Sobre mudanças climáticas e agroecologia, artigo de Roberto Naime

 

agroecologia
A agroecologia é um sistema de produção agrícola alternativa que busca a sustentabilidade da agricultura familiar resgatando práticas que permitam ao agricultor pobre produzir sem depender de insumos industriais como agrotóxicos, por exemplo. – Charge por Latuff, no Humor Político

 

[EcoDebate] GOUZY (2015) é uma das autoras, de uma série de 13 artigos de diferentes indivíduos envolvidos em análises teóricas e experiências práticas de comunidades rurais e dos seus sistemas produtivos, localizados em sete países, a saber, Chile, Estados Unidos, Cuba, Colômbia, México, Espanha e Nicarágua. Onde são realizados arranjos que gerem princípios e estratégias socioecológicas que explicam como comunidades e sistemas produtivos conseguem se recuperar de eventos climáticos extremos.

O enfoque é a busca da fundamentação da resiliência socioecológica através da agroecologia e dos seus princípios. Estes princípios e conceitos apresentados nos trabalhos coletados são de especial interesse para a sociedade atual, que já enfrenta problemas na agricultura, devido às mudanças nos regimes de temperatura e chuvas, comprometendo assim a segurança alimentar de inúmeras comunidades, conforme afirma GOUZY (2015).

Se procura entender as estratégias e a dinâmica da resiliência socioecológica que estas comunidades constroem. Estes sistemas tradicionais são chamados de “patrimônio cultural mundial”, graças ao valor da sua diversidade e às suas adaptações ambientais. São sintetizadas as relações identificadas entre conceitos como resiliência socioecológica e agroecologia e seu papel no desafio da adaptação à realidade de mudança climática global.

A ameaça da mudança climática global preocupa, já que a produção agrícola de todo o mundo poderia ser seriamente afetada com mudanças radicais nos regimes de temperaturas e chuvas, comprometendo a segurança alimentar tanto a nível local como mundial.

Muitos efeitos adversos na agricultura são silenciosos e lentos, mas nem por isso são menos importantes. Por exemplo, a erosão de solos é ligada profundamente tanto às condições locais do clima como às atuações culturais dos grupos humanos que dependem desse solo.

Outro exemplo é a incidência de pragas, já que os efeitos do aquecimento global repercutem também no comportamento das populações de organismos nocivos que coabitam nos sistemas agrícolas. Estes problemas não são isolados e também são consequências dos modelos agrícolas prevalecentes, que ajudam a deteriorar a base dos recursos naturais, reduzir o carbono nos solos e romper equilíbrios ecossistêmicos.

Assim, enquanto o clima está se tornando cada vez mais extremo, os sistemas agrícolas convencionais intensivos se tornam cada vez menos resistentes e mais vulneráveis. Infelizmente, o setor agrícola mais afetado, segundo as previsões, serão os agricultores mais pobres nos países em desenvolvimento, conforme enfatiza GOUZY (2015).

Contudo, existem diversos exemplos de agricultura que alcançam condições que conseguem manter a resiliência dos seus agroecossistemas. É o que ocorre com muitas populações indígenas e camponesas que estão expostas a estas mudanças. Se é verdade que são elas mais vulneráveis por estarem intimamente dependentes dos recursos naturais em ecossistemas marginais, muitas delas estão respondendo positivamente às mudanças, demostrando inovação das comunidades e resiliência dos seus agroecossistemas.

Um exemplo é Cuba, onde os efeitos mais notáveis da mudança climática são ciclones tropicais cada vez mais frequentes, com longos períodos de seca, chuvas torrenciais em períodos curtos, aumento da temperatura média anual e aumento do nível do mar, entre outras. Mas, neste país têm sido desenvolvidas políticas efetivas de adaptação, redução de riscos e resposta a desastres junto aos camponeses, que podem servir de exemplo a outros países assinala GOUZY (2015).

Particularmente, a agroecologia se interessa por entender a resiliência socioecológica dos agroecossistemas. Ganha destaque a definição que GOUZY (2015) propõem para agroecossistemas: “são sistemas socioecológicos constituídos por sistemas agrícolas e suas interações com os sistemas sociais e ecológicos com os quais se relacionam”.

