Papel da organização social e ambiental nos assentamentos rurais, Parte 1/3, artigo de Roberto Naime

 

 

[EcoDebate] Álvaro Antônio Xavier de Andrade, Diego Camelo Moreira e Roseni Aparecida de Moura realizam abordagem sobre o papel da organização social e ambiental nos assentamentos rurais objetivando dissertar sobre a importância da organização social e ambiental nos assentamentos rurais. Sua relação com o homem e o espaço; as definições de organização social com enfoque na agricultura, e os principais problemas ambientais.

Ao longo da sua existência, o homem passou a desenvolver atividades econômicas sem a devida preocupação ambiental. O importante era gerar recursos financeiros. Nos últimos anos, a preocupação com o meio ambiente passou a fazer parte de discussões em todo o mundo, pois os impactos causados pelo homem vêm tomando proporções irreparáveis.

O grande desafio da humanidade, assim, passou a ser compatibilizar e conciliar as atividades econômicas com a preservação ambiental. A convivência harmônica entre elas vem sendo considerada essencial para a sobrevivência humana.

A forma com que ocorre a organização do arranjo social de um assentamento e as diretrizes estabelecidas para o relacionamento ambiental, definirão em boa parte as resultantes que serão determinadas.

Os assentamentos rurais representam uma possibilidade de melhoria nas condições de vida de agricultores que, ao longo de décadas no Brasil, sofreram com os processos de exclusão no campo e demais injustiças sociais. Com o acesso à terra, surgem novas unidades de produção agrícolas e a oportunidade da manutenção, com dignidade, dos estilos de vida desses agricultores.

A preocupação com os modos de produção e o meio ambiente também fazem parte da realidade dos assentamentos. A busca por um equilíbrio entre o aumento da produtividade e a redução dos impactos à natureza pode ser alcançada por meio de estratégias de trabalho em conjunto e da organização dos processos produtivos.

Existe determinação do sistema formado pelo relacionamento entre o homem e a natureza. Os processos de produção econômica são frutos dessa relação, na medida em que a natureza oferece matérias-primas e o homem, utilizando do seu trabalho, transforma essa matéria em objetos úteis que facilitam suas atividades.

Os projetos de assentamentos são modificações no espaço, a partir de um novo relacionamento entre homem e a natureza, de acordo com o modo de ocupação diferenciada dos espaços rurais. Os assentamentos consolidam a luta pela terra, uma vez que são implantados em terras ociosos ou improdutivas, modificando a realidade territorial e sua paisagem, com a criação de casas, cercas, plantações e os equipamentos coletivos, escolas, creches e posto de saúde, entre outros.

Hoje, é disseminada a concepção do conceito de “paisagem” como expressão do agenciamento dinâmico e superficial dos conjuntos territoriais. Ou seja, não é mais apenas o solo a face mais visível do meio físico, e sim a paisagem integradora do solo com os demais fatores, a expressão conjunta das interações compreendidas ou ainda difusas.

Este agrupamento, capaz de expressar homogeneidades ou realçar diferenciações físicas espaciais e temporais no meio terrestre, origina a conceituação de “geobiossistemas” como unidades territoriais, geográficas ou cartográficas de mesma paisagem, definidas por características estatísticas do meio natural físico, químico ou biológico, hierarquizadas por um mesmo sistema de relações.

A conquista dos assentamentos representa algo para além da simples concessão de terras. Os assentamentos rurais representam uma oportunidade para a reprodução de modos de vida e de produção de agricultores.

A organização social pode ser entendida como uma atividade em conjunto na busca de alcançar interesses em comum. A origem dos assentamentos rurais é um exemplo de organização social. Agricultores sem terra se organizam em busca de um objetivo comum, que é o acesso à terra.

A grande maioria dos assentamentos rurais no Brasil é subdividida por lotes individuais. Essa lógica de estruturação cria certo isolamento entre as famílias, ficando cada uma delas vinculada apenas às atividades produtivas referentes a seus lotes.

