A (in)Consciência Negra na Língua Portuguesa falada no Brasil, artigo de Paulo José Penalva Mancini

Dia da Consciência Negra 20 Novembro

A (in)Consciência Negra na Língua Portuguesa

Falada no Brasil

A língua é companheira do Império”

Antônio de Nebrija – gramático espanhol.

 

Paulo José Penalva Mancini

[EcoDebate] A porcentagem da população negra, mestiça ou afrodescendente no Brasil em 2014, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) é de 54%; ou seja, a maioria. Mas, aos assistirmos nossos programas de TV, ao vermos as composições de nossas representações políticas no Executivo e no Legislativo ou nos níveis mais altos dos dirigentes empresariais, essa maioria negra da população brasileira não se reflete. Pelo contrário, são minorias, muitas vezes apenas ‘para inglês ver’, ou seja, para demonstrar a ‘responsabilidade social’ da instituição, porque ‘não fica bem’ uma empresa de ‘tal porte não ter um funcionário negro’, né?

É provável que, da mesma forma que nossa maioria negra demográfica não se espelha numa sociedade historicamente dominada pelos senhores brancos e que sonhava (e produziu políticas públicas para isso) em ‘clarear’ nossa população até, como o “Omo”, transformá-la em um ‘branco total’, a presença de expressões, palavras, entonações e sintaxe das línguas e dos falares africanos, assim como expressões vinculadas à escravização dos negros, presentes na língua portuguesa falada no Brasil, seja muito maior do que nós sabemos ou percebemos.

Antonio de Nebrija, que cunhou a frase em epígrafe, – “A língua e companheira do Império”! – foi autor da primeira gramática da língua espanhola, publicada em 1492, que foi muito usada para a posterior normatização gramatical da língua portuguesa. Espanha e Portugal eram os dois impérios da época que junto com o Papa Alexandre VI, dividiram o mundo em dois, através do Tratado de Tordesilhas.

Uma das formas de classificação dos negros para comercialização estabelecida pelos escravocratas era exatamente em relação à língua. Os negros escravizados eram divididos em três grupos:

Negros Ladinos – (palavra derivada de ‘latino’) eram os negros vindos da África mas que já sabiam falar ou entender o português ou o espanhol (línguas latinas). Poderiam ser aproveitados nos afazeres domésticos pois compreendiam melhor as ordens dos patrões. Até hoje a palavra ‘ladino’- que usamos para designar aquele que é esperto, rápido no entendimento -repercute sua origem ligada ao comércio e tráfico de negros, inclusive com uma conotação um tanto pejorativa próxima de ‘malandro’ escravizado na África.

Negros Boçais – eram os negros vindos da África (recém-chegados ou não) que não falavam ou entendiam o português. Eram aproveitados nos serviços braçais da lavoura ou mineração, que não exigiam diálogo direto com seus senhores. A palavra ‘boçal’ ainda hoje é utilizada como adjetivo para designar pessoa ignorante, estúpida, bruta. Uma provável origem da palavra ‘boçal’ é da palavra italiana ‘bozzo’ que significa pedra bruta, grosseira, que também deve ter dado origem a palavra ‘bócio’, inchaço da glândula tireoide que, quando causada por hipotireoidismo, provoca, por vezes, lentidão de reflexos e depressão.

Crioulos – os negros já nascidos em terras americanas, expressão usada principalmente na América espanhola. No Brasil atual a usamos principalmente para referir-se a negros ou mulatos de forma genérica.

Para que os negros escravizados pudessem obedecer suas ordens era preciso que eles aprendessem a língua de seus senhores. Os impérios que, mundialmente, sucederam a Espanha e Portugal, respectivamente, Inglaterra e Estados Unidos, não fizeram muito diferente.

