Ainda sobre as indefinições da geração de energia no Nordeste brasileiro, artigo de João Suassuna

 

 

Célio Bermann, ao escrever o capítulo Impasses e controvérsias da hidreletricidade, no Dossiê de Energia da USP (vol 21 nº 59 jan/abr 2007), o qual tratou da complementação da motorização do sistema elétrico do complexo Chesf, mencionou o seguinte: “A Usina de Xingó foi projetada para abrigar dez turbinas de 500 MW, de forma a possuir uma capacidade instalada total de 5.000 MW. Entretanto, atualmente apenas seis turbinas estão instaladas. Trata-se, portanto, de 2.000 MW que poderiam ser acrescentados se as outras quatro turbinas previstas fossem instaladas. A Usina de Itaparica também apresenta condições semelhantes. Projetada inicialmente com dez turbinas de 250 MW, ela conta atualmente com apenas seis turbinas, perfazendo 1.500 MW. Outros 1.000 MW poderiam ser acrescentados se as turbinas fossem instaladas”. Berman ainda relata que “A Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) alega que houve superdimensionamento nos dois projetos e que não existe água suficiente para efetivar a complementação da motorização de ambas”. Cheguei a relatar esse fato em um artigo publicado no Repórter Brasil, em 2007.

Para quem conhece essas usinas de geração da Chesf, poderá comprovar ao que Berman se referiu. Em sua estrutura física, a represa de Xingó, por exemplo, possui 6 tubulações, por onde passam os volumes necessários ao atendimento de seu sistema gerador, existindo, também, um espaço com 4 estruturas circulares, na parede da represa, para, em caso de possibilidade, haver a instalação da tubulação de alimentação para mais quatro unidades geradoras. Uma averiguação em Itaparica, também vai se chegar à mesma conclusão. Ambas as usinas operam com 6 máquinas e têm espaço para a colocação de mais quatro. A razão de não se concluir a motorização dessas essas usinas é uma só: a falta de volumes, no rio, para o atendimento dessas necessidades.

Fazendo agora uma comparação da situação de penúria hídrica existente no setor de geração do complexo da Chesf, motivada por uma seca de 6 anos consecutivos na bacia do São Francisco e ausência quase que total na gestão dos recursos hídricos locais, com as dificuldades de a Companhia continuar honrando com o seu propósito de gerar a energia necessária ao desenvolvimento da região, chega-se a uma situação no mínimo curiosa: a Agência Nacional de Águas (ANA) e a Chesf foram obrigadas  a desligarem 5 unidades geradoras em Xingó (a hidrelétrica opera, atualmente, com apenas uma única unidade), por falta de água no Velho Chico, assunto que mereceu um artigo de nossa parte, no mês passado, o qual foi editado, também, no EcoDebate. Portanto, fica evidente que as dificuldades na geração de energia do Nordeste apresentaram agravamento de cenário.

Diante de tudo isso, o que não aceitamos, em absoluto, é essa insistência/vontade do poder público na construção de mais duas unidades geradoras (Pedra Branca e Riacho Seco) na cascata entre Sobradinho e Xingó, exatamente em localidades onde o Rio São Francisco está completamente desidratado e, portanto, deficitário em termos volumétricos, para o atendimento das demandas energéticas da região. Ora, se Xingó foi projetada para funcionar com 10 turbinas; existem 6 em regime de operação, e 4 não foram instaladas por falta de volumes no rio, como justificar a construção de mais duas hidrelétricas no São Francisco, estando a usina de Xingó, no atual período de estiagem, operando, em regime emergencial, com apenas uma única máquina, havendo a necessidade do desligamento das demais por falta de volumes no rio? É um assunto que a sociedade precisa estar envolvida com todo interesse e esmero, pois é ela – sociedade – que irá participar das consequências de tudo isso, dando essas manobras certo ou não!     

Sobre o assunto

As indefinições da geração de energia no Nordeste brasileiro

http://reporterbrasil.org.br/2007/06/as-indefinicoes-da-geracao-de-energia-no-nordeste-brasileiro/

A hidrelétrica de Riacho Seco faz jus ao nome que tem, artigo de João Suassuna

https://www.ecodebate.com.br/2013/11/13/a-hidreletrica-de-riacho-seco-faz-jus-ao-nome-que-tem-artigo-de-joao-suassuna/

A propósito da sangria (vertimento) do reservatório da hidrelétrica de Xingó, artigo de João Suassuna

http://www.suassuna.net.br/2017/06/a-proposito-da-sangria-vertimentodo.html

João Suassuna – Eng° Agrônomo e Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco

Artigo enviado pelo Autor e originalmente publicado em http://sbpcpe.org/index.php/noticias/406-jornal-eletronico-da-sbpc-pe-12-ano-2#5

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/07/2017

Ainda sobre as indefinições da geração de energia no Nordeste brasileiro, artigo de João Suassuna, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 6/07/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/07/06/ainda-sobre-as-indefinicoes-da-geracao-de-energia-no-nordeste-brasileiro-artigo-de-joao-suassuna/.

 

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Um comentário em “Ainda sobre as indefinições da geração de energia no Nordeste brasileiro, artigo de João Suassuna

  1. João Suassuna traz informações interessantes sobre o sistema elétrico do complexo Chesf: A Usina de Xingó tem capacidade de geração de 5.000 MW, mas está trabalhando com 2.000 MW e a Usina de Itaparica tem capacidade de geração de 1.500 MW, mas está trabalhando com 500 W. Diante disso, ele se manifesta de forma contrária à construção das usinas de Pedra Branca e Riacho Seco, a se localizarem entre Sobradinho e Xingó.
    A instalação de uma usina hidrelétrica depende de duas coisas: queda e volume de água. Quanto ao volume de água, uma usina não interfere na outra. O que precisa ser analisado é se Pedra Branca e Riacho Seco interferirão na altura de queda na usina de Xingó, pois, caso não interfiram, não vejo razão para evitar a construção dessas usinas, visto que não terão reservatórios com volume que possam afetar o Rio São Francisco.

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