A falta de articulação entre os assentados é um dos entraves para soluções de problemas, como ausência de casas, falta energia elétrica e de água, entre outros. O trabalho organizado e em conjunto pode atuar como facilitador de soluções para esses problemas.

Os solos, dentro do contexto de paisagem são um recurso natural, responsável pela sustentação da flora e da fauna no meio biológico e pelas interações com a agricultura, a pecuária, o armazenamento de água, as obras de infraestrutura e edificações humanas. Senão for manejado dentro de uma mesma lógica que transcende a concepção de “lote individual” pode gerar grandes problemas.

De toda forma, o processo de organização social e econômica das famílias assentadas deve partir da identificação de interesses e oportunidades demandadas pelas próprias famílias, possibilitando à comunidade, dentro de um processo de reflexão, determinar o destino do novo espaço.

A organização coletiva deve ser trabalhada como princípio e meio para uma melhor convivência social, além de ser um importante facilitador na viabilidade social e econômica nos projetos de reforma agrária. Nesse sentido, a constituição da associação faz-se necessária até mesmo para facilitar o processo de negociação juntos a órgãos governamentais, tendo em vista toda a infraestrutura que deverá ser implantada na paisagem.

Nesse sentido, a ação cooperativa e associativa envolve primeiramente a mobilização e a organização das pessoas para agirem coletivamente. Esta mobilização e organização requer, primeiramente, a formação das pessoas como cooperadas. Vale ressaltar que a formação de cooperadores e a sua organização numa associação é um processo educativo que se dá muitas vezes de forma lenta.

A associação é uma sociedade civil, sem fins lucrativos, na qual vários indivíduos se organizam de forma democrática em defesa dos seus interesses.

E a cooperativa é uma associação de pessoas que se unem voluntariamente, baseada em valores de ajuda mútua, solidariedade, democracia e participação para satisfazer as necessidades econômicas, sociais e culturais comuns dos seus membros.

Estas realidades determinarão toda diferença entre os assentamentos e para variar dependem de uma permanente gestão e governança que ainda está ausente nas principais estruturas públicas, tanto quanto se depreende.

Referências:

Formas de garantir água nas secas/ Embrapa Informação Tecnológica; Embrapa Semi-Árido. – Brasilia, DF: Embrapa Informação Tecnológica, 2006. 49p.: Il. – (ABC da Agricultura Familiar, 13).

GONÇALVES, Carlos Walter Porto. Os (des)caminhos do meio ambiente/ Carlos Walter Porto Gonçalves, 2ª Ed., São Paulo: Contexto, 1990.

PANACHUKI, Elói. Infiltração de água no solo e erosão hídrica, sob chuva simulada, em sistema de integração agricultura-pecuária. (dissertação) Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Campus de Dourados Programa de Pós-graduação em Agronomia, 2003.

Preservação e uso da Caatinga/ Embrapa Informação Tecnológica; Embrapa Semiárido. – Brasilia, DF: Embrapa Informação Tecnológica, 2007. 39p.: Il. – (ABC da Agricultura Familiar, 16).

RIBEIRO, Manoel Bomfim. A Potencialidade do Semiárido Brasileiro. Fubrás 2007.

VICENZI, Edna Hoppe Proposta de manejo sustentável na bovinocultura: “O caso da Fazenda Confidência”, Cotejipe/BA/ Edna Hoppe Vicenzi – Barreiras: UNYAHNA, 2004. Monografia (Pós-Graduação em Gestão Ambiental)

https://www2.cead.ufv.br/espacoProdutor/scripts/verArtigo.php?codigo=31&acao=exibir

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/07/2017

"Papel da organização social e ambiental nos assentamentos rurais, Parte 1/3, artigo de Roberto Naime," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/07/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/07/11/papel-da-organizacao-social-e-ambiental-nos-assentamentos-rurais-parte-13-artigo-de-roberto-naime/.

 

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