Agroecologia e pesquisa multiestratégica II, artigo de Roberto Naime

 

agroecologia
A agroecologia é um sistema de produção agrícola alternativa que busca a sustentabilidade da agricultura familiar resgatando práticas que permitam ao agricultor pobre produzir sem depender de insumos industriais como agrotóxicos, por exemplo. – Charge por Latuff, no Humor Político

 

[EcoDebate] LACEY que é pesquisador do “Swarthmore College” na Pensylvania, Estados Unidos da América. Em 2015 realizou interessante abordagem sobre agroecologia e pesquisa multiestratégica, salientando o fato de que a pesquisa conduzida sob as estratégias agroecológicas serve para ilustrar a fecundidade da pesquisa multiestratégica e apontando a relevância da agroecologia no Brasil, bem como sua crescente importância na produção dos alimentos no mundo inteiro.

LACEY (2015) sustenta que os arranjos de interações entre as atividades científicas e os valores existenciais são consistentes com a existência de uma variedade de estratégias fecundas, inclusive com algumas estratégias sensíveis ao contexto.

A agroecologia (AE) está vinculada tanto a uma forma de lavoura quanto a um corpo de pesquisa e conhecimento científico que produz está construção sistêmica e multifatorial. A agricultura “convencional” é aquela orientada ao uso intensivo de agrotóxicos e transgênicos incorporam em elevada expectativa, os valores do capital e do mercado.

Já a meta da agroecologia é a de satisfazer, simultaneamente e em um equilíbrio determinado pelos próprios agricultores e suas comunidades, uma variedade de fins, os quais refletem a perspectiva de valores da justiça social, democracia participativa e sustentabilidade, além de produzir alimentos saudáveis. E também objetiva obter produtividade, sustentabilidade dos agroecossistemas, a proteção da biodiversidade, a segurança alimentar e a saúde das suas comunidades e seus arredores, e o fortalecimento da sua cultura, valores e bem-estar.

Muitas das tecnologias utilizadas na agricultura capital-intensiva não podem ser inseridas na agroecologia. No caso da transgenia, isso acontece porque, por um lado, o uso dos transgênicos requer condições de cultivo de monoculturas e a disponibilidade de grandes quantidades de insumos e agrotóxicos. Estas condições determinaram cenários que solaparam as condições exigidas para uma agricultura sustentável.

Sem falar que a transgenia é hoje controlada pelos direitos de propriedade intelectual, que enfraqueceriam o agenciamento dos agricultores que aspiram manter seu próprio controle sobre as condições de produção e distribuição.

Os tipos de tecnologia utilizados na agroecologia refletem as condições culturais, geográficas e ecológicas da lavoura. O contexto é crucial. Por isso, a pesquisa científica, que pode produzir conhecimento relevante às práticas da agroecologia, precisa adotar variantes que informem peculiaridades locais do desenvolvimento das técnicas agrícolas tradicionais, que eram informadas pelo conhecimento local.

Por exemplo, a rotação e diversificação das culturas, o manejo ecológico das pragas o cultivo em policulturas com as variedades e espécies diferentes organizadas em arranjos apropriados, o uso de adubos verdes, a reciclagem dos nutrientes, a existência de fertilizantes naturais de fontes acessíveis localmente, e a seleção das safras de sementes para plantações futuras.

Em algumas situações, até mesmo o conhecimento indígena é de grande importância, por exemplo, como o conhecimento que informava a conservação da floresta na região amazônica

Ao mesmo tempo, a pesquisa agroecológica recorre a conhecimento obtido sob condições tradicionais, uma vez que o conhecimento de muitos dos componentes dos agroecossistemas como minerais e bactérias nos solos e outros, derivam de conhecimentos históricos e tradicionais, conforme destaca LACEY (2015).

Juntos, LACEY (2015) pondera que a sustentação é a fecundidade já demonstrada na interação entre estes arranjos de valores e conhecimentos tradicionais e o sucesso atual e as promessa das práticas da agroecologia. Estes fatores determinam que este método de produção tão vinculado a práticas existenciais, explicam os motivos da agroecologia ser um componente integral das políticas e práticas de “soberania alimentar”, propostas pelo movimento rural internacional, Via Campesina, e outros grupos ativistas.

São estas reflexões, que fogem a parâmetros lineares e cartesianos que se elabora quando se questiona os processos de evolução e seleção natural, meticulosamente abordado e descrito por Charles Darwin, que tem sido responsável ao logo dos tempos pelas modificações naturais dos seres vivos através de processos genéticos como mutações, interações gênicas e outros. Principalmente quando se abordam as relações fragmentárias e utilitaristas de biotecnologia e transgenia. Sem falar no domínio de meros interesses comerciais que hoje parecem ser hegemônicos.

A biotecnologia tem exercido esta função de uma forma que requer reflexões e ponderações. É preciso ter consciência que não existe tecnologia sem risco. Pode nunca haver nenhum problema com tudo que está sendo realizado. Mas podem vir a existir em longo prazo. A filmografia hollywoodiana é pródiga em se inspirar nestas efemérides.

Como se referiu, pode ser que estas substituições dos mecanismos evolutivos naturais, em intervalo de tempo mais representativos, produzam efeitos inesperados e determinem cenários inimagináveis.

Cautela é uma consequência natural da falta de informações verídicas sobre os seus efeitos benéficos e maléficos em prazos longos. E sobre as dificuldades de efetivar simulações dentro de molduras realistas. Parece que culturas tradicionais e conhecimentos indígenas explicitem maus presságios ainda que não fundamentados.

Sem estimular falso alarmismo e sem se tornar arauto de fábulas apocalípticas, o fato é que cada vez mais se precisa propiciar atitudes de humildade diante da complexidade da situação, para que as teorias do risco, tão propagadas por pensadores como Ulrich Beck e outros, permaneçam apenas como miragens possíveis, e não se materializem como em cenários sombrios.

Mesmo que não haja nenhuma restrição às evoluções científicas, não custa nada refletir com todas as partes interessadas que é preciso ter um pouco de humildade nas atitudes. Interferir na seleção natural, sem compreender todas as relações implícitas ou explícitas, e não lineares ou cartesianas da homeostase dos ecossistemas, sejam estes ecossistemas englobando toda a terra ou apenas a um fragmento considerado, parece um pouco pretensioso na atual fase de conhecimentos da civilização humana.

Alterações genéticas para tornar plantas e animais mais resistentes e, com isso, aumentar a produtividade de plantações e criações, é claro que são sempre bem-vindas. Mas com os devidos cuidados da prevenção e precaução. Para não tornar o mundo pior involuntariamente. Para não tornar realidade a prolífica imaginação hollywoodiana, que é fértil em exemplos bizarros.

ALTIERI, M. Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1998.

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LACEY, Hugh A agroecologia: uma ilustração da fecundidade da pesquisa multiestratégica. Estud. av. vol.29 no.83 São Paulo Jan./Apr. 2015

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, 22/12/2015

Agroecologia e pesquisa multiestratégica II, artigo de Roberto Naime, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/12/2015, https://www.ecodebate.com.br/2015/12/22/agroecologia-e-pesquisa-multiestrategica-ii-artigo-de-roberto-naime/.

 

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