Atualmente já são muitas escolinhas infantis que ensinam inglês para nossas crianças. E a escola e os pais que ali colocam seus filhos, não estão ‘errados’. É uma questão mesmo, muitas vezes, de sobrevivência. São muitas as pessoas que, como eu mesmo, por não dominarem o idioma inglês, globalmente dominante, se sentem um pouco ‘boçais’, pois, a colonização é sobretudo mental; e é por isso que “a língua é companheira do Império”.

A seguir reproduzo um texto do Prof. Vitor Paiva encontrado em “http://www.hypeness.com.br/2016/09/9-expressoes-populares-com-origens-ligadas-a-escravidão

9 expressões populares com origens ligadas à escravidão; e você nem imaginava

por: Vitor Paiva

….Pois muitas das expressões que usamos no dia a dia, e que hoje comunicam somente seu sentido funcional – aquilo que atualmente a frase “quer dizer” – são originarias de um vergonhoso e longo período da história do Brasil: a escravidão.

Ainda que os sentidos originais tenham se diluído em algo trivial, essa origem permanece, como em toda palavra ou frase comum, feito um DNA marcando nossa própria história.

……….

O Brasil foi o país que mais recebeu escravos no mundo, e o último país independente do continente americano a abolir a escravidão. Conhecer o sentido original e a história de uma expressão é saber, afinal, o que é que estamos falando. Por isso, essa seleção de nove expressões populares criadas durante o período da escravidão no Brasil – uma época que faz parte de nosso passado, mas que possui ainda forte influência sobre nossa realidade atual.

1. Tem caroço nesse angu

A expressão, que significa que alguém estaria escondendo algo, tem sua origem em um truque realizado pelos escravos para melhor se alimentarem. Se muitas vezes o prato servido era composto exclusivamente de uma porção de angu de fubá, a escrava que lhes servia por vezes conseguia dar um jeito de esconder um pedaço de carne ou alguns torresmos embaixo do angu. A expressão nasceu do comentário de um ou outro escravo a respeito de certo prato que lhe parecesse suspeito.

2. A dar com pau

Pau” é um substantivo utilizado em algumas expressões brasileiras, e tem sua origem nos navios negreiros. Muitos negros capturados preferiam morrer a serem escravizados e, durante a travessia da África para o Brasil, faziam greve de fome. Para resolver a situação, foi criado então o “pau de comer”, uma espécie de colher que era enfiada na boca dessas pessoas aprisionadas por onde se jogava a comida (normalmente angi e sapa) até alimenta-los enfim. A população incorporou a expressão.

3. Disputar a nega

Essa expressão, que significa disputar mais uma partida de qualquer jogo para desempatá-lo, possui sua origem não só na escravidão, como também na misoginia e no estupro (o que espanta que até hoje seja utilizada com tanta naturalidade). Sua história é simples e intuitiva: quase sempre, quando os senhores do passado jogavam algum esporte ou jogo, o prêmio era uma escrava negra.

4. Nas coxas

A origem da expressão, que quer dizer algo mal feito, realizado sem capricho, é imprecisa, e não há consenso sobre se ela viria de fato do período da escravidão. De todo modo, a vertente mais popular afirma que a expressão viria do hábito dos escravos moldarem as telhas em suas coxas que, por possuírem tamanhos e formatos diferentes, acabavam irregulares e mal encaixadas.

5. Espírito de porco

Ainda que a origem da expressão venha da injusta má fama associada ao animal, por uma ideia de falta de higiene, sujeira e impureza, tal má fama é oriunda de princípios religiosos. Durante o período escravocrata, os escravos se recusavam e eram obrigados a matar o animal, para que servisse de alimento. A recusa vinha porque se acreditava que o espírito do animal abatido permaneceria no corpo de quem o matasse pelo resto de sua vida e, para complementar tal crença, a incrível semelhança que o choro do porco possui com um lamento humano tornava o ritual ainda mais assustador.

