Cidade de Pedra Branca, CE, usa peixe como método natural contra Aedes aegypti

 

Revista Radis / Fiocruz

Eles não carregam mais venenos dentro de suas bolsas. Aquele exército de homens de uniforme bege, todos com um embornal a tiracolo, um boné e o rosto queimado de sol, passou a usar uma nova arma contra o mosquito transmissor da dengue: ao invés de larvicida, os agentes de combate a endemias levam consigo uma garrafinha com um peixe de pouco mais de dois centímetros, conhecido na linguagem popular como piaba rabo de fogo ou simplesmente piabinha. É com vida, e não com morte, que a cidade de Pedra Branca venceu o Aedes aegypti: o município, no interior do estado do Ceará, há dez anos não registra um caso de dengue transmitido dentro de seu próprio território.

Pescadas em açudes da região, as piabinhas, peixes usados no controle do Aedes, passam por um período de adaptação à água com cloro em tanques de piscicultura (foto: Radis/Fiocruz)
 
 

Com a ajuda de um espelho na palma da mão, o agente Ileudo Luís faz uso de um recurso natural abundante naquela terra: a luz do sol. Refletida no espelho, a luz permite que ele vasculhe a cisterna de uma casa para conferir se os peixes ainda estão lá. É uma técnica simples, mas que mostra como Pedra Branca aprendeu a usar as condições sociais e ambientais a seu favor no controle do mosquito. Com sua voz de locutor radiofônico, é Donizete Alves, coordenador de endemias do município, um dos personagens principais dessa iniciativa pioneira, que sintetiza numa frase o sucesso da experiência que levou Radis ao sertão cearense: “Quando o Brasil todo ficou assustado com a chegada da zika e da chikungunya, uma cidade pequena no sertão cearense já estava prevenida”, aponta.

“Dá licença, minha senhora” — a equipe de agentes pede para adentrar mais uma casa. Ileudo verifica se não há furos nas telas que recobrem os tambores de água da residência de Antonia Honorato de Souza. Acostumada à falta de água na região, em razão da seca e das dificuldades de abastecimento, a população considera o líquido um recurso valioso e tem o costume de armazená-lo em casa, em tambores, cisternas, baldes, potes, tanques e todo tipo de recipiente. A solução deu ao Aedes o criadouro perfeito para procriar suas larvas: água limpa e parada. Não por acaso, até o início de junho, o Ceará já havia registrado 49.542 casos de dengue, com 33 possíveis mortes relacionadas, ainda em investigação.

Por isso, Pedra Branca investiu em uma estratégia de controle que começa por onde o mosquito nasce: “Nós não deixamos o mosquito criar asas, já debelamos os focos quando ainda são larvas”, conta Donizete. Os tambores de Dona Antonia estão todos vedados com telas verdes que impedem que o inseto alcance o interior e deposite seus ovos. A moradora conta que usa a água armazenada para lavar roupa e, nos meses de maior escassez, também para o consumo da família. Na cisterna, estão os peixinhos que Ileudo localiza com a ajuda do espelho de luz. “A gente faz o que eles ensinam”, comenta a moradora, em relação ao trabalho dos agentes de combate a endemias (ACE) e agentes comunitários de saúde (ACS). A visita é encerrada com a cajuína e o bolo que dona Antonia oferece aos agentes e à equipe de Radis, em sinal de hospitalidade.

Com orgulho, Donizete explica que não foi uma solução mágica que fez que Pedra Branca, uma cidade de pouco mais de 42 mil habitantes, não tivesse um caso de dengue autóctone (transmitida em seu território) nos últimos 10 anos, com o índice de infestação predial (que mede a presença do Aedes) próximo a zero por um período de 14 anos. A iniciativa reúne uma série de esforços ambientais, sociais e políticos que envolvem a população, o poder público e os profissionais de diversas áreas. “Pedra Branca é um município que não trabalha com o químico, somente com o biológico, com o controle dos criadouros, com o monitoramento ambiental, com a participação social, com o trabalho educativo nas escolas, associações e creches, com o apoio da prefeitura e da secretaria municipal de saúde e com a participação da nossa população que interage, juntamente com os ACS, para que esse mosquito venha a ser verdadeiramente debelado”, sintetiza.

Meninas dos olhos

Lá estão eles, nos fundos do hospital municipal de Pedra Branca, guardados como as “meninas dos olhos” de uma experiência de sucesso. Os peixes, que se alimentam das larvas do mosquito transmissor de dengue, zika e chikungunya, são criados em tanques de água e distribuídos para as cerca de 12 mil residências e outros tipos de construções do município. Por dia, saem dali por volta de 300 peixes, pelas mãos dos agentes de combate a endemias, que levam, de casa em casa, o principal instrumento de controle biológico ao Aedes. “É um trabalho simples e custa muito pouco. É simplesmente uma piaba que a gente pega no açude, traz para os tanques e faz uma quarentena para que ela seja adaptada à água com cloro”, conta Donizete.

O método desenvolvido na cidade se baseia em uma tecnologia social bastante conhecida pelos sertanejos: a presença dos pequenos peixes em cisternas e outros reservatórios de água. A secretária de saúde da cidade, Ana Paula Albuquerque, conta que quando criança convivia com os “peixinhos” no tanque de água de sua casa. Mas a implantação do método para a erradicação da dengue, há 15 anos, só foi possível com o apoio da comunidade. “A população vem buscar o peixe e não se opõe ao telamento das caixas d’água”, ressalta. Como Donizete explica, são poucos peixes por caixa dágua (cerca de dois ou três); e não há recomendação para que sejam alimentados: quando não há larvas, eles se alimentam da própria matéria orgânica do depósito de água.

Natalice Fernandes chega com seu filho Pedro Henrique, de oito anos, em busca do “peixinho”. Ela conta que há um mês foi encontrado um foco de larvas do mosquito em sua residência. Desde então, redobrou os cuidados, por recomendação dos ACE. “Orientada pelos agentes, eu comecei a prevenir antes de acontecer, lavando a caixa e colocando o peixe”, relata. Quando um criadouro é descoberto, os agentes fazem o que chamam de “delimitação de foco”: verificam todo o quarteirão e retornam a cada sete dias, por três vezes consecutivas, para garantir a quebra do ciclo biológico do mosquito. “A gente cerca o mosquito de todos os lados”, brinca Anataliel Teixeira, outro agente de combate a endemias, da Fundação Nacional de Saúde (Funasa).

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in EcoDebate, 12/07/2016

 

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