A crise financeira e a recessão mundial em 2016, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

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[EcoDebate] O ano de 2015 foi o pior ano para o mercado de capital desde 2008, embora o PIB global tenha crescido perto de 3%. Mas o começo de 2016 bateu todos os recordes negativos e foi o pior início de ano da história das bolsas de valores. Tanto o Banco Mundial, quanto o Fundo Monetário Internacional falam em redução do crescimento econômico. Mas os últimos dados mostram que o quadro é mais grave e pode haver uma grande recessão mundial.

Na verdade, a economia internacional está chegando ao fim de um período de crescimento derivado do “super-ciclo das commodities” e do “super-ciclo do crédito”. Numa situação de baixo nível de produtividade e com problemas acumulados ao longo dos anos, tudo indica que uma nova recessão é provável. A América Latina vai ter dois anos seguidos de recessão (2015 e 2016), enquanto o Oriente Médio e Norte da África pode seguir os mesmos passos da América ao sul do rio Grande.

O preço das commodities já vinha caindo desde 2012, mas se acelerou bastante com a queda do preço do barril de petróleo que passou de mais de US$ 100,00 em 2014, para menos de US$ 50,00 em 2015 e para menos de US$ 30,00 no início de 2016. Até o índice do preço dos alimentos da FAO caiu para um nível abaixo do alcançado em 2009. Aparentemente, seria bom a queda do preço da energia e da comida, porém, os países emergentes e em desenvolvimento que dependem das receitas de exportação viram suas receitas caírem e seus problemas se agravarem.

Paises que eram exemplos de emergência – como Brasil, Rússia e África do Sul – estão em severa crise. Os BRICS desmoronaram. Outros países estão em guerra, como a Síria, o Iêmen, a Líbia, o Iraque, a Ucrânia, etc. Ou seja, o chamado “Sul Global” que vinha liderando o crescimento mundial perdeu fôlego. Até a China parece interromper um período excepcional de 40 anos do maior crescimento da história da humanidade. Todos os países exportadores de petróleo e a empresas petrolíferas estão em crise.

Em 2013 escrevi um artigo no EcoDebate, com base em estudo da consultoria Mackinsey, mostrando que as dívidas dos domicílios (famílias), governos, empresas e setor financeiro passou de US$ 87 trilhões no quarto trimestre de 2000 para US$ 142 trilhões no quarto trimestre de 2007 e para US$ 199 trilhões no segundo trimestre de 2014. Em proporção do PIB a dívida total passou de 246% em 2000, para 269% em 2007 e atingiu 286% em 2014. Naquele momento já se falava no estouro da bolha de crédito e em uma nova recessão internacional.

Desde a crise de 2009, os diversos governos dos países desenvolvidos implantaram uma política monetária liberal, com ampla disponibilidade de crédito (Quantitative Easing) e baixas taxas de juros, visando incrementar as taxas de investimento e o crescimento econômico. Mas o que cresceu bastante neste período não foi a economia real, mas sim a especulação do mercado de capitais, como mostra o índice da Bolsa de Valores de Nova Iorque que passou de menos de 7 mil pontos em 2009 para mais de 18 mil pontos em 2015. A tendência agora – depois que o FED iniciou um processo de aumento da taxa básica de juros dos Estados Unidos – é a diminuição da especulação financeira, mas sem a retomada das taxas de investimento. O mercado financeiro está em uma encruzilhada: se os juros ficarem próximos de zero a bolha financeira tende a crescer, agravando a crise financeira futura e se os juros subirem a bolha esvazia. Os últimos dados mostram que a perspectiva é de crise recessiva, queda do valor das ações, aumento do desemprego e queda da renda.

Artigo de Michael Snyder (ainda em dezembro de 2015) mostrava que os 5 maiores bancos nos Estados Unidos (“grandes demais para falir”) tinham exposição a contratos de derivativos acima de 30 trilhões de dólares. Ele mostra que os maiores bancos dos EUA têm coletivamente mais de 247 trilhões de dólares de exposição a contratos de derivativos. Essa é uma quantidade de dinheiro que é mais de 13 vezes o tamanho da dívida nacional dos EUA e é uma bomba-relógio que pode desencadear um Armageddon financeiro a qualquer momento (como parece acontecer neste início de janeiro). Snyder também mostra que, globalmente, o valor nominal de todos os contratos de derivativos em aberto é de 552,9 trilhões de dólares, de acordo com dados do Banco de Pagamentos Internacionais.

O autor gosta de se referir ao mercado de derivativos como uma forma de “jogo legalizado”. Aqueles que estão envolvidos na negociação de derivativos estão simplesmente apostando que algo vai ou não vai acontecer no futuro. Derivados desempenharam um papel crítico na crise financeira de 2008 e devem ter um papel de protagonista nesta nova crise financeira. O bilionário Warren Buffett se refere aos derivativos como “armas financeiras de destruição em massa”.

