Crise hídrica ou nova relação com recursos hídricos, artigo de Roberto Naime

 

 

[EcoDebate] Na verdade não se vive crise de recursos hídricos. A situação demonstra claramente que é necessária nova atitude e nova relação com todos os fatores ambientais. Não é só o desmatamento ou a mudança climática que reduzem as chuvas e provocam crises.

É a necessidade de uma nova postura frente a todas as intervenções ambientais. Criar e manter unidades de conservação (UCs) da natureza nas áreas urbanas pode ser uma resposta para a falta de água, que deflagrou a crise hídrica no Sudeste do Brasil. Mas atitudes fragmentadas ou isoladas não resolvem a questão, embora possam patrocinar atenuações e atenuantes.

Se torna imprescindível refletir sobre concepções ambientais. Meio ambiente é o conjunto de relações entre os meios físico, biológico e antrópico. Podemos dizer que meio ambiente é como a confiança ou o casamento. A confiança é uma relação de integridade entre 2 pessoas. E o casamento também. É intangível, não dá pra gente tocar e pegar.

O meio ambiente é assim. É intangível. Não dá pra gente tocar e pegar. Tocar numa pedra, na água ou no solo é tocar num elemento ambiental do meio físico. Tocar uma planta, um animal, é tocar num elemento do meio biológico. Tocar numa plantação, num produto industrializado ou num depósito de resíduos sólidos é tocar num elemento do meio antrópico ou socioeconômico.

Os principais constituintes do meio físico são as rochas, solos, águas superficiais e subterrâneas, geomorfologia e climas. No meio biológico, os constituintes são a flora e a fauna. E no meio antrópico ou socioeconômico são todas as atividades do homem, nos setores primário, secundário, terciário e até quaternário, conforme os autores mais modernos.

Mas afinal o que são as relações? Quando alguém preserva um bioma, protegendo, evitando incêndios, impedindo caça e pesca predatórias, está construindo um tipo de relação com o bioma. Quando alguém vai lá e incendeia um pedaço de cerrado está estabelecendo uma outra relação entre o homem e o bioma.

Biomas que são constituídos por elementos físicos e biológicos além do antrópico, que interagem entre si dentro de uma relação sistêmica hierarquizada por vários fatores.

Mas a escassez está associada a vários fatores, como a carência de planejamento dos assentamentos urbanos, os equívocos no manejo do uso do mineral, a utilização de equipamentos urbanos de distribuição ineficientes e responsáveis por enormes desperdícios, e a pouca consciência do brasileiro em relação à escassez deste recurso.

A existência de unidades de conservação dentro e no entorno das cidades ajudaria na estabilização do regime de precipitação de chuvas e reteria água no subsolo e lençóis freáticos. Pois os desmatamento e a impermeabilização do solo fazem com que a água da chuva chegue mais rápido aos cursos d’água e ao mar, além de modificar o regime de precipitação.

Quem vive no Nordeste tem uma percepção mais realista sobre a necessidade de se poupar o recurso. À exceção do Nordeste, as demais regiões não têm essa consciência acerca da escassez de água. Espaços para UCs, que ajudam na reserva e provimento de água, como ocorre em cidades planejadas como Brasília.

As UCs favorecem a recarga de água nos reservatórios. Em áreas desflorestadas e asfaltadas, a água que cai no chão impermeabilizado, sem vegetação nativa ou com pasto, corre muito rápido para dentro dos corpos hídricos, escorre e vai embora, em direção a alguma bacia hidrográfica e segue para o mar, ou pode cair num reservatório, que tem superfície muito grande e onde muita água se perde por evaporação.

As UCs são espaços especialmente protegidos e a principal estratégia de conservação da biodiversidade. Quando delimitada, é usada como fonte e reserva de recurso natural, além de preservar a paisagem.

O conceito de Unidade de Conservação surgiu no Brasil ainda na década de 1930, ganhando força no final dos anos 1970 e novamente nos anos 1990 e 2000 na Amazônia. A questão é que a maior parte das áreas de conservação da biodiversidade está localizada na região Amazônica, fora das áreas urbanas e distantes da população, em ambiente rural ou remoto, como na própria Amazônia.

No caso da crise hídrica, o fim da resiliência ou capacidade de se adaptar ou evoluir na adversidade está associado ao fim das áreas naturais e a alteração drástica do ambiente que poderia armazenar água da chuva

A crise vivida hoje por São Paulo deve-se à falta de planejamento e de conservação dos mananciais, além das mudanças no padrão climático global, em processos acirrados. Este padrão demonstra que o clima está ficando cada vez mais variável e com mais extremos de temperatura e precipitação, mudando a dinâmica da floresta amazônica, pois o desmatamento ali registrado, desde dez, quinze anos atrás, comprometeu parte da floresta.

O mau planejamento das cidades, a ausência de áreas protegidas que garantam a captura desse recurso e melhora na resiliência do ambiente, resulta numa crise como esta, que já vinha se anunciando há algum tempo. Vamos ver se ocorre consciência prévia dos demais cenários ou será preciso buscar atenuações após as tragédias ocorrerem. Com os agrotóxicos, onde existem grandes interesses econômicos, parece que será com tragédia primeiro.

Referência:
http://www.onuverde.org.br/Artigo/88/Desmatamento-e-mudanca-climatica-reduzem-chuva-e-provocam-crise

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/04/2017

"Crise hídrica ou nova relação com recursos hídricos, artigo de Roberto Naime," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/04/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/04/20/crise-hidrica-ou-nova-relacao-com-recursos-hidricos-artigo-de-roberto-naime/.

 

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