As cidades e o desequilíbrio hídrico, artigo de Roberto Naime

 

 

[EcoDebate] Frequentemente se imaginava que a imagem de populações imersas em resíduos sólidos pudessem representar cenários cujo impacto catastrófico pudesse trazer modificações paradigmáticas na conservação ambiental. No entanto, é a escassez de água, e secundariamente as dificuldades nas disponibilidades energéticas, em parte decorrente das dificuldades hídricas, que vem alterando estes padrões. A natureza parece ser irônica para reagir as agressões antrópicas.

O caminho que está sendo percorrido, se aproxima de uma antiga previsão, que registrava que a civilização humana corria o risco de afogar cidades sob a água salgada dos mares em regime de transgressão, em cenário de carência de água doce potabilizada. Esta realidade se contextualiza com as mudanças climáticas que geram o aquecimento global, com o consequente derretimento de geleiras e elevação dos níveis dos mares. É como o náufrago que se observa cercado de água salobra e sem disponibilidade de água potável para sua dessedentação.

Relatórios da Organização das Nações Unidas registram o diagnóstico de que mais de 1 bilhão de pessoas não tem acesso a quantidades mínimas aceitáveis de água potável, que gere situação de segurança hídrica. O recente episódio de baixa pluviosidade na região sudeste, a mais rica do país, começa a fazer perceber que não é o volume ou a natureza das obras que pode solucionar a situação, e sim uma radical mudança de atitude na compatibilização e harmonização com os meios físico e biológico do planeta, entendido como a “nave” que todos compartilhamos no decurso de nossa vida em comum.

A Organização das Nações Unidas prevê que se nada mudar nos padrões de consumo e na forma geral dos indivíduos se relacionarem com o planeta, num horizonte próximo cerca de 5,5 bilhões de pessoas poderão não ter acesso aos recursos hídricos, tão fundamentais para a vida, correspondendo a 2/3 do total da população. E num horizonte maior, se diagnostica que menos de ¼ da humanidade vai dispor de água potável para satisfazer suas necessidades básicas de vida.

A escassez de água não é problemática apenas para dessedentação. Também gera dificuldades na manutenção das condições sanitárias e facilita a propagação de doenças, como a diarreia e a malária, que são responsáveis por mais de 2 milhões de óbitos em indivíduos humanos a todo ano, nas regiões mais vulnerabilizadas da terra.

A água doce, que pode ser potabilizada é um bem raro. Já se produz água potabilizada a partir de água dessanilizada, mas a um custo energético ainda bastante elevado. Cerca de 97% das águas que cobrem a superfície da terra são salinizadas. Dos restantes 3%, a maior parte está em geleiras ou calotas polares. Menos de 1% está disponibilizada, predominando as águas subterrâneas, armazenadas em aquíferos. A água disponível em rios, lagos e lençóis freáticos totaliza menos de 0,25% da água total do planeta.

Como se observa são muito exíguas as disponibilidades de água doce no planeta, e ainda devem ser divididas com os demais membros da fauna e com todo reino vegetal. É claro que as fontes não deveriam se esgotar pela manutenção permanente dos ciclos hidrológicos. Mas a velocidade de recomposição dos aquíferos superficiais tem mostrado harmonização em ritmo descompassado com a exploração dos recursos hídricos pelas atividades antrópicas. Em particular, quando se agregam as modificações geradas pelas mudanças climáticas.

Evidentemente se apropriar das realidades exibidas por este conjunto multifatorial, é tarefa que demanda certa complexidade sistêmica e não é realizada de forma intuitiva. Mas as consequências são as mesmas e geram conscientização em toda sociedade. É preciso mudar a relação com a água e os demais bens naturais buscando reestabelecer as condições mínimas de equilíbrio.

Especialistas assinalam que a crise hídrica que atinge o estado de São Paulo, decorre de desequilíbrio já de alguns anos na pluviosidade média, não acompanhando a demanda crescente de uso, e até de desperdício. No entanto, esta anomalia climática não é o único fator. Também contribuem fatores de infraestrutura, que não significam necessariamente ausência de planejamento, e sim dificuldades impostas pela burocratização e estanqueidade dos mecanismos estatais de operação. Onde as crescentes complexidades não são acompanhadas por níveis equivalentes de evolução nos estágios de gestão, governança e conformidade.

Ou seja, legislação ambiental, cada vez mais complexa e abrangente, convive com órgãos aplicadores desaparelhados e ineficientes que não conseguem se coordenar ou se comunicar eficientemente entre si. Evidentemente, as dificuldades de execução se tornam manifestas e os resultados sociais extremamente ineficientes, retratando as dificuldades das operações, que se perdem em objetivos sistêmicos parciais, não conseguindo estabelecer metas de consecução conjuntas.

Se o sistema social padecesse da mesma moléstia, as empresas estariam comprometidas e os níveis de empregabilidade que garantem o funcionamento virtuoso da sociedade, com incrementos na geração de impostos e a garantia da manutenção de um estado com condições de intervir na sociedade de maneira eficiente, atendendo às demandas sociais, estaria comprometido. Quando eventos naturais se associam a dificuldades de articulação para a consecução de objetivos mais amplos, não deixa de ser em parte, algo análogo, o que está ocorrendo. Com consequências sociais e coletivas de resultados inestimáveis.

A cultura de vincular a importância do bem ao valor desembolsado na sua aquisição, dificulta a valoração adequada do bem água. Não se está defendendo o aumento desmesurado dos preços da água. Mas se a cultura popular associa preço ao valor do bem e não à conscientização de sua função social e ecossistêmica, então está estabelecida uma situação de extrema dificuldade e complexidade. Se a preciosidade da água for repassada aos custos de sua disponibilização e forem criadas dificuldades para os hábitos necessários de natureza sanitária de todos os indivíduos, então os resultados podem ser mais desastrosos e medidos nas portas dos carentes serviços de saúde do país.

Mas o maior erro, talvez, seja permitir que a situação atinja níveis próximos à situação de catástrofe para que as medidas reguladoras sejam tomadas. Em questões ambientais e naturais em geral, é consensual a apreciação de que é preferível prevenir do que remediar. Tanto pelos custos gerados quanto pelo pânico produzido. A prevenção, no mínimo, gera melhores condições de administração geral das perspectivas e projeções dos indivíduos, em caldeirões de interesses e necessidades, que são de difícil avaliação, ainda mais em cenários políticos ou meramente econômicos, que na maioria das vezes são absolutamente intangíveis.

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/05/2017

"As cidades e o desequilíbrio hídrico, artigo de Roberto Naime," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/05/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/05/16/cidades-e-o-desequilibrio-hidrico-artigo-de-roberto-naime/.

 

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Um comentário em “As cidades e o desequilíbrio hídrico, artigo de Roberto Naime

  1. Dr. Roberto Naime, há uma proposta de se cobrar pedágio urbano pelos motoristas que estão desacompanhados em seus veículos. Proposta semelhante pode ser feita com relação à água, pois a vinculação da importância do bem ao valor desembolsado na sua aquisição é um método de forçar a economia.
    Caso você deseje reproduzir este artigo em outro veículo de comunicação, sugiro acrescentar algo que estimule o reúso da água. Se a água é usada e reusada, o risco de faltar é menor.

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