Desde a última crise financeira, os grandes bancos americanos tornaram-se ainda mais imprudentes. Os seis maiores bancos respondem por cerca de 67 por cento dos todos os ativos do sistema financeiro. Ainda segundo Michael Snyder, os seguintes números revelam uma total imprudência:

Citigroup – Total de ativos: $ 1,808,356,000,000 (mais de 1,8 trilhões de dólares). A exposição total a derivados: $ 53,042,993,000,000 (mais de 53 trilhões de dólares)

JPMorgan Chase -Total de ativos: $ 2,417,121,000,000 (cerca de 2,4 trilhões de dólares). A exposição total a derivados: $ 51,352,846,000,000 (mais de 51 trilhões de dólares)

Goldman Sachs – Total de ativos: $ 880,607 bilhões (menos de um trilhão de dólares). A exposição total a derivados: $ 51,148,095,000,000 (mais de 51 trilhões de dólares)

Banco da América – Total de ativos: $ 2,154,342,000,000 (um pouco mais de 2,1 trilhões de dólares). A exposição total a derivados: $ 45,243,755,000,000 (mais de 45 trilhões de dólares)

Morgan Stanley – Total de ativos: $ 834,113 bilhões (menos de um trilhão de dólares). A exposição total a derivados: $ 31,054,323,000,000 (mais de 31 trilhões de dólares)

Wells Fargo – Total de ativos: $ 1,751,265,000,000 (mais de 1,7 trilhões de dólares). A exposição total a derivados: $ 6,074,262,000,000 (mais de 6 trilhões de dólares)

Até dezembro passado, a grande mídia assegurava de que tudo estava sob controle. Mas sob a superfície, o terremoto estava se formando. Por tudo isto, Snyder termina seu artigo dizendo: “Uma nova crise financeira já começou e ela vai se intensificar em 2016”. Esta conclusão é reforçada pelo fato de que todas as recessões americanas – pós Segunda Guerra – foram precedidas por uma crise na bolsa de valores.

O relatório do FMI, de janeiro de 2016, prevê crescimento de 3,4% da economia mundial em 2016. Mas o FMI sempre coloca as projeções para cima e depois vai ajustando ao longo do ano. O megainvestidor George Soros (uma das 62 pessoas mais ricas do mundo) considera que a crise de 2016 é semelhante a crise de 2009 e considera que a União Europeia está à beira do colapso e a China está em processo de “aterrizagem forçada”. Ele prevê um ano muito mais difícil do que as estimativas do FMI. Analistas de mercado, como Brett Arends, consideram que o índice “Dow Jones Industrial Average” pode cair até 5.000 pontos, do nível atual, e ainda não ser “barato” em comparação com as tendências de longo prazo.

Em artigo de 20 de janeiro de 2016 no New York times, Thomas Friedman disse: “Me chamem para falar sobre o mundo de hoje e posso muito bem arruinar qualquer festa ou jantar. Não é minha intenção, mas acho difícil não olhar ao redor e se perguntar se a recente turbulência nos mercados internacionais não é apenas o produto de tremores, mas sim de mudanças sísmicas nos pilares fundamentais do sistema global, com consequências altamente imprevisíveis”.

Para agravar a situação, o relatório da Oxfam, divulgado antes da reunião anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, em janeiro de 2016, mostra que o poder econômico dos 1% mais ricos do mundo, equivale aos dos 99% restantes da população mundial. Somente a posse de 62 super-ricos, equivale ao patrimônio da metade mais pobre da população mundial (3,6 bilhões de pessoas). Entre 2010 e 2015, a riqueza dos 62 mais ricos aumentou em mais de meio trilhão de dólares para US $ 1.76 trilhões enquanto dos 3,6 bilhões de pessoas caiu em um trilhão de dólares.

Diversos pontos de vista do espectro ideológico consideram que o agravamento da crise econômica com aumento da desigualdade social é uma situação explosiva. As três primeiras semanas de janeiro de 2016 vão entrar para a história como o pior começo de ano de todos os tempos para o mercado financeiro e para a economia global. O Brasil que já vinha em crise em 2015 tende a sofrer ainda mais em 2016. Os custos sociais devem ser imensos.

Referências:

ALVES, JED. A dívida de 200 trilhões de dólares e a próxima crise financeira mundial. Ecodebate, RJ, 13/03/2013

ALVES, JED. Crise internacional: dívida de empresas de emergentes quadruplicou. Ecodebate, RJ, 23/10/2015

Michael Snyder. Financial Armageddon Approaches: U.S. Banks Have 247 Trillion Dollars Of Exposure To Derivatives. December 29th, 2015

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, 27/01/2016

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3 comentários em “A crise financeira e a recessão mundial em 2016, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

  1. Que o regime capitalista está moribundo, disto não há dúvida. O que não se sabe, é quando ocorrerá a sua morte. Será ainda nesta primeira década deste século XXI, ou na segunda? Também não se pode dimencionar a amplitude que tomarão os atuais distúrbios socioambientais, até que ele morra e no período posterior à sua morte, enquanto houver sobreviventes da espécie humana.

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