O fogo na Amazônia, artigo de Raimundo Nonato Brabo Alves

desmatamento e queimada na Amazônia
Foto de arquivo
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[EcoDebate] Biomassa abundante e estiagem prolongada, condições perfeitas para a propagação do fogo na região. A estiagem está tão severa este ano que até a grama na capital paraense entrou em murcha permanente. Isso é raro em Belém que tem por tradição a sua chuva da tarde. Basta uma centelha para o fogo, que pode ser acidental ou criminosa. Até por que de outubro a dezembro atravessamos a temporada das queimadas para o preparo de área, no tradicional processo agrícola de derruba e queima da vegetação na Amazônia.

Nas colônias agrícolas é frequente a ocorrência de fogo descontrolado nas bordas dos roçados. Os agricultores na maioria destas operações não fazem os necessários aceiros, que consiste em retirar das bordas da área derrubada, da vegetação seca, para impedir que o fogo na queimada, se propague para a capoeira ou mata circundante.

Nas regiões de pecuária a pastagem seca se transforma em material de excelente combustão, provocada pelo fogo espontâneo ou criminoso, geralmente originado no pasto que margeia as estradas. Isso nas pastagens cultivadas, pois nos campos naturais os criadores, deliberadamente, tocam fogo nos campos, na expectativa de substituição da forragem lignificada (fibrosa e sem nutrientes para o gado) pela rebrota da pastagem quando as chuvas retornarem.

Os prejuízos são incalculáveis com a perda de lavouras, pastagens para o gado e até mesmo instalações rurais. Já presenciamos a queima de casas de farinha financiadas pelo poder público em colônias agrícolas, em consequência de fogo descontrolado. As perdas materiais vão além, de maneira indireta com o atendimento de milhares de pacientes nos hospitais vítimas de complicações respiratórias, em consequência da propagação de fumaça nos vilarejos e nas cidades amazônidas. Isso quando não são registradas mortes nas estradas com acidentes decorrentes da redução de visibilidade para os condutores.

Dois eventos provocados pelo fogo foram intensivamente divulgados pela mídia no mês anterior. A intensa fumaça originada da queima das matas que circundam a capital Manaus, atormentando a população amazonense com problemas respiratórios e obrigando o corpo de bombeiros a iniciar uma operação inédita de resfriamento com água da mata circundante, a fim de evitar novos focos de incêndio. Outro evento de monta foi o incêndio florestal de difícil combate – consumiu 45% da reserva e se prolongou por dois meses – na Terra Indígena Araribóia no Maranhão. Segundo algumas fontes, de origem criminosa ateado por madeireiros interessados na exploração ilegal de madeira.

Segundos os dados do INPE em tempo real a Amazônia concentra neste momento 35,8% dos focos de incêndio. No cerrado 32%, na mata Atlântica 24,1% e na caatinga 8%. No Brasil em 2013 houve uma redução de 47% nos focos de incêndio em relação ao ano anterior (176.283-92.227). Em 2014 ouve uma elevação de 71% (92.227-158.600). Em 2015 até o início de novembro, já ouve uma elevação de 22% em relação ao ano anterior (158.600-194.023) segundo os dados do INPE. Essa variação de maior ou menor intensidade de fogo depende da combinação de fatores como: maior ou menor estiagem, índices de desmatamento para agricultura e pecuária e exploração florestal seletiva da mata. Ressalta-se que dos países amazônicos o Brasil é o que mais vem queimando com 194.023 focos a Bolívia com 19.402 focos e a Colômbia com 11.316 focos em 2015.

Como ainda faltam dois meses para o término da estiagem nas regiões mais secas do Brasil, é possível que o número de focos de queimadas se aproxime ou supere 2011 que foi de 229.898 focos. Hoje na Amazônia os municípios com maiores pontos de queimadas são, Nova Esperança do Piriá- PA com 47 focos, Paranã-TO com 31 focos, Santa Luzia-MA com 24 focos, Portel-PA com 24 focos, Paragominas-PA com 23 focos, Oiapoque-AP com 21 focos, Cachoeira do Piriá-PA com 21 focos e Barra do Corda-MA com 20 focos.

Se nada for feito a cada ano é realimentado um círculo vicioso: mais desmatamento, mais fogo, mais degradação de áreas, menos chuvas. Temos que reflorestar, coibir o desmatamento criminoso e intensificar uma campanha de mudança de procedimento da agricultura de derruba e queima, para uma agricultura e pecuária sustentável. A Embrapa dispõe de um acervo tecnológico para apoiar essa campanha com tecnologias como a Roça sem Fogo, Plantio Direto, Integração Lavoura/Pecuária/Floresta (ILPF) e outros.

Raimundo Nonato Brabo Alves

Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental

Fontes

INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, 2015. Portal do Monitoramento de Queimadas e Incêndios. http://www.inpe.br/queimadas/sitAtual.php Acesso em: 06/11/1015

http://amazoniareal.com.br/fumaca-das-queimadas-provoca-decretacao-da-situacao-de-emergencia-em-12-cidades-do-amazonas/

http://www.ebc.com.br/noticias/2015/10/brigadistas-lutam-para-apagar-incendio-na-terra-indigena-arariboia-no-maranhao

http://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2015/10/manaus-amanhece-mais-uma-vez-encoberta-por-fumaca-de-incendios.html

http://www.greenpeace.org/brasil/pt/Noticias/Mais-fogo-e-menos-agua/

http://www.greenpeace.org/brasil/pt/Noticias/TI-Arariboia-dois-meses-em-chamas/

 

in EcoDebate, 13/11/2015


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3 comentários em “O fogo na Amazônia, artigo de Raimundo Nonato Brabo Alves

  1. Porque o governo não intensifica a fiscalização?
    Porque não punir rigorosamente os causadores das queimadas intencionais. Sabe-se que por trás de certas queimadas estão madeireiros, porque não fiscalizar/punir estes?
    Porque a competência não chega ao Ibama e outros orgãos fiscalizadores?
    Porque tanta incompetência no setor público?
    É um desabafo pela incompetência das coisa públicas.

  2. Prezado Edgard Moreno, são ninteressantes suas perguntas. Sem pretender responde-las, pois não me sinto capaz, digo, apenas, que acredito na existência da conivência, posto que as grandes empresas e os Estados capitalistas têm suass existências dependentes do desenvolvimento econômico. Como você deve está acompanhando, através da mídia, o Brasil e as grandes empresas agropecuárias estão eufóricos com as possibilidades que estão surgindo para o crescimento da exportação de carne, para alguns países que são grandes consumidores. Abs.

  3. CAPITALISMO, CRENÇA RELIGIOSA E SUPERPOPULAÇÃO HUMANA conduzem, inevitavelmente, à devastação do meio ambiente e, a partir de detrminado estágio, a conflitos sociais cada vez mais intensos.

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