Consumicídio: Acoplamento e Ter Humano, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“A marca da cultura de consumo é a redução do ser para ter” – John Piper

Quando começou a comprar almas, o diabo inventou a sociedade de consumo” – Millôr Fernandes

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[EcoDebate] O consumo se transformou no ideal máximo da felicidade das pessoas. O “Ser humano” se transformou em “Ter humano” (Tavares, 2010). Coincidentemente, o ideal de felicidade dos produtores é atender a demanda dos consumidores e obter muito lucro neste processo. O capitalismo juntou a fome com a vontade de comer. O mundo está dominado pelo consumismo. Ter é mais importante do que Ser, como mostra Fred Tavares (2010):

Segundo a filosofia, o ser pode ser compreendido de várias maneiras: substância, existência, essência, ser-em-si, ser-no-mundo, ser de razão. Num sentido que aparece na filosofia grega, o ser se opõe ao devir (…) Sorvendo-se dos olhares de Deleuze e Guattari, busca-se refletir o ser humano e as suas transformações psicossociais e culturais, através de uma nova representação: a do ‘ter humano’. Não como uma concepção metafísica da natureza humana, mas, sobretudo, sob uma perspectiva do devir, ou seja, na fluidez e mutabilidade do indivíduo como estratégia de uma virtualidade identitária. O consumidor contemporâneo pode ser classificado como “ter humano”. Pois, o desejo de consumir torna-o uma subjetividade em dobra, inacabada. Incessantemente, transformando-o em uma identidade líquida, fluida e virtual. Na cultura do consumo, o indivíduo passa a ser valorizado e reconhecido mais por ter do que ser, ou pelo menos, do parecer ter”.

Mas o vício consumista depende da generosidade da natureza em fornecer recursos materiais, sendo que o crescimento ilimitado da economia depende da oferta limitada de carvão, óleo, gás natural, minérios, areias raras, madeira, água, fertilidade do solo, peixes, biodiversidae, etc. A economia ecológica ensina que a economia faz parte da ecologia e é impossível a primeira sobrepujar a segunda. Ou seja, o tamanho do espaço ecológico é um determinante que impõe uma limitação intransponível à economia, pois a parte não pode ser maior que o todo. O crescimento do consumo e a multiplicação dos bens e das marcas não pode ocorrer por meio do esgotamento das riquezas do meio ambiente. Josep Maria Galí, autor do libro: “Consumicidio: Ensayo sobre el consumo (in)sostenible” faz uma crítica das condutas do consumo nas sociedades de economia capitalista e à lógica do consumismo (Gali, 2014).

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Dito em outras palavras: é impossível manter um crescimento econômico infinito em um Planeta finito. Porém, existem pensadores utópicos ou cornucopianos que consideram ser possível manter o modelo de crescimento do consumo, mas desmaterializando os bens de consumo, quer seja pelo crescimento da sociedade da informação e do conhecimento ou pelo desacoplamento (decoupling) entre bens de consumo e recursos naturais.

A ideia do desacoplamento é tema central do Painel Internacional de Recursos da ONU (UNEP, 2015), que sonha em dissociar os efeitos do crescimento econômico do uso dos recursos naturais e dos seus impactos ambientais. Todavia a realidade tem mostrado que a degradação do patrimônio natural continua concomitantemente ao crescimento da poluição em todas as suas formas. O próprio Painel de Recursos da ONU reconhece que o uso global per capita de materiais (biomassa, combustíveis fosseis, minerais metálicos e minerais não metálicos) continua crescendo, pois era de seis toneladas, em 1970, passou para oito toneladas, em 2000 e chegou a dez toneladas, em 2010. Houve portanto aumento absoluto no uso e abuso dos materiais arrancados das entranhas da Terra. Mas também houve crescimento relativo, pois a quantidade de material (kg) para produzir uma unidade de PIB (US$) passou de 1,2 kg, em 2000 para 1,4 kg, em 2010.

Além disto, o nível de reciclagem é muito baixo e o montante de luxo e lixo é muito alto. Vale a pena ler os textos de Vaclav Smil sobre as ilusões do desacoplamento. Segundo a pesquisadora Maria Amélia Enríquez (ex-presidenta da Eco Eco e membro do Painel Internacional de Recursos da ONU), o atual padrão de consumo global é insustentável e somente seria possível assegurar o bem-estar social global, se houvesse forte aumento na eficiência dos recursos, redução na intensidade de uso e aumento de produtividade. Coisa que não está ocorrendo devido ao “efeito rebote” e ao Paradoxo de Jevons.

