Raça, gênero e classe: Triplos obstáculos sociais marcam a trajetória das mulheres negras

 

Raça, gênero e classe são os obstáculos que as mulheres negras enfrentam no Brasil desde a época da abolição

Por Carolina Marins Santos, Rádio USP

 

O dia 13 de maio marca os 129 anos de assinatura da Lei Áurea, conhecida por ter libertado os escravos após 388 anos. Entretanto, a data não costuma ser considerada motivo de comemoração, afinal, a situação dos negros nesse período foi bastante conturbada. A libertação não veio acompanhada de políticas de inserção dos negros na sociedade da época, o que provocou uma série de problemas sociais que são sentidos até hoje, como, por exemplo, o surgimento das favelas.

Entretanto, esses obstáculos sociais foram, e são, sentidos com mais intensidade pelas mulheres negras. A professora Dilma de Melo Silva, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e Membro do Conselho Científico do Núcleo de Apoio a Pesquisas e Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro (Neinb) da USP, explica que, além da dificuldade de se inserir na sociedade da época, a ex-escrava se deparou também com as obrigações do lar para administrar.

Ato pela Marcha das Mulheres Negras em São Paulo
Ato pela Marcha das Mulheres Negras em São Paulo – Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil

 

O fato de terem desenvolvido atividades que envolviam muito mais o cuidado da casa, quando eram escravas, permitiu às mulheres trabalharem com culinária e venda de alimentos após a liberdade, o que garantiu a elas o papel de liderança e manutenção do núcleo familiar. Porém, elas também acumularam o dever de cuidar dos filhos e do lar, causando uma sobrecarga de funções. “Desde o surgimento da mão de obra livre no Brasil, a situação da mulher é de uma opressão maior do que a do homem”, afirma Dilma.

Essa sobrecarga de atividades se assemelha a um problema recorrente da atualidade, que é a dupla jornada de trabalho enfrentada pelas mulheres. A professora destaca que, apesar da dupla jornada ser um problema de todas as mulheres, as negras são as que mais sofrem, pois estão em uma posição de “matriz da opressão”. Existem diversos sistemas discriminatórios na sociedade brasileira, como raça, etnia, gênero, classe social e sexualidade, e a mulher negra se vê vítima de quase todos eles (se não de todos). “Vão aparecendo estruturas que se complementam numa situação absolutamente cruel. Ela é oprimida por ser mulher, por pertencer a uma classe social subjugada e também por ter a raça negra.”

No últimos anos, diversas celebridades negras têm sido alvo de ataques racistas na internet. Os casos mais famosos foram os das atrizes globais Taís Araújo e Sheron Menezzes e da jornalista Maria Júlia Coutinho, além de diversos outros. É importante que todas as vítimas desse tipo de ataque, tanto na internet quanto em outros lugares, denunciem seus agressores. Racismo é crime inafiançável e sempre deve ser denunciado. A professora destaca que o cidadão negro precisa lembrar que possui direitos e não apenas deveres, como a sociedade sempre o fez pensar. “Dá um trabalho enorme fazer Boletim de Ocorrência, correr atrás de advogado, mas precisa ser feito”, orienta Dilma de Melo.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/05/2017

 

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