6. Para inglês ver

Essa expressão tem sua origem na escravidão, e também no mal hábito ainda atual brasileiro de aprovar leis que não “pegam” (que ninguém cumpre e nem é punido por isso). Em 1830, a Inglaterra exigiu que o Brasil criasse um esforço para acabar com o tráfico de escravos, e impusesse enfim leis que coibissem tal prática. O Brasil acatou a exigência inglesa,´[em 1831 o Regente Feijó promulgou a chamada Lei Feijó, que estabeleceu que todos negros que chegassem da África e aportassem em nosso litoral estariam livres. Nota PJPM] mas as autoridades daqui sabiam que tal lei simplesmente não seria cumprida; eram leis existentes somente em um papel, “para inglês ver”. ´[Apenas em 1850, através da Lei Eusébio Queirós, houve realmente o fim do tráfico de negros escravizados na África para o Brasil; e essa lei ‘pegou’. Nota PJPM]

7. Bucho cheio ou Encher o bucho

Expressão mais comuns em Minas, eram usadas tanto pelos escravos quanto por seus exploradores, evidentemente que com outra conotação da que se usa hoje. Atualmente significando estar bem alimentado, de barriga cheia, na época significavam a obrigação que os escravos que trabalhavam nas minas de ouro possuíam de preencher com ouro um buraco na parede, conhecido como “bucho”, para só então receber sua tigela de comida.

Escravos trabalhando em Minas, em rara foto da época

8. Meia tigela

A partir da expressão anterior, a história segue, dando origem a expressão “meia tigela”, que significa algo sem valor, medíocre, desimportante. Quando o escravo não conseguia preencher o “bucho” da mina com ouro, ele só recebia metade de uma tigela de comida. Muitas vezes, o escravo que com frequência não conseguia alcançar essa “meta” ganhava esse apelido. Tais hábitos não eram, porém, restritos às minas, e a punição retirando-se parte da comida era comum na maioria das obrigações dos escravos.

9. Lavei a égua

Por fim, a expressão “lavar a égua”, que quer dizer aproveitar, se dar bem, se redimir em algo, vem também da exploração do ouro, quando os escravos mais corajosos tentavam esconder algumas pepitas debaixo da crina do animal, ou esfregavam ouro em pó em sua pele. Depois pediam para lavar o animal e, com isso, recuperar o ouro escondido para, quem sabe, comprar sua própria liberdade. Os que eram descobertos, porém, poderiam ser açoitados até a morte.

Algumas palavras de origem africana no léxico brasileiro

São inúmeras as palavras da língua portuguesa falada e escrita no Brasil que tem sua origem nas línguas faladas pelos negros e negras africanas trazidos à força ao Brasil. As duas línguas (ou grupos linguísticos) africanas mais comuns no Brasil são o iourubá (mais difundido na Bahia) falada principalmente por populações vindas do norte da África, e o banto ou quimbundo no restante do país, falada por negros originários de regiões mais ao centro e sul da África, especialmente Angola.

Selecionei para esse texto apenas uma – só uma mesmo foi ‘sorteada’ – para ilustrar essa presença negra na nossa língua portuguesa. Para quem tiver interesse em conhecer outras pode verificar o site abaixo ou em outros na internet. htpp://raizdosambaemfoco.wordpress.com/2015/07/17/palavras-de-origem-africana-no-vocabulario-brasileiro/

