Os desafios econômicos dos EUA e a crise da democracia americana, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

“O princípio moral das revoluções é instruir, não destruir”
Thomas Paine (1737-1809)

 

crescimento anual do PIB dos EUA e média móvel de 10 anos 1948-2016

 

[EcoDebate] Os Estados Unidos da América surgiram como uma potência mundial depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e se tornaram líderes da economia internacional depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Nos chamados 30 anos gloriosos (1946-1974) a economia dos EUA crescia acima de 4% ao ano e manteve este crescimento até 1973. Com a crise do petróleo, o desempenho médio caiu para a casa dos 3% ao ano até o início da crise de 2008. Na recuperação recente, o crescimento do PIB tem ficado abaixo de 2% ao ano. A reta de tendência do gráfico abaixo mostra que o ritmo de crescimento da economia americana se reduziu pela metade e tende a continuar caindo.

Um dos motivos que explica o bom desempenho da economia americana na segunda metade do século XX e o pior desempenho no século XXI é o comportamento do emprego. A taxa de atividade da força de trabalho (PEA) subiu entre 1950 e o final da década de 1970, chegando a mais de 67% no final do século passado. A grande inserção das mulheres no mercado de trabalho gerou um aumento na taxa de atividade geral e aumentou a renda das famílias. Houve um bônus demográfico feminino.

Mas a taxa de atividade caiu para 66% em 2008 e teve um declínio acentuado depois da crise iniciada com a quebra do banco Lehman Brothers. A geração de emprego nos anos 2000 tem sido muito lenta e há uma crescente parte da população em idade de trabalhar (PIA) que continua fora do mercado, enquanto outra parte está subempregada. A perspectiva é que a percentagem da população empregada diminua em função do envelhecimento populacional (fim do bônus demográfico) e do grande número de pessoas da geração baby-boom que chega em idade de aposentadoria.

 

labor force participation rate

 

O quadro fica mais dramático quando se considera que o nível de emprego e a taxa de atividade vem caindo, mas a produtividade não sobe. Ao contrário, a produtividade nunca foi tão baixa como mostra o gráfico abaixo publicado na Bloomberg (09/08/2016). No segundo trimestre de 2016, o crescimento da produtividade, trimestre a trimestre, uma medida da mudança na produção por hora trabalhada, apresentou uma média de apenas 0,7% nos últimos quatro períodos, desempenho bem tímido se comparado com a média de longo prazo de 2,2%. Cabe a pergunta: onde estão os ganhos da 4ª Revolução Industrial?

Entre 1947 e 1973, a produção por hora (a medida padrão de produtividade do trabalho) cresceu a uma taxa anual de cerca de 3%, segundo dados do Bureau of Labor Statistics. Entre 1974 e 1995, a taxa de crescimento caiu pela metade, para 1,5% iniciando um período em que o crescimento dos salários começou a estagnar. Mas com o fim da Guerra Fria e o surgimento da Internet a produtividade voltou para o patamar de 3% e muita gente boa previu um futuro brilhante, mas que não se concretizou. Desde 2007, a taxa anual de crescimento da produtividade aumentou em média de cerca de 1,3%. Desde 2010, tem sido ainda menor, cerca de 0,5%. De acordo com os novos números, nos doze meses encerrados em junho de 2016, a taxa de crescimento da produtividade por hora foi negativa em 0,5%. Nos três meses encerrados em junho, a taxa de crescimento anualizada foi negativa em 0,4%.

 

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productivity, perishing

 

Assim, o crescimento do PIB só poderia ocorrer com o aumento do número de trabalhadores e o aumento das horas trabalhadas. Porém, o envelhecimento da população dos EUA está colocando um freio sobre a taxa de crescimento do fator trabalho. Assim, na ausência de crescimento da PEA e da produtividade, a economia deve entrar em um longo período de estagnação secular.

Sem surpresas, a diminuição da taxa de atividade e a queda da produtividade geram um aumento da pobreza. O gráfico abaixo mostra que do número de pobres passou de cerca de 32 milhões de pessoas, em 2000, para cerca de 47 milhões em 2014.

 

poverty jump

 

No modelo dominante, o baixo crescimento econômico, além de não gerar renda e os postos de trabalho na rapidez e na quantidade requerida, também não gera as receitas que o governo necessita para pagar suas despesas.

O gráfico abaixo mostra que o déficit público previsto para 2016 é de 2,9% do PIB, sendo que as despesas com rolagem da dívida são muito baixas, devido às taxas de juros quase negativas. Porém, a projeção é que o déficit público suba para 8,8% do PIB em 2046 pois as despesas com os programas de saúde, com a seguridade social e com a rolagem da dívida vão crescer consideravelmente.

Quanto pior forem as taxas de crescimento do PIB maiores serão as despesas do governo e menores serão as receitas. Isto vai exigir cortar gastos e aumentar impostos, mas nenhum candidato à presidência tem propostas concretas para enfrentar esta situação.

 

orçamento federal dos EUA, 2016-2046

 

Os contínuos déficits públicos anuais têm acumulado em forma de dívida pública. A dívida pública dos EUA chegou a 30% do PIB no início da Independência devido às despesas com a guerra contra a Inglaterra, mas foi praticamente zerada em 1830. Voltou a subir na época da Guerra Civil, mas também foi praticamente zerada antes da Primeira Guerra Mundial. A dívida voltou a subir com as despesas da Primeira Guerra e deu um grande salto durante a Segunda Guerra Mundial, ultrapassando 100% do PIB.

