Praticando Agroecologia, artigo de Roberto Naime

agroecologia

 

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[EcoDebate] Conforme tem sido enfatizado e ressaltado, toda a concentração dos chamados modos alternativos de agricultura ou agroecológicos, estão focados na equidade e nos equilíbrios dos solos, mantidos em plena harmonia de vida, com grandiosa atividade microbiológica.

Toda a agroecologia se fundamenta na plena conservação dos solos, tanto em aspectos físicos, como microbiológicos e, por conseguinte, químicos já que se pode afirmar que equilíbrio químico resulta da plenitude da homeostase microbiológica. As arações e gradagens sucessivas tendem a causar destruição física dos terrenos, influenciando no “habitat” de todos os microrganismos presentes nos solos.

Na agricultura de pousio ou de coivara, praticada desde os tempos dos primitivos indígenas, se aprendia que várias culturas dividiam os pequenos espaços, para somarem suas mútuas resistências. Uma cultura era resistente a uma moléstia e outra a outra doença, e o conjunto acabava protegido. Este raciocínio vale para plantas e animais. Assim, na agroecologia, em vez de eliminar os inços e matos, se aprende a utilizar o somatório de resistências. O mesmo é feito entre criações diversas.

Todo mundo conhece a extrema vulnerabilidade que atinge animais em monocultivos, principalmente de pequenos animais. Isto decorre da grande proliferação de moléstias que não encontram predadores ou resistências para sua proliferação no ambiente.

A análise sistêmica é parte indispensável dentro da abordagem agroecológica. Todas as partes envolvidas, devem considerar cultivos vegetais ou criações animais dentro do contexto natural. É preciso conhecer os elementos dessa diversidade para que sejam manejados adequadamente, de maneira compatibilizada com a natureza e não em situação desarmônica, como ocorre na agricultura convencional.

Dentro desta concepção, não se considera os insetos como pragas, pois com plantas resistentes e com equilíbrio entre as populações de insetos e seus predadores. As populações de insetos tendem a não causar danos econômicos nas culturas. Dentro desta mesma diretriz, não se tratam moléstias com aplicações de agrotóxicos, mas se propicia o fortalecimento das plantas, para que não se tornem suscetíveis ao ataques de doenças e de insetos.

Os fatores que afetam o equilíbrio e a resistência das plantas tendem a ser os mesmos que prejudicam a formação das proteínas, tais como a idade da planta, a presença de umidade, as aplicações de agrotóxicos diversos e a adubação com adubo químico solúvel.

A manutenção do equilíbrio depende da recepção de nutrição adequada. Mas esta variável não é propiciada pela utilização de adubos químicos solúveis. Estas substâncias, devido a suas altas concentrações de nutrientes e elevada solubilidade, acabam provocando a absorção forçada de excessos de macronutrientes. E isto tende a produzir, permanente limitação na absorção de micronutrientes, nos quais os solos ficam empobrecidos, forçando a mobilização do princípio dos fatores limitantes de Liebig.

Todo este cenário tende a criar desequilíbrios metabólicos nas plantas e nos cultivos em geral. Também estes desequilíbrios atuam no sentido de produzir seiva rica em aminoácidos livres, que tende a ser o alimento predileto das espécies parasitárias.

Os caracteres a serem incorporados e mantidos na agricultura orgânica, biológica ou ecológica, se fundamentam na proteção e manutenção da integridade e fertilidade dos solos enquanto sistemas. Por isto a manutenção do equilíbrio biológico dos solos é fator decisivo. São os microrganismos presentes nos solos, que realizam todas estas funcionalidades.

Por isso, as intervenções mecanizadas, que produzem desestruturação dos solos e erosão dos terrenos são bastante cautelosas. Da mesma forma, o fornecimento de nutrientes por ações exógenas são evitados para não produzir desequilíbrios na homeostase do “sistema” solo.

O controle de doenças, pragas e ervas, é realizado através de rotação de culturas, pela presença de predadores naturais, ou ainda pela diversidade genética, e uso de variedades resistentes. No entanto, a adubação orgânica, intervenções biológicas, extratos de plantas e caldas elaboradas com componentes naturais também podem ser empregadas.

A proteção permanente à flora e à fauna do ecossistema local é condição essencial. Também são estimuladas as posturas que propiciam bem-estar das espécies animais de criação. E o incremento das condições de trabalho, de forma a possibilitar oportunidades de evolução humana para as partes interessadas envolvidas. Em geral é mantida uma postura de respeito à integridade das culturas tradicionais do local.

Nos procedimentos de manejo agropecuários realizados, devem ser adotadas boas práticas, havendo manutenção de higiene e asseio. As atividades extrativistas, sempre devem ser harmônicas e sustentáveis. A unidade produtiva deve maximizar a utilização de energias renováveis, bem como implementar todos os benefícios sociais resultantes das atividades, que devem ser compartilhados.

Para manutenção de uma nutrição adequada, é necessário que o solo seja fértil e biologicamente ativo, como ocorre com os solos de regiões florestais, que sustentam árvores gigantescas sem nunca terem sido adubados. Solos férteis são solos biologicamente vivos, com muita matéria orgânica e com diversas espécies vegetais, insetos e microrganismos.

