Uma ponte entre o Xintoísmo e a Educação Ambiental, artigo de Rachel Munhoz

Uma ponte entre o Xintoísmo e a Educação Ambiental

Discursos aproximados entre autores/as como Isabel Cristina de Moura Carvalho,, Carlos F. Loureiro, Leonardo Boff e Motohisa Yamakage – 79º Grande Mestre de Xintoísmo

Rachel Munhoz1

[EcoDebate] Quando mergulhamos em mares desconhecidos, não entramos na água totalmente nus, mas sim carregando conosco toda a nossa bagagem: memórias, a maneira como vemos o mundo, posição política, nossos desejos e anseios, entre outras coisas que nos constituem. É com este pensamento que pretendo compartilhar um pouco sobre o meu mergulho no Xintoísmo, em paralelo ao meu ingresso no Mestrado em Educação Ambiental no Programa de Pós Graduação da Universidade Federal do Rio Grande – um campo do conhecimento sobre o qual pouco sabia antes de adentrar aos prédios da FURG e por meio do qual tenho olhado para tudo com o que me envolvo desde então.

Para iniciarmos a conversa, vale dizer que o Xintoísmo é uma tradição espiritual japonesa que possui diversas correntes entre as famílias que foram passando seus conhecimentos de geração em geração. O Xintoísmo de que falo aqui é o promovido pela família Yamakage, por meio de Motohisa Yamakage – 79º Grande Mestre, que escreveu o livro “A essência do Xintoísmo”, traduzido no Brasil por Wagner Bull, por meio da editora Pensamento, em 2010. A partir desta leitura, além de outras flutuantes, é que puder traçar um paralelo de tais conhecimentos com os valores da Educação Ambiental Crítica sobre a qual falam os/as autores/as que apresento como base teórica, a exemplo de Isabel Cristina de Moura Carvalho, Carlos F. Loureiro e Leonardo Boff. Por E.A. Crítica, quero dizer aquela capaz de contestar a sociedade consumista e materialista, “tendo como horizonte utópico uma vida livre das normalizações e repressões sociais e em harmonia com a natureza” (CARVALHO, 2004).

Autonomia

O primeiro ponto que me levou a construir uma ponte entre os dois discursos foi o fato de que aos/às adeptos/as do Xintoísmo Yamakage é recomendado que se encontre seu próprio caminho xintoísta, que esteja de acordo com as suas aspirações, o que considera positivo para a sua vida e, principalmente, baseado no seu ambiente local. Nesse sentido, não possui nenhum livro sagrado, doutrinas, preceitos ou um/a fundador/a à ser seguido/a. A primeira vista, confesso que fiquei um pouco confusa com a disponibilidade dos conhecimentos sem um/a guia, por outro lado, conforme os estudos se davam, tanto espiritual como profissional/filosófico, mais autonomia sentia para buscar um caminho espiritual que pudesse ser inserido na minha rotina de maneira ativa e consciente, contrário à passividade intelectual.

Nessa linha de pensamento, podemos perceber uma valorização do ambiente do sujeito, de seus saberes e sua experiência como uma importante ferramenta de diálogo entre as dimensões espirituais e as práticas cotidianas. Princípios como estes que, também são encontrados na Educação Ambiental Crítica, nos fazem refletir sobre a forma como nos relacionamos com o ensino-aprendizagem que pode ocorrer em diferentes dimensões da nossa vida. Assim, a autonomia é fundamental, tornando possível criar as nossas próprias representações de mundo e nos enxergarmos como sujeitos da história. Tal ideia também encontrei nas palavras de Carlos F. Loureiro, quando resolvi não apenas interpretar as palavras de Yamakage ou conhecer um pouco da sua realidade, como também fazer uma tentativa de “compreender e teorizar na atividade humana, ampliar a consciência” (LOUREIRO, 2012, p.118).

Natureza

A globalização já nos fabricou uma determinada imagem de que os/as japoneses/as podem ser bastante ligados/as à natureza, a exemplo da admiração pelo exótico, quando são estigmatizados/as como excêntricos/as sobre a sua mística diante do mundo moderno (vide medicina natural, entre outros). Assim, não é surpresa para ninguém que eles/as sejam capazes de manter uma relação mais estreita com a natureza, se tratando de plantas e animais. Porém, essa visão pode ser aquela que remete à natureza intocada, quando o/a ser humano/a é visto/a como um/a invasor/a e que a natureza deve permanecer sagrada e separada desta espécie – que compreende homens e mulheres. Nesta concepção, considerando a natureza como um fenômeno estritamente biológico, em oposição ao mundo humano (CARVALHO, 2004). No entanto, basta continuar seguindo pelas páginas do livro de Yamakage para perceber que o discurso trata-se de uma profunda conexão entre os animais, as plantas e os/as seres humanos/as. Compreende-se o quanto é importante para a crise ecológica que exista esse entendimento, resultando no amor e no respeito necessários para combater o materialismo excessivo e a objetificação/coisificação da natureza – que envolve todos os tipos de natureza.

