Agronegócio e monoculturas, Parte 2/2, artigo de Roberto Naime

 

Brasnorte, MT, Brasil: Árvore em meio a plantação de soja. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Brasnorte, MT, Brasil: Árvore em meio a plantação de soja. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

 

[EcoDebate] Prosseguindo em sua reflexão, a FASE que é uma organização não-governamental voltada para a promoção dos direitos humanos, da gestão democrática e da economia solidária manifesta que o modelo agrícola aliado à concentração urbana e à massificação das mídias, modificou profundamente o consumo.

Há uma padronização do gosto em escala planetária. Quatro grãos, a saber arroz, milho, trigo e soja, concentram a quase totalidade do consumo de cereais. Inicialmente evoluem do consumo de grãos e produtos locais para um maior consumo de trigo. A seguir, passam do consumo de grãos e para o consumo de carne.

Depois, do consumo de produtos essenciais básicos para o consumo de luxo, explorado como “nicho” por produtores especializados, como camarões, lagostas, frutas exóticas e animais de caça. Essa dinâmica se apoia e favorece em retorno o comércio mundial.

O deslocamento não se dá principalmente entre a zona produtiva e a cidade próxima. O planejamento e a gestão dessa agricultura voltada exclusivamente para o mercado global são desterritorializados.

Com a concentração financeira e industrial nas mãos de multinacionais e bolsas de mercadorias, os centros de decisão, pesquisa e produção de tecnologias se situam em países distantes.

Instâncias internacionais, como a Organização Mundial de Comércio (OMC), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BIRD) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), promovem a desregulação dos mercados e a criação de mecanismos globais que facilitam a livre circulação dos lucros das grandes corporações.

No entanto, estes impactos socioambientais são sentidos pelas populações locais, sendo profundamente territorializados.

Com a introdução de novas atividades agroindustriais e comerciais, desaparecem outras, mais próximas do agricultor. Muda assim a relação entre rural e urbano.

Também a configuração do território se modifica, com o desaparecimento de pequenos núcleos rurais, desertificação humana de amplos espaços físicos, favelização de pequenas e médias cidades e abandono de redes de transporte local em prol de grandes vias de comunicação, com fragmentação sócio-territorial.

O sucesso aparente desse modelo, conquistador do território, detentor de tecnologias sofisticadas, operador de poderosas máquinas, promotor do “country look” e dos rodeios, formadores de uma classe afluente e salvadores do superávit da balança comercial. Isto gera grande força ideológica, geralmente amparada pelo poder político e pela mídia, com o discurso de que “traz desenvolvimento, progresso e empregos”.

O modelo de desenvolvimento hegemônico no Brasil estabeleceu um nível de dependência muito elevado da economia em relação ao mercado externo.

Com a produção de cana-de-açúcar, soja, algodão, carne bovina, carne de frango, árvores para produção de celulose e carvão vegetal, biomassa para fins energéticos, entre outras mercadorias, que a adoção de medidas restritivas ou mesmo de controle sobre sua expansão pode impactar negativamente as economias de diferentes áreas do país.

As monoculturas tendem assim a ser totalmente identificadas com o crescimento e o desenvolvimento, transformando o seu questionamento num grande desafio para o país.

Por outro lado, observa-se também a ampliação e o fortalecimento de uma crítica a esse modelo, protagonizada por agricultores e consumidores preocupados em adquirir produtos limpos e movimentos que defendem uma agricultura que respeite o meio ambiente, observe os direitos humanos e promova a saúde.

O modelo de desenvolvimento dominante no Brasil e no planeta exige, cada vez mais, a apropriação insaciável dos recursos naturais, a promoção irrefreável do consumo, a produção incontornável de lixo.

A autopoiese sistêmica dominante necessita ser alterada. Pois hoje só o consumismo garante a manutenção dos círculos virtuosos da sociedade.

