O negacionismo pueril contra as evidências científicas é a nova trincheira da guerra cultural no Brasil

 

IHU

Você não precisa ser um ávido leitor de jornais ou um militante ligado ao ambientalismo para ter ouvido várias vezes frases como “Nós [os ruralistas] somos os que mais preservamos”,“61% do território brasileiro é mato”, “O que o código florestal quer é a interdição do uso da propriedade”, “É muita terra para pouco índio”. É com esse arsenal retórico que a bancada ruralista no Congresso Nacional dispara contra os direitos dos povos originários, contra as leis ambientais e contra qualquer pessoa que afirme haver aquecimento global.

“O que está em jogo é o maior retrocesso em termos ambientais no Brasil”, afirma Cláudio Ângelo, jornalista do Observatório do Clima, durante a conferência A nossa guerra cultura. Discurso ruralista, pós-verdade e o papel do jornalismo, evento que integra a programação da 14ª Páscoa IHU – Biomas brasileiros e a teia da vida. A conferência ocorreu na terça-feira, 04-3-2017, às 19h30, para um público de aproximadamente 200 pessoas, na Unisinos, em São Leopoldo.

Publico lotou o Auditório Bruno Hammes, na Unisinos (Fotos: Ricardo Machado/IHU)
Publico lotou o Auditório Bruno Hammes, na Unisinos (Fotos: Ricardo Machado/IHU)

Agenda ruralista

No atual congresso, o mais conservador desde 1964, cerca de 250 deputados compõem a base de apoio aos ruralistas, ao passo que no Senado esse número é de 40 senadores. Não obstante esse número expressivo de apoiadores à agenda de desregulamentação ambiental, o setor ruralista ocupou, recentemente, o controle da Polícia Federal e da Fundação Nacional do Índio – Funai. “Durante 20 anos fazendo cobertura sobre as questões ambientais, nunca vi alguém fazer um resumo tão bom do discurso ruralista quanto este (veja o vídeo abaixo) do Luis Carlos Heinze”, afirma Cláudio Ângelo.

 

 

O mais delicado neste assunto é que o discurso acima recebe amplo apoio da sociedade, sobretudo no que diz respeito à retomada econômica. “No Brasil há uma minoria de ruralistas que investiram em suas propriedades para cumprirem a legislação ambiental e eles estão sendo prejudicados por quem não cumpre. Além disso, não se pode negar o fato que o agronegócio mantém a balança comercial brasileira e que isso é relevante para o país inteiro, mas isso não autoriza os ruralistas a agirem da forma como agem”, pondera o conferencista.

O conservadorismo nas políticas ambientais no Brasil está longe de ser uma pauta de direita. Um dos grandes expoentes do Partido Comunista do Brasil – PCdoB, Aldo Rebelo, que militou na esquerda, resolveu, nas palavras de Cláudio Ângelo, “se aliar aos mais conservadores dos conservadores da bancada ruralista. O Aldo fez um relatório sobre a mudança do Código Florestal que versa sobre a legislação mais ou menos como o discurso do Heinze”.

Guerra cultural

O conceito de guerra cultural é um tema debatido, sobretudo, pela sociologia dos Estados Unidos. Basicamente diz respeito à disputa narrativa entre os progressistas e conservadores principalmente sobre questões como evolucionismo e criacionismo e o aquecimento global. “Lá, os fronts são o ensino da teoria da evolução nas escolas e as mudanças climáticas. O negacionismo do aquecimento global se tornou um item obrigatório no check list dos conservadores dos Estados Unidos”, pontua.

“No Brasil é diferente, não há um grupo articulado em torno do negacionismo do aquecimento global, ao contrário, várias pesquisas mostram que entre várias nações, o brasileiro é o mais preocupado com as questões do clima”, ressalta o conferencista, mas chama atenção para duas excessões. “Há dois negacionistas importantes por aqui. O Ricardo Felício, geógrafo, da Universidade de São Paulo – USP, que tem zero publicação sobre mudança climática; e Luiz Carlos Molion que é climatologista, mas tem poucas produções científicas sobre o tema”, complementa.

Por aqui, no entanto, o negacionismo climático fica por conta dos ruralistas. “O discurso dos ruralistas no Brasil é muito parecido com o dos céticos do clima nos EUA. Essas pessoas ignoram evidências científicas e chamam de ideologistas os cientistas que passaram 20 a 30 anos pesquisando a fundo sobre mudanças climáticas”, critica Cláudio. “Veja a Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense que resolveu homenagear os índios do Xingu, com o enredo sobre Belo ‘Monstro’ [Belo Monte] que secou a Volta Grande e deixou duas terras indígenas sem peixe, foi ameaçada por Ronaldo Caiado que disse que abriria uma CPI para investigar a agremiação”, relembra.

Cláudio Ângelo, ao fundo à esquerda
Cláudio Ângelo, ao fundo à esquerda

Jornalismo e meio ambiente

Mas afinal de contas, o que o jornalismo tem a ver com as questões ambientais? Para Cláudio Ângelo, o último território onde a chama do ceticismo pode ainda estar protegida é no jornalismo. “Os últimos guardiões do ceticismo são os jornalistas. O livro O mundo assombrado pelos demônios (São Paulo: Companhia de Bolso, 2006), Carl Sagan, apresenta um check list rápido sobre as principais falácias e os antídotos dos blefadores negacionistas”, salienta o conferencista.

Na avaliação de Cláudio Ângelo, vivemos a pior crise do jornalismo em que o modelo hegemônico de negócio parece insustentável. “O Facebook faz grilagem de conteúdo e com a audiência capta anunciantes que antes investiam em jornais e revistas”, analisa. Por outro lado, reconhece que nem tudo está perdido. “A ressurreição do jornalismo nos EUA veio com a eleição de Donald Trump. No Brasil há uma série de iniciativas que vem vingando, como Amazônia Real, Aos Fatos, Poder 360, e que nos enchem de esperança”, projeta.

Diante do cenário de pós-verdade, como descreveu o conferencista, o trabalho do jornalista se torna cada dia mais importante para lutar do lado das evidências científicas. “Nada substitui o jornalismo crítico. Em um mundo onde o leitor confia mais nas próprias verdades, talvez a angulação da abordagem deva ser outra que não o confronto direto. Preciso desconstruir o discurso que serve à guerra cultural”, conclui.

Cláudio Ângelo


Jornalista em conferência no IHU

Cláudio Ângelo é jornalista formado pela Universidade de São Paulo – USP, coordena a comunicação do Observatório do Clima, organismo que tem o objetivo de formar uma coalizão de organizações da sociedade civil brasileira para discutir mudanças climáticas. Ainda foi editor de Ciência do jornal Folha de São Paulo e é autor do livro A Espiral da Morte (São Paulo: Cia das Letras, 2016), sobre como a humanidade alterou o clima nos polos e como isso afeta a todos.

 

(EcoDebate, 06/04/2017) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

 

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3 comentários em “O negacionismo pueril contra as evidências científicas é a nova trincheira da guerra cultural no Brasil

  1. É preciso ficar atento com formadores de opinião do “Ogronegócio” principalmente nas universidades públicas ligadas às ciências agrárias, pois não possuem disciplinas críticas relacionadas com história geográfica da ocupação do território brasileiro. Possuem uma visão economicista clássica arcaica.

  2. O Jornalismo etico aliados jornalistas independentes comprometidos com informação desalienante pode contribuir para uma cultura desintreguista direcionada tanto a classe trabalhadora quanto a ralé nacional, que continuam vitimizados pelo sistema genocida do capitalismo e do agronegócio nacional.

Comentários encerrados.

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