Cadê o legado esportivo da Olimpíada do Rio de Janeiro? artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

Santos Junior, Orlando A. Dossiê das Violações do Direito ao Esporte e à Cidade. Cadê o legado esportivo da Olimpíada do Rio de Janeiro? Observatório das Metrópoles, Rio de Janeiro, 2015
Santos Junior, Orlando A. Dossiê das Violações do Direito ao Esporte e à Cidade. Cadê o legado esportivo da Olimpíada do Rio de Janeiro? Observatório das Metrópoles, Rio de Janeiro, 2015

 

[EcoDebate] O sonho do Brasil grande faz parte da história brasileira. Como diz o hino nacional, o Brasil é o gigante “deitado eternamente em berço esplêndido”. Na época dos governos militares se falava do “Brasil potência”. Mais recentemente, os últimos governos brasileiros retomaram o “sonho do Brasil grande” e sem miséria.

Várias ilusões foram vendidas ao povo brasileiro. Uma ilusão que dificilmente será realizada é o de participar, como membro permanente, do Conselho de Segurança da ONU. Outro sonho que fica cada vez mais distante é o de ser a 4ª economia do mundo, como almejava o ex-ministro Guido Mantega. Também está difícil acabar com a pobreza, a miséria, a violência e a falta de saneamento básico. Mas dois sonhos menores foram realizados na busca de grandes eventos midiáticos e espetaculosos: o primeiro foi sediar a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e o segundo foi sediar as Olimpíadas de 2016. Incrível ter estas metas num momento em que os escândalos de corrupção da FIFA e os escândalos dos dopings de atletas olímpicos são coisas que desmistificam estes grandes eventos e desvelam a face criminosa e mal cheirosa do esporte, que nada tem de saudável nestes casos.

O legado da Copa do Mundo de futebol, além da derrota histórica de 7 x 1 para a Alemanha, se deu nas áreas das dívidas e dos “elefantes brancos”. Os turistas que vieram ao Brasil em 2014 vieram em número muito abaixo do esperado e os recursos gastos no país foram mínimos (vieram muitos “mochileiros e farofeiros” deixando poucas divisas durante o evento). O resultado é que a balança de turismo do Brasil foi deficitária em US$ 20 bilhões, em 2014. A maioria das obras de infraestrutura não ficaram prontas. Muitas das arenas superfaturadas deixaram uma dívida enorme e estão subutilizadas. As arenas de Brasília, Manaus, Cuiabá e Natal possuem um custo muito alto de manutenção, mas estão às moscas pois não há times locais nas principais divisões do futebol brasileiro. Estas arenas funcionam como monumentos ao desperdício e à irresponsabilidade com o dinheiro público. O legado da copa é horrível e está relatado mais nas páginas policiais do que nos anais dos eventos positivos.

Arlei Damo e Ruben Oliven (2013) dizem sobre a Copa 2014: “O governo federal foi bastante criterioso na hora de liberar recursos via BNDES e Caixa Econômica Federal, mas não impediu a consecução de certos projetos faraônicos, como o Estádio Nacional Mané Garrincha, além de ter fomentado, por razões eleitorais, a ampliação das cidades-sedes – a FIFA considerava ideal um número entre 8 e 10, mas acabaram sendo 12. As críticas aos gastos públicos vieram um pouco tarde para impedir os projetos inconsequentes, mas o fato de o futebol ser um tema popular e os gastos abusivos serem fl agrantes universalizou o debate sobre a marcação das fronteiras entre o público e o privado, tão cara à constituição do Estado brasileiro. Em que pese o alto custo econômico, a popularização desse debate talvez seja o maior legado dos megaeventos para o Brasil” (p. 59).

O legado das olimpíadas não será muito diferente. Neste momento em que o país vive as epidemias da Zika, Dengue e Chikungunya, a cidade do Rio de Janeiro não consegue resolver os problemas de saneamento básico e da poluição de suas águas e terras. Algumas competições serão realizadas na Marina da Glória e as Praias do Flamengo e Botafogo, locais com forte despejo de esgoto sem tratamento e de onde sairão os barcos para as provas. O rio Carioca que foi tão importante, durante séculos para a oferta de água potável para a cidade maravilhosa se tornou, hoje em dia, uma “lingua negra” que carrega o esgoto para o mar e para a baia da Guanabara, que já foi muito cantada em prosa e verso e é parte constitutiva da “Cidade Maravilhosa”. Contudo, a baia tem sofrido com o lixo e a poluição que recebe dos rios/esgotos e se tornou um grande pinico, uma área de descarte da sujeira de toda a região metropolitana do Rio de Janeiro. A baia, recebe em média 10 mil litros por segundo de esgoto sem tratamento. Isto destrói a vida marinha e espalha o odor fétido por toda a região.

