Samarco X ONU: lama inerte ou tóxica? Em quem acreditar? por Rogério Jordão

 

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No dia seguinte ao rompimento da sua barragem em Mariana (MG), em 5 de novembro, a Samarco, mineradora controlada pela Vale e BHP, informou ao público que o rejeito era “inerte” formado em sua maior parte por sílica (areia); esta semana, no dia 25, especialistas da ONU disseram outra coisa: a lama que desce o Rio Doce e atinge o Atlântico é “tóxica”. Conforme se desdobra o maior acidente ambiental brasileiro, em quem acreditar?

O comunicado da ONU, feito a partir de Genebra, na Suíça, surtiu um efeito imediato: a Samarco respondeu. Em uma nota em seu site a empresa rebateu a posição da ONU. Mas ofereceu uma informação nova ao leitor. Vinte dias depois do acidente, a empresa admitiu que, para além da sílica (areia) o rejeito continha “partículas de óxido de ferro” (veja aqui o comunicado). Por que não informou isso antes? De fato, que uma barragem de rejeitos de mineração de ferro não contivesse restos de ferro seria bastante incomum.

Em ocorridos desta dimensão e gravidade, é fundamental que a empresa e autoridades públicas forneçam todas as informações disponíveis, principalmente nas 48 horas iniciais. Diante do desencontro dos relógios, é justo se perguntar: além de água, areia e óxido de ferro, haveria algo a acrescentar?

O comunicado da ONU foi em sentido contrário às afirmações da Samarco. Dizem os especialistas internacionais: “Nova evidência mostra que o rejeito despejado no Rio Doce (…) continha altos níveis de metais pesados e outros elementos químicos tóxicos. Hospitais em Mariana e Belo Horizonte… receberam muitos pacientes”. Para a íntegra em inglês, ver aqui. A Samarco negou estas afirmações, citando laudos que apontavam não ter havido aumento da presença de metais pesados na água.

Em seu comunicado a ONU não cita suas fontes. O que os especialistas internacionais dizem, porém, coincide com exames de água feitos pela prefeitura de Baixo Guandu (ES), quando a água passou por lá algumas semanas atrás, e que indicaram, quando os rejeitos já estavam a algumas centenas de quilômetros de distância do acidente, a presença excessiva de elementos como ferro, arsênio, bário e manganês. Teriam, estes elementos, vindos do rejeito armazenado na barragem ou teriam sido carregados pela lama ao longo do caminho, de forma que compusessem a poluição já previamente existente na água do rio?

Seja como for, a população de Governador Valadares (MG), cidade à beira do Rio Doce, tem hesitado em beber da água que voltou a ser retirada do rio; já em Colatina (ES) o fornecimento continuou suspenso esta semana – e um protesto terminou com oito presos, segundo a imprensa.

O pronunciamento da ONU sobre a lama da Samarco é um sinal da gravidade do acidente ambiental de Mariana (MG) e que este tem repercussões mundiais. Até aqui são 13 mortos, 10 pessoas desaparecidas, e uma lama de restos industriais que se dispersa pelo Atlântico ao mesmo tempo que ainda escorrega, enquanto escrevo, por cidades capixabas à beira do Rio Doce. A história do maior acidente ambiental do Brasil está apenas em seus primórdios – e seus desdobramentos imediatos sequer sumiram no horizonte.

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Rogério Pacheco Jordão, 46, é jornalista e sócio-diretor da Fato Pesquisa e Jornalismo (FPJ), empresa de consultoria nas áreas de pesquisa e editorial.Mestre em política comparada pela London School of Economics (LSE), escreveu o livro ‘Crime (quase) Perfeito – corrupção e lavagem de dinheiro no Brasil’. Paulistano, mora no Rio de Janeiro há mais de década, onde é pai de duas crianças.

Samarco X ONU: lama inerte ou tóxica? Em quem acreditar? por Rogério Jordão, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/11/2015, https://www.ecodebate.com.br/2015/11/30/samarco-x-onu-lama-inerte-ou-toxica-em-quem-acreditar-por-rogerio-jordao/.

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Um comentário em “Samarco X ONU: lama inerte ou tóxica? Em quem acreditar? por Rogério Jordão

  1. O que aconteceu é mais do que trágico, mas não podemos criar pânico nas pessoas desinformadas. A ONU não tem as informações precisas e solta alertas sobre as pessoas, sem o devido conhecimento e informação.
    Sou professor e pesquisador da UFV e estamos a poucos quilômetros de Mariana, onde ocorreu o desastre. Trabalhamos com informações precisas e técnicas. Embora tenhamos convicção do total responsabilidade civil, penal e administrativa das empresas envolvidas, não podemos tolerar pessoas mal informadas que multiplicam alarmes falsos, em nome de uma verdade. A ONU precisa se informar mais, para não tornar péssimo o que já é muito ruim.
    Uma análise por amostragem feita pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) descartou a possibilidade de as mortes de peixes no Rio Doce, conforme registrado após o rompimento da barragem da mineradora Samarco, no início do mês, terem sido causadas por contaminação das águas. A necropsia realizada nos animais apontou asfixia como a razão das mortes dos peixes.
    As nossas pesquisas confirmam estes resultados.
    Onde está a lama tóxica? Quem falou pela ONU?

Comentários encerrados.

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