O relatório “Connecting Global Priorities: Biodiversity and Human Health” (WHO, 2015) da Organização mundial da Saúde, constata:

Os últimos 50 anos viram melhorias sem precedentes na saúde humana, tal como medido pela maioria métricas convencionais. Este florescimento humano tem, no entanto, sido realizado às custas da degradação extensa dos sistemas ecológicos e biogeoquímicos da Terra. Os impactos das transformações para estes sistemas; incluindo a aceleração da ruptura climática, degradação do solo, crescente escassez de água, a pesca predatória, poluição e perda de biodiversidade; já começaram a impactar negativamente a saúde humana. Se nada for feito essas mudanças ameaçam reverter os ganhos globais de saúde das últimas décadas e provavelmente vai se tornar a ameaça dominante para a saúde durante o corrente século” (p. xi).

Por tudo isto, a economia ecológica ensina que é impossível manter o crescimento das atividades antrópicas no cenário do fluxo metabólico entrópico. Segundo Nicholas Georgescu-Roegen, com base na segunda lei da termodinâmica – lei do aumento da entropia – as transformações naturais ocorrem com o aumento de energia não utilizável para fazer trabalho. O andamento dos processos naturais resulta num constante aumento de energia não aproveitável e do aumento do grau de desordem do sistema. Isto é, há um constante aumento da entropia (e do caos) associado ao processo de produção de bens voltados à felicidade do “Ter humano”.

Há 10.000 anos os seres humanos e seus animais representavam menos de um décimo de um por cento da biomassa dos vertebrados da terra. Agora, eles são 97 por cento (Ron Patterson, apud Alves 2014). Cresceram as áreas ecúmenas e diminuíram as áreas anecúmenas. O domínio humano sobre o Planeta (Antropoceno) está provocando a sexta extinção em massa das espécies. Infelizmente, a proposta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) pouco faz para alterar a rota rumo ao precipício.

Portanto, tem sido uma ilusão conciliar os imperativos gêmeos da conservação e do desenvolvimento. A ideia do “desenvolvimento sustentável” tem sido apenas um bordão cada vez mais difícil de ser vendido aos cidadãos (transformados em consumidores) do mundo. O desenvolvimento sustentável virou uma contradição em termos. A dependência do consumo transforma a cidadania em doença consumista. Mas o CONSUMICÍDIO pode destruir todo o processo civilizatório que ocorre deste o surgimento do homo sapiens até a sua transformação em homo economicus. A Eco-nomia não pode viver sem a Eco-logia. Ou mudamos o estilo de vida e evitamos a degradação ambiental ou haverá um colapso da vida na Terra.

Referências:

ALVES, JED. Para evitar o holocausto biológico: aumentar as áreas anecúmenas e reselvagerizar metade do mundo, Ecodebate, RJ, 03/12/2014

http://www.ecodebate.com.br/2014/12/03/para-evitar-o-holocausto-biologico-aumentar-as-areas-anecumenas-e-reselvagerizar-metade-do-mundo-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

GALI, Josep M. Consumicídio: Ensayo sobre el consume (in)sostenible. Omniabooks, 2014

https://books.google.com.br/books?id=mBGTAgAAQBAJ&pg=PT2&lpg=PT2&dq=consumicidio+ensayo+sobre+el+consumo+%28in%29sostenible&source=bl&ots=bDX6fcdUas&sig=qcl0PMnikqxtpl9YUq6Axfq1o9M&hl=pt-BR&sa=X&ved=0CEYQ6AEwBWoVChMIrPaqhpHyxwIVQ4GQCh0gCAHa#v=onepage&q=consumicidio%20ensayo%20sobre%20el%20consumo%20%28in%29sostenible&f=false

UNEP. The International Resource Panel (IRP) United Nations Environment Programme,2011

http://www.unep.org/resourcepanel/KnowledgeResources/AssessmentAreasReports/Decoupling/tabid/133329/Default.aspx

TAVARES, Fred. Do Ser Humano ao Ter Humano. O Comportamento do Consumidor e a Teoria do Mosaico Fluído, 22/01/2010

http://www.portaldomarketing.com.br/Artigos2/Do_ser_humano_ao_ter_humano_o_comportamento_do_consumidor_e_a_teoria_do_mosaico_fluido.htm

WHO. Connecting Global Priorities: Biodiversity and Human Health, september 2015 www.cbd.int/health/stateofknowledge/default.shtml.

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, 30/09/2015

Consumicídio: Acoplamento e Ter Humano, artigo de José Eustáquio Diniz Alves, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/09/2015, https://www.ecodebate.com.br/2015/09/30/consumicidio-acoplamento-e-ter-humano-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.


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4 comentários em “Consumicídio: Acoplamento e Ter Humano, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

  1. Muito interessante.
    Obrigado pelas informações e o firme posicionamento.
    Sds, Leo

  2. Excelente artigo…

    Ou a civilização humana altera seu arranjo sistêmico de equilíbrio ou caminha para hecatombe…

    Abs…

    RNaime

  3. Que a sociedade de consumo está levando a humanidade para o quiabo, com isso concordo em gênero número e grau.

    O problema é o que fazer, depois de reconhecer esse problema.