  1. Amuado – adj. Derivado do substantivo amuo, mau humor passageiro, que torna a pessoa arredia, calada, ‘amuada’.
  2. Bunda – nádegas, no português de Portugal. Palavra de origem angolana;
  3. Cochilo – um breve sono ou dormida.
  4. Dengo – gesto de carinho;
  5. Embalar – acalentar, balançar, fazer adormecer;
  6. Farofa – mistura de farinha, água e azeite ou gordura;
  7. Ginga – bamboleio, balanço com o corpo;
  8. Hã – expressão de surpresa; espanto ou de admiração entre os Iorubás. Manifestação de incompreensão; não entendimento.
  9. Impala – espécie de antílope africano, que também denominou uma linha de carros da Chevrolet;
  10. Jagunço – capanga, cangaceiro, combatente nas hostes de Antonio Conselheiro na Guerra de Canudos;
  11. Lambuja – aquilo que se dá além do combinado;
  12. Maluco – endoidecido, mentalmente alterado;
  13. Nenê – criança pequena;
  14. Odara – bom, bonito, claro, luminosos;
  15. Patota – turma, grupo;
  16. Quitute – comida fina, muito gostosa, iguaria;
  17. Rumba – dança afro-cubana;
  18. Samba – estilo de música e dança afro-brasileira;
  19. Tagarela – pessoa que fala muito e à toa;
  20. Urucubaca – Azar, má-sorte;
  21. Vatapá – comida de origem africana à base de peixe ou galinha, camarão seco, azeite de dendê, etc;
  22. Inexistente;
  23. Xará – pessoa que tem o mesmo nome que outra;
  24. Inexistente;
  25. Zombar – tratar com descaso, gracejar, gozar.

Para finalizar acho fundamental expressar que para conhecermos e, principalmente, para entendermos o presente – e a presença ‘oculta’ dos séculos de escravização dos negros continua nas favelas, nos assassinatos, nas prisões, na ausência de representação política, na ausência na direção de grandes empresas e instituições – é fundamental conhecermos o passado que nossa língua, muitas vezes conserva, ainda que de forma às vezes pouco explícita. E é só conhecendo a realidade presente e a compreendendo que podemos transformá-la para melhor.

Grande é a dívida do Brasil com os imigrantes escravizados que vieram da África como mercadorias (tráfico) para o trabalho forçado que construiu riquezas na Europa e (um pouco) no próprio País. Tenho a intuição e convicção que só nos tornaremos uma Nação quando essa dívida for quitada, reconhecendo-nos como uma nação mestiça, cujas riquezas, fruto da relação do trabalho humano com nossa terra, prestem-se para dar bem-estar, alegria e segurança (em sentido amplo) a todo nosso povo e não para enriquecer apenas 1% dos mais ricos, como acontece no momento presente quando o Brasil sendo a sétima ou oitava maior economia do mundo, é um dos últimos, no conjunto dos países do Planeta, em distribuição de renda.

Esse presente que nos oprime e envergonha, é fruto de um passado ainda mais vergonhoso que não conseguimos ainda transmutar, transfigurar de forma plena. Para que a transformação aconteça é preciso acabar com a indiferença que os séculos de escravidão – e um cristianismo em sua maior parte de fachada e hipócrita – permitiram que a miséria e o trabalho forçado convivesse com a usura, a exploração desumana e violenta do trabalho de outros, que se se mantêm sob outras roupagens mais sutis, mas que continuam violentas e atrozes.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/11/2017

A (in)Consciência Negra na Língua Portuguesa falada no Brasil, artigo de Paulo José Penalva Mancini, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/11/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/11/20/inconsciencia-negra-na-lingua-portuguesa-falada-no-brasil-artigo-de-paulo-jose-penalva-mancini/.

 

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2 comentários em “A (in)Consciência Negra na Língua Portuguesa falada no Brasil, artigo de Paulo José Penalva Mancini

  1. Xará, parabéns pelo artigo.
    Em criança brinquei de negro fugido, depois mudado para polícia e ladrão.
    Lamento ter ido à casa de minha avó sem poder chupar manga no quintal. Minha mãe dizia que manga e leite fazia mal, origem da escravidão, em que as fazendas possuíam muitas mangueiras e os escravos (principalmente os que tiravam leite) eram alertados para não tomarem leite e chupar manga.
    Qual a origem do termo zumbi?

  2. Mas o Brasil é dos paises mais ricos do Mundo e com as maiores reservas de tudo. Porquê este estado de coisas? Portugal já lá não está há muitos séculos!

Comentários encerrados.

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