Sempre se concebem abordagens sistêmicas e integradas, onde os indicadores da natureza são observados e interpretados. Quando ocorrem muitos insetos, ou determinado tipo de erva nativa, isto é resultante de alguma forma de desequilíbrio ou carência. Por isto, é adequado corrigir o desequilíbrio, em vez de matar os insetos ou eliminar a erva, pois sempre se deve eliminar a causa do problema e não apenas suas consequências.

As paisagens sempre se recobrem de plantas que se adaptam as condições do local. A ocorrência de samambaias; indica acidez dos terrenos, guanxuma indica compactação dos solos e “cabelo de porco” é indicativo da exaustão de cálcio, por exemplo. A boa “leitura” dos sinais da natureza induz a adoção de práticas de manejo que determinarão virão em benefícios para o equilíbrio dinâmico ou homeostático da vida.

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, 10/11/2015

[cite]


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6 comentários em “Praticando Agroecologia, artigo de Roberto Naime

  1. Essa é a luz no fim do túnel, AGROECOLOGIA e a AGRICULTURA BIODINAMICA. Eu acredito nisso, mas infelizmente os que detêm o poder não estão interessado nesses princípios biológicos e seu resultados. O que eles querem é mais poder e riquezas, custe o que custar, todas formas de vida inclusive dos seus familiares, que lidam diariamente com os agrotóxicos nas lavouras e isso atinge odo pequeno ao grande produtor.
    O cenário atual desse modo de produção é promissor, pois vem ganhando cada vez mais espaço na sociedade e também nos produtores, quem dera um dia mais de 50% dos produtores aderissem a esse método, a natureza agradeceria, e nos teríamos alimentos mais puros e limpos.
    Mais a luta é dura, é muita resistência e persistência para obter sucesso nessa caminhada, uma vez que, no Governo e Congresso Nacional, á maré não esta a favor. Lá não existe nenhum parlamentar que defende a bandeira da Agroecologia, pois não gera lucro duas vezes ou mais ao ano(safras). Ao contrário os parlamentares que estão no poder defendem (pois são patrocinados por grandes produtores) ou atuam fortemente no modelo de agricultura convencional, onde não existe uma relação de respeito com a terra, e os princípios que regem são meramente econômicos visando alto padrões de consumo.
    Prático agroecologia em casa, cultivando no quintal, espero um dia poder adquirir um pequeno terreno dentro da cidade onde moro e produzir para o próprio consumo e se possível comercializar na redondeza por meio de trocas, é maravilhosos isso. Colher frutos de qualidade e com amor.
    Ainda tem muito para acontecer, é um período de transição, mas felizmente existem pessoas do bem, que estão na frente e que acreditam nessa proposta de produção de alimento. Devemos multiplicar a ideia, rever nossos hábitos e consumir mais os produtos oriundos dessa prática

  2. Apoio integralmente Danilo…infelizmente se não for por consciência ou nova autopoiese, será por tragédia…

    Grande abs…

    RNaime

  3. Ledo engano.

    Ou se faz a abolição, em todo o planeta Terra, do regime social, político e econômico chamado capitalismo, e, em seu lugar, se implanta o socialismo, constituindo um único Estado Planetário, que adote, de imediato, rigoroso controle da reprodução humana, objetivando reduzir a atual população a uma quantidade equivalente a 10% dos mais de 7 bilhões existentes, ou a devastação ambiental e as intensas alterações climáticas continuarão evoluindo até quando houver, em breve espaço de tempo, o colapso total planetário.
    A avaliação que vos apresento não é profética nem pessimista; é, simplesmente, descritiva da miséria socioambiental que estamos vivendo, ao tempo em que apresenta o resultado a que nos vai levar essa miséria, se a medida indicada não for posta em prática com urgência máxima.

  4. Podia ser simpático e concordar contigo, mas nada foi mais deletério que a destruição ambiental de alguns regimes comunistas. O problema é a falácia do crescimento eterno…que é incompatível com a finitude dos recursos naturais…

    Grande abs

    RNaime

  5. Que o capitalismo – e qualquer outro regime que também se nutra de lucro – só conduz à destruição. Acredito que não há como discordar dessa afirmativa, pois a História do capitalismo, iniciada com a revolução industrial na segunda metade do século XVIII, não nos permite ter dúvidas.
    Quanto ao comunismo, caro Roberto Naime, posso afirmar que a humanidade ainda não o pode experimentar. A experiência da URSS e de alguns países que ainda de dizem socialistas, são apenas tentativas ja fracassadas – no caso da URSS – e de algumas ilhas rodeadas de capitalismo por todos os lados, sem possibilidade de êxito. É evidente que não havia, nem há, condição de essas tentativas prosperarem.
    Fiz referência, no comentário acima, a uma transformação planetária, onde não haja um bloco capitalista em confronto com outro bloco socialista.
    É evidente, também, que estou abordando a questão do ponto de vista puramente teórico, pois creio que, na prática, isso jamais ocorrerá.
    É, simplesmente, outra forma de dizer, repetindo o poeta Cazuza: “nosso destino já está traçado”.
    NOTA: considero-o simpático ao discordar dos meus pontos de vista e defender os seus pensamentos; ao contrária, me pareceria antipático. abs.

  6. Minha honestidade intelectual é obrigada a concordar que nunca houve experiência realmente socialista…

    Grande abs…

    RNaime

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