Essa passagem do livro coincidiu muito bem com a leitura que também fazia pela obra de Leonardo Boff. Em seu livro “Ecologia – Grito da Terra, grito dos pobres”, ele exemplifica essa ideia de natureza com o trecho: “Quando um astrônomo dirige o telescópio para as estrelas, é o próprio universo que olha para si mesmo” (BOFF, 1999, p.186). Tais palavras foram marcantes para a compreensão do que me estava sendo proposto, tanto em meus estudos sobre Educação Ambiental, como no Xintoísmo: eu sou a natureza e me relaciono com a natureza em diferentes níveis, naturais, sociais e culturais. E esse sentimento, que também acredito poder ser visto como algo místico, provoca uma noção maior de cuidado comigo mesma, com os outros/as e onde vivo, isto é, com a natureza.

Participação democrática

Quando Motohisa Yamakage afirma ser o Xintoísmo uma religião que evoluiu a partir da vida e das experiências do povo japonês, podemos entender o quanto, para que isso fosse possível, foi necessária uma grande participação ativa dos homens e mulheres que viveram nas ilhas nipônicas através dos séculos. Para o autor, apesar da existência de um sistema na religião, esse sistema não tem, necessariamente “uma explicação absoluta, mas pode ser explicado por mais de uma perspectiva”. Afinal, as pessoas não vivenciam as experiências da mesma maneira e, por este motivo, a adaptação da espiritualidade para a sua forma de viver é o ideal – vale dizer que o Xintoísmo acredita firmemente no potencial do ser humano para o bem. Neste acordo, se a pessoa decidir que certos rituais podem melhorar o seu bem estar com relação ao divino, encontrar uma maneira consciente de realizar cada prática e puder adaptá-la ao seu modo de vida, em sua época, pode-se dizer um/a praticante de Xintoísmo.

Os santuários xintoístas, de diferentes linhas, inclusive no Brasil, possuem uma rotina, sacerdotes e sacerdotisas, rituais, celebrações e uma cosmogonia. Porém, não se encontra o mesmo discurso, caso frequente templos diferentes. O mesmo foi dito pelo dr. Jean Herbert. intérprete da Organização das Nações Unidas em New York, em seu livro “Shintô: At the Fountainhead of Japan. Isso porque as linhas do Xintoísmo acomodaram trocas entre culturas e absorveram novos valores sociais dos lugares onde se encontram instaladas, a fim de evoluir com a sociedade. Para Yamakage, “acreditar que apenas a linguagem e a forma de dois milênios atrás são válidas (…) é puro dogmatismo”.

Quando busco conhecimentos que me sejam válidos na espiritualidade, a ideia não é me deixar oprimir ainda mais do que já acontece em várias dimensões da vida com a maioria de nós, como por gênero, cor, classe social, entre outras categorias que são capazes de nos deixar afetar ainda mais pelas crises ambientais. Por isso, quando aproximo tais concepções de mundo é com a intenção de colaborar com ideias que promovem empoderamento por meio de vozes que penso ser preciso destacar, repensar e reinventar para evoluir cada vez mais. Enfim, o discurso de alguns/mas pesquisadores/as do campo de Educação Ambiental acaba bastante próximo ao dos/as xintoístas, ao menos aqueles que vêem a autonomia como um ponto alto para a prática da sua religião. Viver uma espiritualidade que não ensina nem a salvação e nem o pecado tem sido como buscar uma Educação Ambiental Crítica: faz refletir sobre nossos contextos de vida e nossa postura no mundo.

1 Jornalista, mestranda em Educação Ambiental pela Universidade Federal do Rio Grande PPGEA/FURG.

portfoliorachelmunhoz.blogspot.com.br/

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/05/2017

"Uma ponte entre o Xintoísmo e a Educação Ambiental, artigo de Rachel Munhoz," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/05/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/05/30/uma-ponte-entre-o-xintoismo-e-educacao-ambiental-artigo-de-rachel-munhoz/.

 

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