Amazônia e Saara: o Yin-Yang do Planeta, artigo de Suzi Huff Theodoro

 

[EcoDebate] A floresta Amazônica impacta pela sua beleza, esplendor e majestade. Porém, quando se vê o deserto do Saara pela primeira vez, fica-se igualmente impressionada por sua grandiosidade, imensidão e imponência.

Na Amazônia a vida transpira, exala e brota indiscriminada e violentamente, com uma urgência de se reproduzir e expandir-se para além de seus domínios. No Saara, não se vê vida, não se percebe o renascer. Só o desgaste, a degradação e o envelhecimento.

A Amazônia causa aquela sensação de arrebatamento e de inebriante luxúria. A vida que pulsa. O Saara causa uma sensação igualmente avassaladora, mas impregnada de respeito, medo e temor. Aquela amplidão vazia associa-se à solidão e à escassas oportunidades de reprodução, ao fim, à morte.

A Amazônia é verde – com suas matas e rios que se entrelaçam em uma simbiose inebriante-, e nos dá a exata noção do poder e da beleza inigualável da natureza em sua forma mais selvagem e primária. Já o Saara com suas cadeias de montanhas impenetráveis e pontiagudas, sua imensidão inóspita e mares de areias onduladas, é bege, meio amarelado, como se estivesse em permanente compasso de espera pelo retorno à vida.

Os rios da Amazônia são meandrantes, curvilíneos, tranquilos e serenos, como se entendessem que são, a semelhança das veias e artérias, os condutores e propagadores da vida em todas as suas formas. Já no Saara até se veem marcas de drenagens, mas elas estão mortas, sufocadas por mares de areia, que as invadem e as consomem.

Tão destoantes, esses dois sistemas regulam a vida e a morte da superfície do planeta. Encontram-se separados pela imensidão do oceano Atlântico, que também carrega segredos em suas azuis águas abissais e que igualmente guarda a chave de muitos mistérios do planeta Terra, impondo respeito e veneração.

Apesar de todas as diferenças e do mar de águas a os separar, Amazônia e Saara parecem estar interligados e interdependentes do grande ciclo da renovação e da recriação. As areias esturricadas, derivadas das cadeias de montanhas desnudas e sem vida, são arrancadas pelo vento e enviadas, através de 2.5 mil km, na forma de densas nuvens de poeira, para a exuberante Floresta. É uma espécie de contribuição da morte para fortalecer e potencializar a vida. Transportam uma dádiva chamada fertilidade, disponibilizada em pó e em doses homeopáticas. Esta poeira, enriquecida em nutrientes essenciais para a germinação e desenvolvimento de todas as espécies vivas, quando em contato com a água exalada pela respiração da floresta, converte-se em insumo que induz e reproduz a vida. Ela potencializa e incrementa os nutrientes contidos na matéria orgânica derivada do constante processo de rejuvenescimento da floresta.

 

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E na simbiose de suas existências, vida e morte se complementam, se entrelaçam e fazem uma espécie de bailado, rodopiando em círculos grandiosos. Se completam, se sucedem, se encaixam e se transformam numa harmonia secreta e fluída. Um se apropria do outro. Um com escassez dramática de vida e a outra com excesso, com exuberância, com exagero. Se acham tão radicalmente entrelaçados, que causam ao mesmo tempo deslumbramento, temor e agonia, e a semelhança da simbologia chinesa do Yin-Yang comportam-se como fonte de equilíbrio ou desarmonia de todo o planeta.

A percepção da existência dessa virtuosa e deslumbrante simbiose entre o Yin-Yang do Planeta é tão clara, mas ainda pouco percebida e entendida. A espécie humana, louca para se reproduzir com segurança e na ânsia de se perpetuar, interfere nesse arranjo e, em nome do que se convencionou chamar de desenvolvimento, ultrapassa barreiras, transformando, alterando, degradando e, finalmente quebrando os vínculos dessa bela e tênue ligação da vida e da morte. Invadem, derrubam, queimam e consomem ferozmente a fertilidade arquitetada e tecida pela Floresta e pelo Deserto.

