Uso de defensivos na região de Jacobina, na Bahia, é preocupante, artigo de Gervásio Lima

agrotóxicos

 

Agrotóxicos. Foto de Gervásio Lima
Agrotóxicos. Foto de Gervásio Lima

 

[EcoDebate] Os defensivos agrícolas, chamados também de agroquímicos e agrotóxicos, são produtos destinados ao uso nos setores de produção, armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, nas pastagens e na proteção de florestas nativas ou implantadas e de outros ecossistemas. Também são usados em ambientes urbanos, hídricos e industriais, com a finalidade de alterar a composição da flora e da fauna, de modo a preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos, bem como de substâncias e produtos empregados como desfolhantes, dessecantes, estimuladores e inibidores do crescimento. Os defensivos agrícolas, segundo as formas de aplicação, classificam-se em inseticidas, fungicidas, herbicidas e outros grupos menores, como os raticidas, acaricidas e nematicidas.

Defesa – As discussões a respeito do uso de defensivos agrícolas para a produção de alimentos são diversas. Alguns especialistas afirmam que os defensivos agrícolas quando utilizados de forma correta, seguindo as prescrições dos fabricantes, não causam danos à saúde humana, enquanto outros concluem que estes produtos interferem na saúde, podendo ocasionar sérios problemas aos usuários destes alimentos. De acordo com dados disponibilizados pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva, (Abrasco), Conselho Nacional de Saúde Alimentar e Nutricional (Consea) e a Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), em média, cada brasileiro ingere 5,2 litros de veneno por ano. Conforme estes órgãos, a intoxicação e contaminação de pessoas e animais, do solo e da água estão comprometendo a qualidade alimentar, a saúde humana e a sustentabilidade de diversos biomas.

Doenças – Quem consome os produtos contaminados podem sentir tontura, fraqueza, dor abdominal, convulsões, além de causar doenças no fígado, rins, disfunções hormonais, contaminação de leite materno, má formação do feto e dificuldades no desenvolvimento das capacidades cognitivas, além de serem substâncias possivelmente carcinogênicas. Segundo o Instituto Nacional do Câncer, o uso do agrotóxico é associado ao aumento da incidência da doença no país. O contato com as substâncias pode causar também distúrbios emocionais, enxaqueca, náuseas, irritação na pele, fadiga, entre outras doenças graves.

Conforme a Anvisa os alimentos mais contaminados com o uso de agrotóxicos são: morangos, pimentão, tomate e pepino. Na Bahia a região Oeste é a mais impactada, e o município de Barreiras tem o maior índice de consumo de ‘veneno’.

Denúncias dão conta que a compra dos agrotóxicos na região de Jacobina é feita em grande parte sem a utilização do receituário agronômico, que se assemelha às receitas para obtenção de remédios pelos pacientes. Essa é uma das normas do Ministério da Agricultura que vem sendo descumprida em todo o Brasil.

Ourolândia – Na cidade de Ourolândia os agrotóxicos são utilizados sem que aconteçam acompanhamentos periódicos de órgãos de controle ambiental e sanitário, o que tem levado trabalhadores rurais a reclamar da maneira que estão sendo expostos aos nocivos produtos. Na maioria das lavouras de tomate e cebola do município a disponibilidade e o uso adequado de equipamentos de proteção individuais, os EPI´s é quase que uma raridade.

Bom exemplo – O produtor rural, Luciano Belitardo Pereira, que cultiva em sua propriedade rural localizada próximo ao Poço Verde, tomate, pimentão, melancia e mamona, garante que utiliza fertilizantes naturais como suplemento no preparo do terreno. Segundo Luciano, que possui formação em técnica agrícola, a não utilização de agrotóxico se dá por vários motivos, entre eles, o de produzir produtos saudáveis, o cuidado com o meio ambiente e o de proteger a sua saúde e a dos seus colaboradores. “O que salva a terra e as pessoas é a adubação verde. Buscamos sempre utilizar aquilo que a própria natureza oferece e outros métodos simples de controle como a armadilha luminosa”, ressaltou Luciano. As armadilhas luminosas são dispositivos para atração e captura de insetos. É um método que se baseia na interrupção do ciclo de vida do inseto no estágio adulto através de seu aprisionamento e morte. Assim, cada fêmea atraída e morta antes da postura representa a eliminação de centenas de ovos que eclodiriam gerando pequenas larvas, caso ocorresse a oviposição. A armadilha serve como referencial para se iniciar o controle do inseto e pode contribuir para a redução de populações de pragas até próximo ao nível de dano econômico, refletindo numa menor utilização de inseticidas.

Trabalhador doente – Ao contrário de Luciano Belitardo, outros produtores de Ourolândia não estão seguindo o que determina as normas e o bom senso, proporcionando sérios prejuízos para a saúde de consumidores e de trabalhadores. Uma das vítimas é o trabalhador rural Janael Messias Ramos, conhecido como ‘Pardal’. Ele esteve internado até a última terça-feira, 2, no Hospital Municipal Antonio Teixeira Sobrinho, em Jacobina, com suspeita de uma grave enfermidade no pulmão. Ele passou mal após manusear agrotóxicos em uma plantação de cebolas. Exames estão sendo realizados para confirmar se o seu problema de saúde está relacionado à exposição direta a agrotóxicos. Familiares de Pardal informaram que foram solicitadas algumas embalagens de defensivos que ele teve acesso para saber como se dará o tratamento. Eles informaram ainda que estava agendada para quarta-feira,3, a transferência de Pardal para um hospital em Salvador, onde o mesmo passaria por um especialista em pneumologia.