Aumento de consumo gera maiores tributos, maior capacidade de intervenção estatal, maior lucratividade organizacional e manutenção das taxas de geração de ocupação e renda. O consumismo precisa ser substituído pela ideia de satisfazer as necessidades dentro de ciclos.

A civilização humana determinará nova autopoiese sistêmica, na acepção livre das concepções de Niklas Luhmann e Ulrich Beck, que contemplem a solução dos maiores problemas e contradições exibidas pelo atual arranjo de equilíbrio. Para sua própria sobrevivência, o “sistema” vai acabar impondo uma nova metamorfose efetiva.

Um país se constrói na interação de uma população com o território no qual está inserida. E essa interação se dá nas atividades econômicas, sociais, políticas e culturais. A construção do território brasileiro, tal como tem se constituído nas últimas décadas, hipoteca o futuro e cria sérios riscos de insustentabilidade ambiental, reforçando a desigualdade social.

Está em situação de vulnerabilidade a manutenção da democracia e o fortalecimento de suas instituições em um território dominado por interesses econômicos cada vez mais concentrados e hegemonizados por um modelo de produção que destrói a biodiversidade e a sóciodiversidade;

Também se vulnerabiliza o abastecimento de toda a população com água na quantidade e qualidade necessárias e o abastecimento de toda a população com uma produção agropecuária e agroextrativista de qualidade.

Embora variem as monoculturas, existe sempre com a mesma lógica de conjunto. Com a extensão da grande propriedade, expulsão da população tradicional e geração reduzida de empregos, adoção de um modelo tecnológico com impactos negativos sobre o meio ambiente e a saúde e esvaziamento econômico dos pequenos municípios e criação de aglomerações suburbanas que não oferecem serviços nem trabalho.

Também, a perpetuação de oligarquias locais e da ausência do Estado democrático e aprofundamento de um modelo de desenvolvimento a serviço do mercado mundial neoliberal, que gera subordinação da soberania do Brasil aos interesses dos países dominantes.

O questionamento das monoculturas é feito a partir dos impactos ambientais e sociais que provocam, das necessidades de agricultores e agroextrativistas que lutam pelos direitos de sobreviver e produzir ou que propõem projetos alternativos ao modelo agrícola dominante e de outra estratégia de desenvolvimento para o país.

Assim sendo, as opções parecem claras. A diversificação agrícola contra a monocultura, a produção familiar contra o agronegócio e a agroecologia contra o modelo da “revolução verde” e da “revolução genética”.

Poderia se incluir a reforma agrária e a limitação do tamanho das propriedades contra o latifúndio, mas está é uma questão que desperta ideologias.

No entanto, variáveis como a manutenção dos ecossistemas contra a homogeneização do espaço, o reequilíbrio entre o mundo rural e o urbano e entre as grandes cidades e as pequenas e médias contra o esvaziamento do campo e a concentração urbano-industrial.

Além do reconhecimento das terras tradicionalmente ocupadas e o direito de retorno a elas pelos povos e populações tradicionais contra a expropriação dos direitos territoriais e a privatização do meio ambiente e os usos sociais da biodiversidade contra o patenteamento dos recursos genéticos, são fatores relevantes.

Bem como a soberania alimentar e o fortalecimento dos mercados locais e regionais contra o mercado mundial neoliberal e a segurança alimentar e nutricional contra o empobrecimento da dieta alimentar.

Ocorre enfatizar que nada é contra a livre-iniciativa. Que sem dúvida sempre foi e parece que sempre será o sistema que melhor recepciona a liberdade e a democracia. Mas uma nova autopoise sistêmica para o equilíbrio do arranjo social, é urgente e indispensável.

Marcel Mazoyer e Laurence Roudart, Histoire des agricultures du monde: du néolithique à la crise contemporaine, Paris, Seuil, 1997.
http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=115

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, 16/09/2016

Agronegócio e monoculturas, Parte 2/2, artigo de Roberto Naime, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/09/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/09/16/agronegocio-e-monoculturas-parte-22-artigo-de-roberto-naime/.

 

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