    A maior parte do consumo de muitas pessoas, e praticamente todo o consumo daqueles que estão causando a maior parte do dano ambiental da nossa sociedade (pois todos os somalianos juntos não chegam à pegada ecológica de um dos 10 primeiros da Forbes) não é provocada por necessidade. Nem sequer é exatamente por conforto. É pura e simplesmente para demonstrar status.

    Isso porque estamos em um mundo em que “Ter” é sinônimo de status. Por isso, por mais que se façam campanhas para se diminuir o consumo, elas tropeçam em uma das características básicas da humanidade: querer status.

    Um mundo em que “Ser” é sinônimo de status seria melhor? Olha, já caí nessa armadilha antes, até que vi o argumento: já tivemos um mundo assim. Não importava quanto você tinha, mas quem você era. E como determinar isso? Lógico, por meio do seu nascimento. Separando as pessoas em Nobreza e Plebe, sem a mínima possibilidade de se mudar isso em vida (reza para ter a sorte de ressuscitar melhor aí, ou de ir para o céu, onde você será o nobre). Ná, apesar de bom cenário de histórias, era uma droga de mundo.

    Um mundo sem status? Boa sorte, mas se algum dia chegarmos nisso, já não seremos mais (i) Homo sapiens (i) . A determinação de status está mais para imperativo biológico de espécies sociais que qualquer outra coisa… quando se acha que uma espécie não tem determinações rígidas de hierarquia (como se julgou por algum tempo com patos) logo se descobre o contrário. E apesar de muita gente não acreditar, humanos e bichos só são diferentes em gradação. Sermos criaturas sociais sem determinação de status? Não consigo nem imaginar como uma sociedade dessas funcionaria (se alguém der exemplo de algum coletivo por aí, vou rir. Conheço e até já participei de alguns, mas não é porque dizem “não temos líderes” que não há líderes, que não tem aquela pessoa cuja opinião move metade do grupo, que não tem aquele sujeito que levanta a bandeira, que não tem a outra que organiza tudo, etc. Não haver hierarquia expressa é diferente de não haver hierarquia).

    Usar algo diferente como status? Depende primeiro de se escolher o quê, depois de conseguir convencer gente suficiente de que isso determina status para causar uma mudança na sociedade (a última, de aristocracia para burquesia, não foi nem rápida nem tranquila). Ignorando esse gigantesco elefante branco, o que fazer?

    Trocar o “Ter” por “Doar”? Possível, usado já como símbolo de status por algumas sociedades no passado (especialmente na Polinésia), mas cai na mesma armadilha do Ter, mesmo que pareça mais bonito. Doa-se algo, algo normalmente é material, portanto recursos a mais são necessários.

    Gosto do “Saber”, que também já foi (em algumas universidades e ambientes ainda é) símbolo de status antes, que é adquirido durante a vida (saíndo das armadilhas do “Ser”) e que é imaterial e difícil de acumular depois de certo ponto (saindo das armadilhas do Ter). Mas minha preferência tem muito viés distorcido pela nerdice :)

    Outro que anda aumentando é o “Aparecer” (fama e riqueza costumam vir juntas, mas nem sempre). Outro símbolo de status, normalmente acompanhado de manifestações artísticas (cantar, dançar, atuar, etc). Tem muitas das mesmas vantagens do “Saber” com a diferença de que é mais democrático (mais tipos diferentes de habilidades conseguem fazer uma pessoa se dar bem). É uma tortura para os introspectivos, mas todo sistema de status tem os seus prejudicados. Dentre esses todos, é um dos poucos cuja influência parece estar ficando maior na sociedade (quantas pessoas não são obcecadas por números de seguidores e likes?). Pode parecer horrível para muitos mas uma mudança da sociedade para valorizar o “Aparecer” cada vez mais já anda em curso. Com muita, muita sorte talvez essa maré pudesse ser usada para diminuir os efeitos dos últimos 220 anos sob a tirania do “Ter”.

  4. Caro José Eustáquio,
    E o que fazer para mudar isto? A solução não parece estar dentro do sistema capitalista. A lógica do capital é o lucro (a acumulação) e, para isto, há que se produzir cada vez mais bens materiais.
    Acho que os críticos marxistas do valor (Robert Kurz, Anselm Jappe e outros) são os que explicam melhor o problema do capitalismo, que não é moral nem deliberado: é da forma social assumida pelo capitalismo e de carater inconsciente (fetichista).
    Para eles, o problema reside nas categorias mercadoria e no trabalho, invetadas pelo homem moderno e nas quais se assentam a dinâmica do capital. Os danos ao meio ambiente são consequências desta dinâmica.
    A única forma de superar o capitalismo seria abolir a mercadoria (e o dinheiro que expressa o seu valor) e o trabalho (uma mercadoria especial) tal como concebido na sociedade capitalista.

Comentários encerrados.

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