Palavra do Executivo Municipal – Estivemos em Ourolândia com a secretária de Agricultura da cidade, Lucileide Ribeiro de Souza. Ela reconhece o problema do uso indiscriminado de agrotóxicos em algumas lavouras do município e a exposição de trabalhadores sem EPI´s aos produtos. Segundo Lucileide, dentro das limitações a pasta que está responsável tem desenvolvido alguns trabalhos com os objetivos de conscientizar, orientar e prestar esclarecimentos sobre o uso e o contato com os agrotóxicos como palestras e mini-cursos. A secretária informou que em parceria com a Adab (Agência de Defesa Agropecuária da Bahia), tem realizado anualmente o recolhimento dos vasilhames, sendo este a única ação prática nas propriedades onde se faz uso dos chamados ‘venenos agrícolas’. Apesar de demonstrar preocupação com o assunto, a Secretaria de Agricultura de Ourolândia reconhece a fragilidade no trato com o problema. “Não temos feito nem autuação e nem fiscalização. Está faltando pernas”, disse.

O secretário do Meio Ambiente de Ourolândia, Mucio Azevedo, também reconhece a ausência do Poder Público com relação ao tema. Segundo Mucio, que esteve afastado das suas atividades para cuidar da saúde, a discussão sobre o agrotóxico no município será pauta das próximas reuniões da pasta, admitindo que as ações da Secretaria sempre foram voltadas para a produção do mármore; ficando outras atividades sem uma atenção devida, até mesmo por conta do pequeno corpo técnico e da necessidade de se realizar estudos ambientais para regularizar a atividade marmífera no município. O secretário

Distribuidor – Procuramos a Geocomercial, uma das empresas que comercializam agrotóxicos em Jacobina. Conforme o gerente da loja, Francisco Vieira, os defensivos só são vendidos para clientes cadastrados e através de receituários agronômicos emitidos por um engenheiro agrônomo próprio. No dia que estivemos na loja, segunda-feira, 1º de fevereiro, o profissional não estava presente. A informação é que a não ser durante às quintas-feiras e sábados pela manhã, nos demais dias o mesmo se encontra em campo. Francisco Vieira disse que o agrônomo passa, inclusive, informações para os órgãos de controle como a Adab e o Crea (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia). “Fazemos coletas de embalagens vazias, realizamos campanhas educativas e recomendamos no momento da venda que seja seguido corretamente o receituário e que se faça uso de EPI´s”, relatou.

Adab – O responsável pelo escritório da Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab), em Jacobina, Silvio Fernando Oliveira de Sousa, informou que o órgão tem realizado com frequência fiscalizações nos locais onde são comercializados agrotóxicos e que anualmente tem visitado comunidades rurais para realizar o recolhimento das embalagens e afins.

História – A utilização dos defensivos na agricultura iniciou-se na década de 1920, época em que eram pouco conhecidos do ponto de vista toxicológico. Durante a Segunda Guerra Mundial foram utilizados como arma química, tendo seu uso se expandido substancialmente a partir de então. No Brasil, foram primeiramente utilizados em programas de saúde pública, no combate a vetores e controle de parasitas, passando a ser utilizados mais intensivamente na agricultura a partir da década de 1960. O Brasil tem se destacado nos últimos anos como um dos principais mercados em âmbito mundial de defensivos agrícolas, assumindo em 2008 a posição antes ocupada pelos Estados Unidos.

Por Gervásio Lima
Jornalista e historiador

 

in EcoDebate, 16/02/2016

[cite]

 

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Um comentário em “Uso de defensivos na região de Jacobina, na Bahia, é preocupante, artigo de Gervásio Lima

  1. Os agrotóxicos além de gravemente lesivos aos seres humanos, quer pelos resíduos que contaminam os alimentos que serão consumidos, quer pela forma irresponsável com que são aplicados nas lavouras, utilizando mão de obra completamente despreparada para o ofício, quase sempre desprotegida e sem o uso dos equipamentos de proteção que a Lei exige, trazem danos irreversíveis às áreas onde são aplicados, degradando o solo com a eliminação dos micro-organismos nele existentes e que são responsáveis pela sua fertilidade e eliminando a flora nativa, defensores naturais das pragas e reduzindo drasticamente a polinização, através das abelhas e outros insetos, responsável pela produtividade da produção agrícola.
    Outra questão grave, que já pode ser observada em Ourolândia, é a produção intensiva em áreas arrendadas, cujo solo logo estará exaurido, e logo abandonado em troca de novas áreas, sempre sob regime de arrendamento. O negócio é tão rentável que nessas áreas são perfurados poços pelos arrendatários, gerando água abundante e viabilizando uma produção irrigada intensiva, com as bombas ligadas 24 horas.
    Esses produtores são migrantes de terras já exauridas, não só na sua fertilidade, como na disponibilidade de água dos seus lenções freáticos, que vêm em busca de terras já desmatadas, como as de Ourolândia, onde as culturas de algodão, sisal e mamona, feijão, etc., se encarregaram e abater a caatinga, deixando-as “prontas” para novas culturas sem investimentos maiores. É a sopa no mel, terras planas, desmatadas, de razoável fertilidade, com água de subsolo abundante (até quando, ninguém sabe?), arrendadas por preços vis, e lucros garantidos, até pelo mercado monopolizado e absoluta leniência e tolerância criminosa das autoridades responsáveis, que a tudo assistem e nada fazem, além do discurso batido que justifica a inoperância pela falta de meios.

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