ele fez um desenho que ficou famoso e significou uma síntese das suas ideias, apresentada no formato de 90 cm por 60 cm, com colunas à direita e à esquerda trazendo informações sobre temperatura, pressão atmosférica e umidade, além de animais e plantas de cada altitude, traduzindo sua visão de mundo.

Esta viagem à América do Sul (e os livros que Humboldt publicou posteriormente) não influenciaram apenas a ciência. Alexander mostrou, por um lado, a riqueza ecológica da região, mas também fez uma crítica implacável ao regime colonial e, especialmente, condenou peremptoriamente a escravidão. As ideias de Humboldt foram fundamentais para a formação intelectual de Simon Bolívar, que conheceu e se tornou amigo do revolucionário naturalista alemão na Europa, quando decidiu voltar para a América Latina e lutar pela independência dos países da região.

Da América do Sul, Humboldt e Bonpland foram para o México, onde não só descreveram a geografia, mas também a riqueza da cultura Asteca. Em 1804, Humboldt se encontrou com o presidente Thomas Jefferson (1743-1826) e a nata da intelectualidade científica e política dos EUA (inclusive Alexander Hamilton que foi o primeiro Secretário do Tesouro dos EUA). Todos ficaram encantados e admirados com as descobertas e a inteligência de Alexander von Humboldt.

Ainda em 1804, aos 35 anos, Humboldt volta para a Europa, se dividindo entre Paris, Berlin e Londres e se reunindo com cientistas para discutir e classificar as mais de 60 mil plantas coletadas e todas as amostras geológicas, além das observações sociológicas sobre as tribos indígenas, etc.

As aventuras e as descobertas de Humboldt na América Latina inspiraram muita gente, inclusive Mary Shelley, que no livro “Frankenstein, ou o moderno Prometeu”, foi influenciada pelos experimentos humboldtianos e fez referência à América do Sul como alternativa de vida nova para a Criatura rejeitada na Europa.

Mas a influência mais marcante no campo da biologia foi sobre Charles Darwin (1809-82), que só embarcou no Beagle, em 1831, para fazer a famosa viagem científica ao redor do mundo, inspirado nas viagens e nas descobertas de Humboldt. Na volta da viagem e na preparação para o fundamental livro “A origem das espécies” Darwin se inspirou e se comunicou com Humboldt, tendo inclusive uma reunião presencial em 1842, quando o naturalista alemão acompanhava o imperador prussiano Frederico Guilherme 4º em visita à Londres.

A lista de grandes cientistas e filósofos influenciados pelo exemplo de vida e a grande produção acadêmica de Alexander von Humboldt é enorme. Destaca-se Johann Wolfgang von Goethe (1749 – 1832) – que foi amigo e também exerceu influência sobre Humboldt – Ralph Waldo Emerson (1803-82), Henry David Thoreau (1817-62), Júlio Verne (1828-1905), Ernst Haeckel (1834-1919) – o criador do termo ecologia – George Perkins Marsh (1801-1882), John Muir (1838-1914), Aldo Leopold (1887-1948), Arne Naess (1912-2009), James Lovelock (1919 – ) – autor da hipótese Gaia, etc.

A biografia de Andrea Wulf é uma obra que faz jus à grandeza de Friedrich Wilhelm Heinrich Alexander von Humboldt (nome completo). Ele foi uma pessoa capaz de armazenar e difundir uma quantidade enorme de conhecimentos que assusta as pessoas hoje em dia, acostumadas à crescente especialização e à falta de uma visão holística.

Wulf mostra que a principal lição de Humboldt é que, na natureza, tudo está ligado. Todas as espécies estão interligadas no tecido da vida. Se destruirmos a biodiversidade do Planeta (ecocídio), também seremos destruídos (suicídio). O incrível é que Alexander von Humboldt percebeu isto há mais de 200 anos. Seu modo de viver e suas ideias servem de inspiração para todas as pessoas que passam por este mundo, não para se servir da natureza, mas para servir à teia da vida que perpassa a dinâmica da terra, do mar e do ar.

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/12/2017

Alexander von Humboldt e a invenção da natureza, artigo de José Eustáquio Diniz Alves, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 4/12/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/12/04/alexander-von-humboldt-e-invencao-da-natureza-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

 

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