Por sua vez, o conceito de resiliência socioecológica é abordado. Os componentes e características deste conceito são as estratégias de organização social como redes de solidariedade, intercâmbio de alimentos e outras, utilizadas pelos agricultores para enfrentar circunstâncias difíceis impostas por eventos extremos.

A adaptação sociocultural também é relevante, indicando processos mediante os quais os indivíduos e grupos humanos modificam os seus padrões de comportamento para se ajustar a novas pautas ou normas que imperam no seu meio social. Esta adaptação desenvolve-se em base às habilidades sociais presentes no grupo. Pesquisas antropológicas e agroecológicas têm demonstrado que os conhecimentos locais adquiridos e transmitidos de geração em geração permitem às populações locais lidar com fenômenos e mudanças climáticos e atmosféricos.

GOUZY (2015) argumenta que existem várias razoes de se encontrar maior resiliência nos sistemas agroecológicos camponeses devido à diversificação do sistema, à compensação biológica ou o efeito das medidas preventivas de saneamento e podas, à recuperação biológica por causa da maior diversidade de estratos vegetais, e a recuperação ou resiliência humana fundamentada na família.

Essas interações costumam gerar resiliência mais forte, já que estão diretamente relacionadas com a riqueza de espécies e a possibilidade de transferência de funções ecológicas entre elas. Estes elementos, sucintamente examinados aqui, são parte da análise que a agroecologia faz nos agroecossistemas que estuda.

É defendida a proposta da agroecologia como estrutura para estudar a resiliência socioecológica, já que a mesma se fundamenta na complexidade própria dos problemas da realidade, e torna relevante a importância do papel dos atores envolvidos, que permitem integrar as diferentes formas de conhecimento necessárias para entender a complexidade dos sistemas.

O enfoque agroecológico é mais sensível às complexidades das agriculturas locais, ao ampliar os objetivos e critérios agrícolas para incluir as propriedades de sustentabilidade, segurança alimentar, estabilidade biológica, conservação dos recursos naturais e equidade, junto com a produtividade. A agroecologia pode ser definida como uma transdisciplina, já que o seu objeto de indagação, a resiliência socioecológica dos agroecossistemas, não é abrangido por outras ciências.

É por tais razoes que a agroecologia é a mais apropriada e abrangente transdisciplina para realizar estes estudos, citada por GOUZY (2015). Não só no nível acadêmico e teórico, mas também no nível prático, a agroecologia oferece respostas antes perdidas no universo estreito da especialização do conhecimento e das práticas da agricultura convencional.

Existem problemas ambientais relacionados à agricultura convencional que ainda não foram resolvidos, como a erosão, o desmatamento, a queda dos rendimentos, a dependência de insumos químicos e a perda de diversidade. Por sua vez, a agroecologia pode guiar um desenvolvimento agrícola sustentável, buscando conservar os recursos naturais, manter níveis contínuos de produção, minimizar os impactos no meio ambiente, satisfazer as necessidades de renda e responder às necessidades sociais das famílias e comunidades rurais.

A agroecologia e as suas práticas podem conseguir isso por meio do entendimento e da prática dos princípios agroecológicos. A identificação destes princípios nos diferentes estudos citados é uma contribuição para o entendimento a fundo dos mecanismos de resiliência socioambiental que estuda a agroecologia. Este exercício de transversalização da teoria em diferentes casos convida a cientistas e agricultores à análise lúcida e pertinente da complexidade dos diversos agroecossistemas ameaçados pelas mudanças climáticas.

Que sejam bem-vindos os sistemas agroecossistêmicos que ampliam resiliências em todas as dimensões e são integradores. Que favorecem a permanente busca de equilíbrio ecossistêmico e homeostase planetária. Que se considera os vetores indutores de melhorias da qualidade ambiental e melhoria de qualidade de vida de todas as populações.

GOUZY, Carolina Alzate. Sobre Mudanças Climáticas e Agroecologia. Sustentabilidade em Debate – Brasília, v. 6, n. 1, p. 196-199, jan/abr 2015

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, 15/12/2015

[cite]

 

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