Ecologia Histórica, Parte 3/3 (Final), artigo de Roberto Naime

 

artigo

 

[EcoDebate] Os seres humanos tem interagido com o ambiente através de toda sua história, gerando uma influência duradoura sobre as paisagens de todo o mundo. Geralmente mudam ativamente suas paisagens de forma direta, enquanto que em outros momentos suas ações alteram paisagens através de efeitos secundários.

Essas mudanças são chamadas de distúrbios humanos mediados e são efetivadas através de várias mecanismos. Estes mecanismos variam, podendo ser prejudiciais em alguns casos e vantajosos em outros.

O fogo antropogênico é o distúrbio humano mediado de visão mais imediata e, sem a sua presença, muitas paisagens se tornariam desnaturadas. Os seres humanos têm praticado a queima controlada das florestas a nível mundial durante milhares de anos, moldando as paisagens de forma a melhor atender suas necessidades.

Queimam a vegetação e as florestas para criar espaços para as plantações, algumas vezes resultando em um alto nível de diversidade de espécies.

Na ausência de populações indígenas que praticavam queimadas controladas em grande parte na América do Norte e Austrália, os incêndios naturais tem aumentado. Há uma boa documentação que sugere que a exclusão de fogo pelos europeus, levou a extinção de algumas espécies da flora e fauna.

Invasões biológicas e a dispersão de patógenos e doenças, são dois mecanismos que se espalham de forma inadvertida e propositalmente. Invasão biológica começa com a introdução de espécies estrangeiras ou biota em um ambiente existente. Eles podem se dispersar como clandestinos em um barco ou mesmo como armas biológicas.

Em alguns casos uma nova espécie pode causar estragos em uma paisagem, causando a perda de espécies nativas e destruição da paisagem. Em outros casos, a nova espécie pode preencher um nicho já vazio, e desempenhar um papel positivo.

A dispersão de novos patógenos, vírus e doenças raramente possuem efeitos positivos. Novos patógenos e vírus, algumas vezes, podem destruir populações que não possuem imunidade à determinada doença. Alguns patógenos possuem a habilidade de se transferir de uma espécie para outra, e podem se dispersar como um efeito secundário de uma invasão biológica.

Outros mecanismos de distúrbios humanos mediados incluem manejo da água e manejo do solo. Na Europa Mediterrânea, esses foram reconhecidos como meios de alteração da paisagem desde o período do Império Romano.

O imperador romano Cícero percebeu que através da fertilização, irrigação e outras atividades, os humanos haviam criado essencialmente uma segunda paisagem, que ele denominou de ?segundo mundo.?

Atualmente, há grandes áreas fertilizadas, colheitas de plantações mais produtivas, mas também teve efeitos adversos sobre muitas paisagens, como a redução da diversidade de espécies de plantas e adição de poluentes em solos.

Fogo antropogênico é um mecanismo de distúrbio humano mediado, definido pela ecologia histórica como um meio de alterar a paisagem de modo a torná-lo melhor para as necessidades humanas. A forma mais comum de fogo antropogênico são os incêndios controlados, ou incêndio de difusão, que são utilizados pelos humanos há milhares de anos.

Incêndios florestais e queimadas tendem a carregar conotações negativas, mas a queima controlada pode ter um impacto favorável sobre a diversidade da paisagem, formação e proteção.

Incêndio de difusão altera a biota da paisagem. O efeito imediato de uma floresta queimada é a diminuição em diversidades. Esse impacto negativo associado ao incêndio de difusão, no entanto, é apenas temporário. Ciclos de incêndios irão permitir que a paisagem aumente gradualmente a sua diversidade.

O período de tempo para que essa mudança ocorra depende da intensidade, frequência, tempo e tamanho dos incêndios controlados. Depois de alguns ciclos, no entanto, a diversidade aumenta. A adaptação ao fogo moldou várias paisagens na Terra.

Além da diversidade florestas, incêndios controlados tem auxiliado nas mudanças paisagísticas. Essas alterações podem alterar de pastos para florestas densas, de pradarias ou estepes para cerrado ou florestas.

Estas transformações aumentam a diversidade e geram paisagens mais adequadas para as necessidades humanas, criando ricas alternativas de recursos utilitários e naturais.

Além de aumentar a diversidade da paisagem, o incêndio controlado auxilia no combate ao incêndio natural catastrófico. Florestas incendiadas ganharam conotação negativa por causa de suas referências culturais, de um fogo descontrolado que leva vidas e destrói casas e propriedades.

Mas incêndios controlados podem diminuir o risco de incêndios naturais, uma vez que essas queimadas regulares eliminam o combustível natural existente sobre a superfície, como gramas, galhos e folhas. Com isso, o risco de um incêndio natural ocorrer por conta de um raio diminui drasticamente.

De todos os mecanismos de distúrbios humanos mediados, o fogo antropogênico se tornou um dos grandes interesses para ecólogos, geógrafos, pesquisadores de solos e antropólogos.

Através dos estudos dos efeitos de um fogo antropogênico, antropólogos são capazes de identificar o uso da paisagem e as necessidades de culturas passadas.

Ecólogos procuram desenvolver políticas de práticas de um incêndio regular através de metodologias utilizadas por populações anteriores.

O interesse pelo fogo antropogênico surgiu no início da Revolução Industrial, quando houve uma enorme migração da área rural para as cidades, deixando de existir incêndios controlados nos campos.

Isto aumentou a freqüência e a força dos incêndios naturais no entorno das cidades, iniciando a necessidade de desenvolver um método de prevenção.