Esse desarranjo provoca o descompasso, a quebra, a ruptura, a disputa e a busca de supremacia entre a dupla. Sem harmonia, um quer dominar o outro, expandir-se, consumir-se. Esse destino partido, separado e ultrajado provoca, em ambos, a aflição, a fúria e o desejo de prevalência. E em um ataque de ciúmes, o Deserto inconformado com a deslumbrante beleza da Floresta, se utiliza da ganância dos homens para se apossar de imensas áreas, tornando-as frágeis, susceptíveis à erosão, à degradação e, finalmente, à desertificação.

O ciclo não mais se fecha. A Amazônia está encolhendo e as águas, que deveriam ser geradas em abundância pela Floresta, vão escasseando e já não conseguem percorrer as impensáveis distâncias, alcançadas pelos igualmente desconhecidos rios voadores, que abasteceriam outras plagas, em pampas distantes e em savanas rudes e ácidas. Já não carreiam tão generosamente as dádivas recebidas. Estão diminuindo, minguando ou caindo concentradas como tormentas avassaladoras, que causam um rastro de destruição e aniquilamento em diferentes pontos do planeta.

Assim, a cobiça desmedida está separando e quebrando o invisível vínculo entre esses entes tão distintos, mas tão interdependentes. A ardilosa morte usa a mão da cobiça para se apropriar da vida. Vale-se de artimanhas e de aliados ambiciosos para afogar e transformar as vastas planícies tropicais Amazônicas em áreas estéreis, sem fertilidade, sem vida, em nada, em morte. Em agonia, os leitos dos rios veem-se transformados em veias/artérias secas e esturricadas, tais quais as drenagens sufocadas do Saara. A exuberante Amazônia, com suas árvores grandiosas, vai minguando, desaparecendo.

Mas a vida e a Floresta tem suas estratégias, e com a mesma astúcia se rebela, e se restabelece de forma indiscriminada e anárquica. E para ganhar terreno, também busca aliados que a ajudem na sua revitalização e vigor. A Floresta clama por novas e permanentes alianças com a raça humana. Somente essa aliança poderá interromper a disputa e trazer de volta o equilíbrio e a chance de sobrevivência da Amazônia, do Saara e da espécie humana.

O resultado será a continuidade da eterna dança que permite a manutenção e o equilíbrio do ciclo da vida e da morte na superfície do planeta. O positivo e o negativo, a vida e a morte, a Amazônia e o Saara são faces do mesmo lado da moeda, que apesar de contrários, sobrevivem e se atraem reciproca e continuamente, porque ainda guardam na memória, o tempo em que a tectônica de placas rompeu um fenda, chamada Atlântico, que os separou de forma inexorável.

Suzi Huff Theodoro – Geóloga, Dra. em Desenvolvimento Sustentável, ambientalista, feminista e pesquisadora colaboradora sênior do Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural, da Universidade de Brasília (MADER/UnB) (suzitheodoro@unb.br)

 

in EcoDebate, 28/10/2016

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2 comentários em “Amazônia e Saara: o Yin-Yang do Planeta, artigo de Suzi Huff Theodoro

  1. Lindo texto. O que mais para cuidar o que amo? Vida abundantemente amorosa, contida em sua materialidade e prenhe de utopias não é suficiente. Onde as dores do parto?

  2. Em 2015, as emissões brutas do CO2, o principal gás causador do efeito estufa, ultrapassou a marca de 95(noventa e cinco) Bilhões de Toneladas dos quais no mínimo 60 ( Sessenta ) Bilhões estão aprisionados na atmosfera. Lamentavelmente esse volume supera em 5,0% a mais do volume registrado em 2014. As previsões para 2016 não são nada animadoras e podemos facilmente superar a marca de 100 ( Cem ) Bilhões de Toneladas. Os números são astronômicos e podem piorar a cada dia. O Bioma Amazônico, sozinho é responsável por sequestrar e fixar mais de 31(Trinta e Um) Bilhões de Toneladas de CO2 , para realização do processo de crescimento através da fotossíntese e, além de aprisionar esse volume astronômico de CO2 em suas arvores, nos presenteia com bilhões de toneladas de Vapor de Água, o que nos favorece com ventos quentes e úmidos os quais provocam chuvas no hemisfério sul em quase todo o território brasileiro. Como podemos deixar um Bioma tão importante ser destruído pela ganancia de pucos em detrimento de milhões . Você também é responsável. Tome uma atitude agora antes que seja tarde.

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