O colapso da Arábia Saudita é inevitável? artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

“It took us 125 years to use the first trillion barrels of oil.
We’ll use the next trillion in 30”.
Cambridge Energy Research Associates

 

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[EcoDebate] A Arábia Saudita, mais que um país é o sobrenome de uma família. A família Saud manda e desmanda em toda a nação, que tem instituições democráticas frágeis e uma sociedade civil desempoderada e praticamente sem nenhuma liberdade de expressão, organização e manifestação. As mulheres sauditas carecem totalmente de autonomia e nem podem dirigir carro. Embora a Arábia Saudita tenha uma densidade demográfica muito baixa é um dos países com menor biodiversidade e biocapacidade, tendo poucas áreas agricultáveis e pouca água, mas muito deserto no solo e muito petróleo no subsolo. A pegada ecológica per capita do país era de 3,39 hectares globais (gha) em 2008, para uma biocapacidade per capita de apenas 0,65 gha, de acordo com o relatório Planeta Vivo, da WWF.

Aproveitando a riqueza gerada pela exportação da energia fóssil acumulada durante milhões de anos, o país apresentou o maior crescimento demográfico relativo do mundo nos últimos 60 anos. A população era de 3,1 milhões de habitantes em 1950 e passou para 27,5 milhões de habitantes em 2010. Um crescimento de 9 vezes em 60 anos. A divisão de população da ONU estima um volume populacional, em 2050, de 51 milhões na hipótese alta, 45 milhões na média e 39 milhões na hipótese baixa. Para 2100, as 3 hipóteses são: 68 milhões, 42 milhões e 25 milhões de habitantes. A taxa de fecundidade total (TFT) saudita, no quinquênio 1950-55, era extremamente alta, estando em 7,2 filhos por mulher e ficou neste patamar até 1980-85. Da segunda metade dos anos noventa houve uma queda rápida da fecundidade e a TFT caiu para 3 filhos por mulher no quinquênio 2005-10. Os dados mostram que a Arábia Saudita teve um grande crescimento demográfico, mas também um grande crescimento econômico, pois houve grande queda da mortalidade infantil, rápido aumento da esperança de vida e melhoria geral do padrão de vida da população.

Porém, este alto crescimento demográfico e econômico (demo-econômico) teve como base a riqueza acumulada no subsolo durante milhões de anos, tanto em termos de petróleo, quanto de água acumulada nos aquíferos fósseis. Esta riqueza, contudo, é finita e já tem prazo para deixar de gerar tanta riqueza. A sobre utilização dos aquíferos esgotou os estoques de água e a Arábia Saudita vai ter que abandonar seus projetos de irrigação, passando a comprar quase todo o alimento necessário. O governo utilizou a riqueza da exportação de petróleo para construir cidades altamente dependentes dos combustíveis fósseis. Mas a queda do preço do petróleo está colocando todo o projeto saudita em perigo.

Segundo o FMI, a Arábia Saudita poderia queimar seus ativos financeiros dentro de cinco anos. O déficit orçamentário de 2015 foi de 21% do PIB e deve ficar em 20% em 2016. A Agência Monetária da Arábia Saudita retirou US$ 70 bilhões em fundos administrados por instituições financeiras no exterior. Suas reservas internacionais caíram mais de US$ 150 bilhões, após a queda do preço do petróleo, reduzindo o montante das reservas para US$ 548 bilhões.

Segundo Nafeez Ahmed, no artigo “The collapse of Saudi Arabia is inevitable” (28/09/2015) considera que o colapso da Arábia Saudita é inevitável. Em setembro de 2015 um membro sênior da família real saudita pediu uma mudança na liderança para afastar o colapso da Arábia Saudita. Em uma carta que circulou entre os príncipes sauditas, o autor, um neto do falecido rei Abdulaziz Ibn Saud, culpou o rei Salman pela criação de problemas sem precedentes, que ameaçam a sobrevivência da monarquia. Como muitos países da região, a Arábia Saudita está à beira de uma tempestade perfeita de desafios interligados, e se a história é referência para julgar, será a ruína da monarquia na próxima década.

O maior elefante na sala é o petróleo, que é fonte primária de receitas da Arábia Saudita. Nos últimos anos, o reino foi bombeando petróleo em níveis recordes, para sustentar a produção, mantendo os preços do petróleo em baixa, buscando ganhar margens maiores do mercado. Mas capacidade ociosa da Arábia Saudita para bombear o óleo só pode durar pouco tempo. Um estudo novo da Petroleum Science and Engineering antecipa que a Arábia Saudita irá experimentar um pico em sua produção de petróleo, seguido de declínio inexorável, em 2028.

A questão fundamental não é pico da produção de petróleo sozinho, mas a capacidade de converter a produção em exportações, contra as crescentes taxas de consumo interno. De 2005 a 2015, as exportações líquidas sauditas têm experimentado uma taxa de declínio anual de 1,4%. Um relatório do Citigroup previu recentemente que as exportações líquidas iria despencar para zero nos próximos 15 anos. Isto significa que as receitas do Estado sauditas, 80% dos quais vêm da venda de petróleo, estão caindo e em fase terminal.