 

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dívida pública em poder do público, EUA: 1790-2046

 

Contudo, a dívida pública foi reduzida durante as “3 décadas gloriosas” (período de maior crescimento econômico do país entre 1946 e 1974) e ficou em torno de 30% do PIB. Mas a dívida voltou a subir na época do governo Reagan, devido às despesas com a Guerra Fria e com o corte de impostos para os ricos. Na década de 1990, com o boom das empresas de tecnologia e o fim da Guerra Fria, a dívida caiu com o aumento do PIB na época do governo Bill Clinton. No governo Bush filho e depois do 11 de setembro de 2001, a dívida subiu para financiar as guerras do Afeganistão, Iraque, etc. Depois da recessão de 2009, a dívida disparou no governo Obama visando manter os gastos de guerra e para vencer a recessão.

Atualmente, a dívida em poder do público, está em torno de 80% do PIB. Mas como o déficit público é crescente e o desempenho da economia está fraco, a tendência é que o crescimento da dívida possa chegar a 141% do PIB em 2046. Na verdade, a CBO (Congressional Budget Office) tem projeções que apontam para uma dívida que pode variar entre 93% e 196% do PIB, dependendo dos fatores demográficos (envelhecimento), do crescimento da força de trabalho, da produtividade, da taxa de juros, etc. A CBO alerta aos políticos e aos partidos para levar a sério estes números e para que sejam feitas propostas para evitar a falência da economia americana.

Os últimos dados mostram que a renda das famílias dos EUA apresentou uma melhora 2015, rompendo com um padrão de estagnação que perdurou desde 2007, e avançou 5,2%. Mas a recuperação econômica continua incompleta. A renda domiciliar mediana está 1,6% abaixo do valor que atingiu em 2007, antes da recessão, e permanece 2,4% abaixo do pico atingido no boom econômico do fim dos anos 1990. Enquanto a renda das famílias fica estagnada ou cai, o custo do ensino superior dobrou nas últimas 3 décadas e a dívida estudantil disparou. Estimada em mais de US$ 1 trilhão, ela ultrapassa o volume das compras por cartão de crédito. Muitos estudantes não conseguem pagar os empréstimos contraídos. A taxa de inadimplência dos estudantes – que não podem recorrer ao procedimento que alega falência individual – passou de 5% a 15% entre 2008 e 2015.

A democracia americana não é mais aquela dos fundadores do século XVIII e sonhada por Thomas Paine. Dois terços da população consideram que o país está na direção errada (wrong track). As eleições presidenciais de 2016 mostram que nenhum dos dois candidatos empolgam o eleitorado e deve vencer aquele/a candidato/a que tiver menor índice de rejeição.

 

RCP poll average - direction of country

 

O sistema político está se mostrando incapaz de traçar e colocar um plano para gerar emprego e aumentar a renda, além de evitar uma grande crise ambiental. Está ficando claro que o “American way of life” não se sustenta e não existe um Plano B. Trump diz que vai fazer a “América grande novamente” e Hillary diz que a América (EUA) sempre foi grande. Na realidade o Império Americano está em declínio e a questão colocada pelos políticos deveria ser como administrar este declínio para evitar um grande sofrimento da população.

Porém, nem o partido Republicano e nem o Democrata tem propostas viáveis para enfrentar os desafios atuais. Os impasses políticos são cada vez maiores e nem a nomeação de um juiz para a Suprema Corte consegue ser efetivada.

A média das pesquisas do site RealClearPolitics indica que o resultado está indeterminado, com uma ligeira vantagem para Hillary Clinton, dois dias antes das eleições. Hillary tem
44,9% das intenções de voto, Trump com 42,9%, Gary Johnson caiu para 4,8% e Jill Stein com 2,1%.

 

general election - Trump vs Clinton vs Johnson vs Stein

 

Mas o que vale nos Estados Unidos não é o voto direto e sim o voto do colégio eleitoral. Cada Estado tem um número de votos proporcional à população. Quem ganha leva todos os delegados. As últimas pesquisas indicam que Hillary Clinton tem consolidado o número de 216 delegados contra 164 de Donald Trump. Mas existem 158 delegados em disputa e que vão decidir as eleições.

 

Cinton/Kaine vs. Trump/Pence

 

Qualquer que seja o resultado das eleições de 8 de novembro, o cenário econômico deve se agravar, pois uma vitória de Donald Trump terá um impacto negativo em todo o mundo e uma vitória de Hillary será a continuidade de uma alternativa pouco dinâmica para os EUA. As bolsas de valores caíram na semana anterior às eleições e o FED (Banco Central) deve aumentar as taxas de juros em dezembro. A possibilidade de uma recessão em 2017 é grande. Tudo isto tem gerado muita ansiedade e stress nos EUA e no mundo.

Nesse cenário, uma vitória apertada de qualquer uma das duas principais candidaturas deve acirrar o questionamento político e gerar ações judiciais. Uma paralisia política pode representar uma espécie de “americalatinização” dos EUA. A democracia americana está em crise. Depois do Brexit e de outros “cisnes negros”, o que o mundo menos precisa é de uma instabilidade política e econômica nos Estados Unidos.

Referência:

CBO, The 2016 long-term budget outllok in 22 slides, Congressional Budget Office, july 2016

Luke Kawa. The U.S. Economy Is Suffering From the Same Old Problem, Bloomberg, 09/082016
h

Labor Statistics http://www.bls.gov/

Real Clear Politics: http://www.realclearpolitics.com/

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, 07/11/2016

Os desafios econômicos dos EUA e a crise da democracia americana, artigo de José Eustáquio Diniz Alves, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 7/11/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/11/07/os-desafios-economicos-dos-eua-e-a-crise-da-democracia-americana-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

 

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