A ecologia histórica foca no impacto sobre a paisagem através dos distúrbios humanos mediados, como o fogo antropogênico. É uma fusão de interesses ecológicos, geográficos, antropológicos e pedológicos.

CONCLUSÃO

Invasões biológicas são compostas de uma biota exótica que invade uma paisagem e substitui espécies com as quais possuem similaridades em estrutura e função ecológica.

Como se multiplicam e crescem rapidamente, espécies invasivas podem eliminar ou reduzir drasticamente a fauna e flora existente através de vários mecanismos, como a exclusão alimentar por competição direta.

Espécies invasoras, normalmente, se espalham de modo rápido quando não possuem predadores naturais ou quando preenchem um nicho vazio. Essas invasões também ocorrem em contexto histórico e são classificadas como um tipo de distúrbio humano mediado, chamado de invasão mediada por humanos.

Espécies invasoras podem ser transportadas intencionalmente ou acidentalmente. Muitas espécies invasivas surgem nas áreas de embarque ou desembarque de navios, onde são transportadas sem intenção alguma para o seu novo local.

Algumas vezes as populações humanas introduzem espécies intencionalmente em novas paisagens por vários propósitos, desde por aspecto decorativo até como controle erosivo. Essas espécies podem se tornar posteriormente como invasoras e modificam a paisagem drasticamente.

É importante salientar que nem todas as espécies exóticas são invasoras de fato, mas a maioria das novas espécies introduzidas em um ambiente, se tornam invasoras.

Um exemplo de uma espécie invasora que teve um importante impacto na paisagem é mariposa-cigana (?Lymantria díspar?). A sua dieta é baseada em folhas dos climas temperados da Eurásia. Ela foi trazida intencionalmente para os Estados Unidos da América por um entomologista em 1869.

Muitos espécimes escaparam do cativeiro e, desde então, mudaram a ecologia das florestas de coníferas e decíduas na América do Norte através do desfolhamento. Isso leva não somente à perda do habitat natural, mas também outros serviços da floresta como o resgate de carbono e o ciclo dos nutrientes.

Após sua introdução inicial, a continuidade do transporte acidental de suas larvas através da América do Norte, contribuiu para a sua explosão populacional.

Invasões biológicas possuem um considerável efeito sobre a paisagem. O sucesso de eliminar espécie invasivas não é novo. Platão escreveu sobre os benefícios da diversidade biótica e paisagística séculos atrás.

No entanto, a noção de eliminar espécie invasiva é difícil de definir, pois não há nenhuma padronização do tempo de duração que uma espécie deve existir em um ambiente específico até que ela não se seja mais classificada como invasora.

Biólogos europeus definem plantas como arqueotipos se elas existem antes de 1.500 e neófitas se elas chegaram após 1.500.

Esta classificação é arbitrária e alguma espécies não possuem uma origem conhecida, enquanto que outras possuem certos componentes chaves de seu habitat que eles são melhores compreendidos como espécie guia.

Como resultado, sua remoção poderia causar um enorme impacto no ambiente, mas não necessariamente a paisagem retornaria ao seu estado anterior à invasão.

Um claro relacionamento entre natureza e pessoas é expressa através de doenças humanas. Doenças infecciosas podem ser outros exemplos de distúrbio mediado humano, uma vez que os seres humanos são hospedeiros de doenças infecciosas.

Evidências de uma epidemia de doenças estão associado ao início da agricultura e a sedentarização de comunidades. Anteriormente, as populações humanas eram muito pequenas e móveis para que a maior parte das infecções se estabelecessem como doença crônicas.

Assentamentos permanentes, devido à agricultura, permitiram uma maior interação intercomunitária, permitindo que infecções se desenvolvam especificamente como patógenos humanos.

Abordagens holísticas e interdisciplinares dos estudos de doenças humanas tem revelado uma relação recíproca entre humanos e parasitas. A variedade de parasitas encontrados no corpo humano também reflete a diversidade de ambientes que aquele indivíduo reside.

Os Khoisan e os aborígenes australianos têm metade dos parasitas intestinais que os caçadores-coletores africanos e da Malásia possuem, pois estes vivem em uma floresta tropical, rica em espécies tropicais.

Doenças infecciosas podem ser tanto crônicas como agudas, epidêmicas ou endêmicas, afetando a população em qualquer comunidade em diferentes graus.

Assim, o distúrbio humano mediado pode aumentar ou diminuir a diversidade de espécies em uma paisagem, causando mudanças correspondentes à diversidade patogênica.

Referência: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ecologia_histórica

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, 07/10/2016

[cite]

 

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Inclusão na lista de distribuição do Boletim Diário da revista eletrônica EcoDebate

Caso queira ser incluído(a) na lista de distribuição de nosso boletim diário, basta enviar um email para newsletter_ecodebate+subscribe@googlegroups.com . O seu e-mail será incluído e você receberá uma mensagem solicitando que confirme a inscrição.

O EcoDebate não pratica SPAM e a exigência de confirmação do e-mail de origem visa evitar que seu e-mail seja incluído indevidamente por terceiros.

Remoção da lista de distribuição do Boletim Diário da revista eletrônica EcoDebate

Para cancelar a sua inscrição neste grupo, envie um e-mail para newsletter_ecodebate+unsubscribe@googlegroups.com ou ecodebate@ecodebate.com.br. O seu e-mail será removido e você receberá uma mensagem confirmando a remoção. Observe que a remoção é automática mas não é instantânea.

Top