Agricultura sinantrópica, parte II, artigo de Roberto Naime

 

artigo

 

[EcoDebate] Além do conjunto de sementes que foi plantado, Ernst Götsch confia aos dispersores do local a função de completar o sistema. Por sua experiência, ele afirma que a partir do segundo ano começam a ser incorporadas algumas lauráceas, mirtáceas e sapotáceas, todas trazidas por dispersores, pois estes sempre estiveram presentes, assim como as matrizes.

A diferença será que, dessa vez, tais sementes encontrarão as condições adequadas para seu pleno desenvolvimento. Além desse trabalho, para cuja realização Ernst Götsch dedicou em média 30 minutos semanais, não foi feita nenhuma intervenção que demandasse enxada ou instrumento semelhante.

As mandiocas foram plantadas com apenas os pés enterrados em um ângulo de 45o para direcionar a produção das raízes. As sementes das 3 espécies de feijão foram inoculadas com Rhizobium para obter uma melhor capacidade de fixar nitrogênio.

Imediatamente após o plantio, os berços foram cobertos com a matéria orgânica que fora previamente afastada, sempre mantendo um formato côncavo de berço ou ninho pois este formato fisicamente beneficia a entrada de água e mantém a temperatura mais baixa, contribuindo para o crescimento.

Vale aqui uma breve descrição de alguns conceitos-chave que norteiam o pensamento de Ernst Götsch para que possamos voltar ao ponto em que se justificam a escolha das espécies acima citadas. Um dos principais entendimentos que estão diretamente relacionados aos princípios de Agricultura Sintrópica relaciona-se com o fato de que os sistemas tendem sempre a evoluir das formas mais simples para as formas mais complexas

Isto determina a nomenclatura “Sintrópica” que surge como contraposição ao conceito de entropia. Götsch impõe para si e para suas atividades esse imperativo como direcionador de todas as suas ações. Dessa forma, o papel do agricultor seria o de agente que maneja o ecossistema de modo com que o resultado de sua intervenção seja sempre o “aumento da quantidade e da qualidade de vida consolidada tanto no sublocal de sua ação como no planeta por inteiro” (GÖTSCH, 2012).

Este papel do agricultor sendo executado na prática foi o que pôde ser acompanhado no presente caso. Considerando a área que foi base para essa experiência, observou-se que, apesar do pousio de 80 anos, o sistema ainda não conseguia, por si só, recuperar o estágio original em termos de biodiversidade e qualidade do solo.

Na região constatava-se facilmente a presença tanto dos dispersores como das matrizes. No entanto, mesmo assim, nenhuma apresentava saúde e vigor suficientes para sustentar o processo de complexificação do local.

Para Ernst Götsch certamente essa área chegaria a se recompor em algum momento, pois as atividades fotossintéticas estão presentes, o acúmulo de matéria orgânica do feto de gaiola é visível e os meios para que isso aconteça estão disponíveis nas dinâmicas naturais.

ANDRADE e PASINI (2014) ressaltam que a recuperação acontecerá, ainda que para isso leve muitos outros anos, o que para a vida no planeta significa um tempo irrisório. No entanto, para o ser humano, os 80 anos que já se passaram sem produtividade naquela área são um tempo significativo.

E o ponto em que aquele ecossistema se encontra hoje, com as espécies mais exigentes tentando se estabelecer mas sem encontrar condições suficientes para isso, é basicamente o mesmo ponto em que ele já estava 40 anos atrás.

Em situações como esta que emerge a função do agricultor como agente que pode se valer de estratégias que contribuam para a modificação positiva do ambiente, otimizando os processos de vida e promovendo a recuperação tanto da biodiversidade quanto da qualidade do solo, em um espaço de tempo consideravelmente reduzido em comparação com a regeneração que ocorre durante o pousio.

Como subproduto dessa interação, temos a produção de alimentos e o ser humano reintegrado ao meio ambiente do qual ele faz parte.

Uma das estratégias utilizadas por Ernst Götsch para estimular o sistema a reagir à condição de degradação na qual se encontra é justamente a introdução de espécies oriundas de ecossistemas menos privilegiados no que diz respeito à disponibilidade de água e nutrientes.

A presença dessas espécies menos exigentes no início do processo é o que garante o estabelecimento das outras espécies mais exigentes. O manejo adequado e as podas regulares garantem o aporte de matéria orgânica e promovem a cooperação entre todas as espécies, sendo que cada uma exerce sua função em seu determinado espaço-tempo.

ANDRADE e PASINI (2014) asseveram que não há que se preocupar com a ocupação da acácia, por exemplo, pois ela naturalmente irá cumprir o seu ciclo de vida, que pela experiência de Götsch é de 7 a 10 anos quando dentro dos plantios.

Após esse período, que será muito bem aproveitado pelo sistema considerando-se sua enorme capacidade de mobilização de nutrientes e de biomassa, a acácia irá se retirar da área que, a essa altura, já terá outras árvores de grande porte para ocupar o seu lugar.

É importante lembrar que a fama de “invasora” geralmente associada à acácia está relacionada a sua capacidade de “invadir” áreas abertas, áreas degradadas, o que é uma característica bem vinda quando o interesse é reflorestar. “Eucalipto não é o mal em si, acácia não é o mal em si, o modo de plantá-los é que pode ser o mal” (GÖTSCH, 2012).

Rotular espécies de maneira obtusa só faz com que as preocupações que deveriam recair sobre o modo como elas têm sido cultivadas se diluam em preconceitos que, na melhor das hipóteses, não têm finalidade alguma.

PENEIREIRO, F. M. Sistemas Agroflorestais dirigidos pela sucessão natural: um estudo de caso, São Paulo. 1999. 13 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Florestais) – Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Universidade de São Paulo, Piracicaba. 1999.

GÖTSCH, E. Projeto Agenda Götsch, Bahia, 2012. Disponível em http://agendagotsch.com/texts/, acesso em: 10 agosto 2014.

ANDRADE, Dayana Velozo Pastor PASINI, Felipe dos Santos. Implantação e Manejo de Agroecossistema Segundo os Métodos da Agricultura Sintrópica de Ernst Götsch. Cadernos de Agroecologia – ISSN 2236-7934 – Vol 9, No. 4, Nov 2014

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

Nota da Redação: Sugerimos que leiam, também, o artigo anterior desta série:

Agricultura sinantrópica, parte I

in EcoDebate, 05/05/2016

Agricultura sinantrópica, parte II, artigo de Roberto Naime, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 5/05/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/05/05/agricultura-sinantropica-parte-ii-artigo-de-roberto-naime/.

 

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