O dinheiro das obras cai no “ralo” e o esgoto não chega às estações de tratamento. As redes coletoras não foram construídas. Algumas estações foram inauguradas diversas vezes, mas até hoje não funcionam. Os lixões no entorno da baía só agravam a situação, com a liberação do chorume. O quadro não é diferente nas lagoas da Barra e de Jacarepaguá, onde predominam Ilhas de lixo e lodo, mau cheiro, água preta e pastosa. São lagoas tomadas de esgoto, ou verde florescente, coberta de cianobactérias. Enquanto isso, garrafas PET e sacolas plásticas são o de menos, pois há também sofás, pneus, para-choques de carros, etc.

Em entrevista ao site IHU, a economista Sandra Quintela faz uma crítica aos grandes eventos da sociedade do espetáculo: “No caso das Olimpíadas, a cidade do Rio de Janeiro quadruplicou seu orçamento nesse último período, não a partir da arrecadação de impostos, mas por um processo de endividamento do município. Agora os recursos estão chegando para a realização das obras, há um incremento da construção civil e de outras áreas, mas o impacto que isso vai gerar nas contas públicas em médio e longo prazos ainda não temos condições de mensurar”. Além do desequilíbrio financeiro, a economista cita o processo de privatização das cidades como sendo o resultado mais perverso do modo de conduzir a promoção desses eventos no país. “A reorganização das metrópoles a partir desses megaeventos esportivos visa exatamente privilegiar a especulação imobiliária e a privatização da cidade em todas as dimensões, por um processo brutal de exclusão e gentrificação em nome da ‘cidade produto’, da ‘cidade mercadoria’, que precisa ser vendida como vitrine para esses eventos” (IHU, 2016).

As Olimpíadas atuais são muito diferentes dos jogos de Olímpia, há 2500 anos na Grécia. Naquela época existia o lema “corpo são, mente sã”. Atualmente a realidade é corpo bombado e drogado e mente pirada atrás de promoção e o dinheiro da sociedade do espetáculo. Hoje muitos atletas de ponta usam drogas em busca de marcas para conseguir patrocínios de empresas que buscam lucro. Assim, atletas e empresas se unem para acumular capital pessoal e empresarial usando o nome do ideal olímpico.

A pesquisa “Jogos Olímpicos – percepção e engajamento”, da Hello Research, divulgada no site HuffPost Brasil, mostra que a Olimpíada do Rio de Janeiro parece não empolgar em nada o brasileiro. Faltando 150 dias para a abertura do maior evento esportivo do planeta, apenas 24% se dizem animados com os Jogos. Além da falta de ânimo, para 82% dos entrevistados, o dinheiro investido nos Jogos Olímpicos deveria ser empregado na solução de problemas reais para ajudar a população. E 75% acredita em desvios de verba pública nas obras.

O Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro – verificando as denúncias de violações do direito à cidade, vinculadas ao legado esportivo da Olimpíada do Rio de Janeiro – visitou e analisou os seguintes equipamentos esportivos: Estádio de Remo da Lagoa, Campo de Golfe (Barra da Tijuca), Parque Olímpico (Barra da Tijuca), o Maracanã, o Estádio de atletismo Célio de Barros, o Parque Aquático Júlio Delamare, e a Marina da Glória (Aterro do Flamengo). A principal conclusão do “Dossiê das Violações do Direito ao Esporte e à Cidade” pode ser assim ser resumida em um parágrafo:

“É neste contexto que o Comitê Popular pretende, com este Dossiê, denunciar o processo de privatização de diversos espaços públicos e de violação dos direitos ao esporte e à cidade, o que se constitui um elemento central do modelo elitista e desigual de cidade que vem sendo implementado pela Prefeitura do Rio de Janeiro, sob a “cortina de fumaça” da Olimpíada 2016. Este processo revela uma intrínseca relação entre a violação do direito ao esporte e as violações dos direitos à moradia, ao trabalho, ao meio ambiente, e à cidade, promovidas pela Prefeitura do Rio. Ao olhar o processo de preparação da cidade para as Olimpíadas, é possível afirmar, com decepção, Rio 2016: um legado de violações!”

Finalizando e reforçando a conclusão do relatório – Rio 2016: poluição, endividamento, imobilidade urbana e um legado de violações!

Referências:

ALVES, JED. As Olim-piadas do Pinicão da Guanabara. Ecodebate, RJ, 25/04/2015

DAMO, Arlei, OLIVEN, Ruben. O Brasil no horizonte dos megaeventos esportivos de 2014 e 2016. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 19, n. 40, p. 19-63, jul./dez. 2013

HuffPost Brasil. Para 82% dos brasileiros, dinheiro da Olimpíada deveria ser investido de outra forma, aponta pesquisa, 11/03/2016

Santos Junior, Orlando A. Dossiê das Violações do Direito ao Esporte e à Cidade. Cadê o legado esportivo da Olimpíada do Rio de Janeiro? Observatório das Metrópoles, Rio de Janeiro, 2015

Sandra Quintela. Jogos Olímpicos no Brasil: A cidade na vitrine e os cidadãos do lado de fora, IHU, 22/02/2016

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, 16/03/2016

"Cadê o legado esportivo da Olimpíada do Rio de Janeiro? artigo de José Eustáquio Diniz Alves," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/03/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/03/16/cade-o-legado-esportivo-da-olimpiada-do-rio-de-janeiro-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

 

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