Cachaça transgênica? artigo de Antonio Silvio Hendges

 

 

[EcoDebate] No Brasil são cultivadas e pesquisadas muitas variedades da cana de açúcar – no site da Embrapa estão listadas 116 – com investimentos de várias instituições – Planalsucar, Ridesa, Copersucar, IAC, CTC, Embrapa – para o aprimoramento de diversas características desejáveis a esta cultura em relação aos solos, maturação, mecanização de colheitas, transporte, brotação das socas, fechamento das entrelinhas, suscetibilidades às doenças, sensibilidades aos herbicidas, florescimento, tolerância às secas e exigências de recursos hídricos, porcentagem de açúcares, produção de açúcar e álcool e também na produção da cachaça, bebida genuinamente brasileira fabricada há 500 anos com base nas diversas variedades adaptadas às diferentes regiões do país nos diversos períodos históricos.

Para a produção de cachaças, principalmente as de alambique, não são todas as variedades que são utilizáveis, sendo necessário o equilíbrio entre o nível de açúcar, os redutores, o PH que mede a acidez e alcalinidade e outros fatores que influenciam diretamente na qualidade final. As principais variedades utilizadas são SP 765418, SP 791011, SP 801842, RB 72454 e RB 765418, mas os plantios têm características distintas de acordo com as regiões e os diferentes produtores. Por exemplo, em Salinas/MG, a principal variedade cultivada é a hibrida SP 765418. No Rio Grande do Sul são cultivadas variedades produzidas quase que exclusivamente por agricultores familiares e para a produção de cachaças, a maioria dos produtores utiliza variedades crioulas, ou seja, com origem nas próprias regiões e resultados de cruzamentos e aprimoramentos genéticos realizados pelos próprios agricultores em cultivos orgânicos adequados aos solos gaúchos.

As variedades foram desenvolvidas através de melhoramentos genéticos por cruzamentos e hibridização aprimorando as diversas características importantes para a produção do açúcar, do melado e da cachaça, principais produtos do cultivo da cana de açúcar. A Embrapa orienta os produtores a cultivarem mais de uma variedade, prevenindo desta forma doenças e parasitas específicos.

Recentemente, A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio aprovou o plantio de variedades de cana de açúcar geneticamente modificadas, tornando o Brasil o primeiro país a permitir este cultivo. A inserção de uma toxina que impede o desenvolvimento da lagarta Diatraea saccharalis conhecida como broca da cana, considerada a principal praga desta cultura, pretende eliminar o desenvolvimento deste parasita. A técnica é a mesma utilizada em outras culturas como o milho, a soja e o algodão. No entanto, há uma diferença acentuada, pois a toxina inserida no gene cry 1AB é vinte vezes mais venenosa de acordo com informações dos fabricantes. Também inexistiram discussões científicas e debates nacionais, inclusive com os produtores e consumidores.

Os representantes do Ministério do Meio Ambiente e da agricultura familiar votaram contra a liberação e apontaram falta de estudos dos impactos ambientais e na saúde humana como os motivos da contrariedade. Por exemplo, quais os efeitos tóxicos sobre outros organismos vivos, sobre os animais e os seres humanos que consumirem a cana in natura? E sobre os micros organismos nos solos? E sobre as variedades não modificadas geneticamente, quais os efeitos dos cruzamentos naturais com estas variedades transgênicas? E sobre os cultivos orgânicos utilizados na produção de cachaças? A cana de açúcar é uma espécie alógama de fecundação cruzada, significando que em caso de contato, as plantas convencionais serão contaminadas geneticamente. Portanto, estes cruzamentos podem levar ao desaparecimento de variedades orgânicas e crioulas é até inviabilizarem a produção de açúcar, melado e cachaças que buscam a diferenciação através de produtos de qualidade, sem a utilização de tecnologias agressivas à saúde e ao meio ambiente.

É indispensável que os produtores que dependem da produção orgânica e que utilizam variedades crioulas da cana de açúcar fiquem atentos e iniciem um debate sério com suas organizações representativas e inclusive com os consumidores dos seus produtos, pois a introdução de variedades geneticamente modificadas pode contaminar suas plantações e inviabilizar estes cultivos, bastando para isto a proximidade dos plantios ou a introdução involuntária de algumas plantas nos cultivos.

Cachaça transgênica não!

Referências:

– Cana de açúcar – Variedades. Agência Embrapa de Informação tecnológica. Disponível em: http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/cana-de-acucar/arvore/CONTAG01_42_1110200717570.html. Acesso em: 09 jul. 2017.

– Cana de açúcar transgênica: quanto é uma ameaça à saúde pública e ao meio ambiente? Nagib Nassar. Disponível em: https://www.ecodebate.com.br/2017/07/07/cana-de-acucar-transgenica-quanto-e-uma-ameaca-saude-publica-e-ao-meio-ambiente-artigo-de-nagib-nassar/. Acesso em 09 jul. 2017.

– Tipos de cana de açúcar utilizados na cachaça. Procuradores da Cachaça. Disponível em: https://procuradoresdacachaca.wordpress.com/2014/06/05/tipos-de-cana-de-acucar-usados-na-cachaca/. Acesso em: 11 jul. 2017.

 

Antonio Silvio Hendges, professor de biologia, pós graduação em auditorias ambientais, assessoria e consultoria em educação ambiental – www.cenatecbrasil.blogspo.com.br.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/07/2017

"Cachaça transgênica? artigo de Antonio Silvio Hendges," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/07/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/07/17/cachaca-transgenica-artigo-de-antonio-silvio-hendges/.

 

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3 comentários em “Cachaça transgênica? artigo de Antonio Silvio Hendges

  1. Sem contar o desenvolvimento de resistência .A Diatraea não vai ser eliminada e possivelmente vai se adaptar formando indivíduos mais resistentes e serão desenvolvidas novas variedades transgênicas com novas modificações genéticas e sabe la onde vamos para com isso.Desastre a vista.
    Podemos ser contaminados por estas toxinas?

  2. Caro colega.
    O desenvolvimento da variedade transgênica de cana expressando a proteína Cry1Ab atendeu a uma demanda dos produtores e foi discutida, sim, e longamente, com produtores e compradores. Não tem sentido botar um produto no mercado se não se faz este dever de casa básico.
    Quanto à toxina, ela é conhecidíssima dos agricultores, inclusive os orgânicos, que a empregam na forma de cristais de Bacillus thuringiensis. E ela não é mais tóxica que a do milho, apenas mais eficiente contra a Diatrea do que contra a Spodoptera.
    Por fim, será que a cachaça será transgênica? As únicas coisas diferentes entre a cana GM e a convencional são um pequeno trecho de DNA e a proteína Cry1Ab. Nenhuma destas coisas está presente na cachaça, mesmo em mínimas concentrações. Assim como o açúcar derivado desta cana é idêntico ao que hoje consumimos, também a cachaça. Não há, no duro, cachaça transgênica alguma, ainda que nossa lei de rotulagem possa dizer que sim.. os legisladores, contudo, não são da área industrial nem biológica e muitas vezes são motivados por outras forças que não a ciência… o que é natural.
    Para dirimir dúvidas, sugiro a leitura de http://racismoambiental.net.br/2017/07/12/uma-resposta-oito-vozes-em-defesa-do-ctnbio-e-dos-transgenicos/

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