Os dados da Organização Mundial do Comércio mostram que as exportações de petróleo da Arábia Saudita tiveram dois ciclos de alta que foram nos períodos de 1974-81 e 2004-2013. Já as importações tiveram um aumento expressivo durante todo o período, mas especialmente a partir de meados da década de 1990. O saldo comercial saudita médio estava na casa de US$ 200 bilhões ao ano entre 2008 e 2014. Mas com a queda do preço do petróleo e o aumento da demanda interna, o saldo comercial da Arábia Saudita praticamente foi zerado em 2015 e pode ficar negativo em 2016. Em termos de percentagem das exportações mundiais os sauditas passaram de 0,75% em 1970 para 6% em 1981, depois caiu para 0,71% em 1998, subiu para 2,1% em 2012 e caiu para 1,2% em 2015. Impressionante que a Arábia Saudita teve um superavit comercial acumulado de 2000 a 2015 de cerca de US$ 2 trilhões. Mas, o que os dados mostram é que a capacidade de exportação está diminuindo e a demanda de importações está aumentando. Pode ser que 2016 apresente um primeiro déficit comercial desde 1948. Uma crise séria já se avizinha no horizonte próximo.

 

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A pressão sobre as finanças do reino começou a ficar clara quando o governo anunciou um atraso de oito anos para seu programa de energia solar. Para cobrir os crescentes déficits orçamentários, a abordagem do rei Salman foi acelerar pedidos de empréstimos. Mas o que acontecerá quando, ao longo dos próximos anos, as reservas se esgotarem, os aumentos de dívida explodirem, enquanto as receitas do petróleo continuarem caindo?

Ainda segundo Nafeez Ahmed, tal como acontece com os regimes autocráticos como Egito, Síria e Iêmen – todos os quais estão enfrentando vários graus de agitação interna – um dos primeiros corte será nos subsídios domésticos de luxo. Mas a manutenção dos subsídios generosos para habitação, alimentação e outros itens de consumo, desempenhou um papel importante na defesa contra o risco de agitação civil. Como as receitas são cada vez mais escassas, a capacidade do reino para manter uma a dissidência interna sobre controle reduziu. Cerca de um quarto da população saudita vive na pobreza. O desemprego está em cerca de 12% e afeta principalmente os jovens (30% dos quais estão desempregados). Para piorar a mudança climática está aumentando os problemas econômicos do país, especialmente em relação à comida e água.

Também o livro, On Saudi Arabia: Its People, Past, Religion, Fault Lines and Future, Karen Elliot House apresenta um quadro de crise econômica e política da monarquia absolutista da Arábia Saudita, com crescimento das tensões e frustrações internas de uma população jovem que não encontra empregos e de uma país que depende da força de trabalho de imigrantes. A combinação do fim das exportações de petróleo com crise política pode ser um barril de pólvora para a Arábia Saudita e todo o Oriente Médio, com consequências imprevisíveis para o resto do mundo.

Nota-se que a produção de petróleo saudita está estagnada em torno de 10 milhões de barris dia, desde 1980. Mas o consumo multiplicou por cinco vezes, passando de 600 mil barris dia em 1980 para quase 3 milhões de barris dia em 2013. Como o reino saudita investi muito em novas cidades, em prédios faraônicos (como o edifício de mil metros de altura) e numa população em constante crescimento, a perspectiva é que o consumo de petróleo cresça, a produção diminua (devido ao pico de Hubbert) e as exportações devem se reduzir acentuadamente.

 

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Agora em abril de 2016, a Arábia Saudita disse que planeja lançar uma oferta pública inicial de ações da companhia petrolífera estatal, a Saudi Aramco. Assim, a monarquia pretende criar o maior fundo soberano do mundo, para não depender mais do petróleo como a base produtiva da economia, como disse o príncipe Mohammed bin Salman, o segundo na linha de sucessão do trono, em entrevista à Bloomberg. O país pretende diversificar os investimentos. Mas há muitas dúvidas na viabilidade deste projeto.

Artigo de Sarah Chayes e Alex de Waal, “Start Preparing for the Collapse of the Saudi Kingdom” (16/02/2016) também vai na linha do colapso inevitável. Artigo de Sarah Chayes e Alex de Waal, “Start Preparing for the Collapse of the Saudi Kingdom” (16/02/2016) também vai na linha do colapso inevitável e diz que o Estado Saudita se assemelha a uma organização criminosa e dominada pelo extremismo Wahhabi. Os autores dizem que já passou da hora dos EUA se prepararem para o colapso do reino saudita. A execução do proeminente clérigo xiita Nimr al-Nimr causou revolta e protestos em comunidades xiitas pelo Oriente Médio.

Com os bilionários sauditas esbanjando e desperdiçando suas riquezas na Europa (como o príncipe Turki Bin Abdullah que levou para Londres seus carros folheados a ouro para se divertir com a família e amigos) e com a Arábia Saudita e o Irã se confrontando diretamente ou por procuração no Iêmen e na Síria, a escalada militar se expande e atinge níveis perigosos.

Enquanto isto a luta entre facções dentro da família real, num quadro de queda do preço do petróleo e de crescentes déficits públicos, ameaça implodir o Reino e jogar o Oriente Médio e o mundo em convulsão.

Referências:

ALVES, JED. O edifício de 1 km de altura e o pico do petróleo na Arábia Saudita, Ecodebate, RJ, 23/05/2016

Nafeez Ahmed. The collapse of Saudi Arabia is inevitable, Middle East Eye, 28/09/2015

Sarah Chayes and Alex de Waal. Start Preparing for the Collapse of the Saudi Kingdom. The Atlantic, 16/02/2016

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, 15/04/2016

O colapso da Arábia Saudita é inevitável? artigo de José Eustáquio Diniz Alves, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/04/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/04/15/o-colapso-da-arabia-saudita-e-inevitavel-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

 

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2 comentários em “O colapso da Arábia Saudita é inevitável? artigo de José Eustáquio Diniz Alves

  1. Para resolver o problema da água, a Arábia Saudita está construindo centrais de dessalinização por energia solar de nova geração.

Comentários encerrados.

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